'Toureando o Diabo' no Scream & Yell

“Essa é uma obra de ficção? Qualquer semelhança com personagens vivos ou mortos é problema de vocês”, é o aviso impresso no colofão de “Toureando o Diabo”, sétimo livro de Clara Averbuck e segundo em parceria com a ilustradora Eva Uviedo. No romance, Clara resgata a protagonista de seus dois primeiros romances, Camila, que agora, entrando na faixa dos trinta, resolve remexer em seus cadernos do passado e repassar sua vida, desde aquela época em que “queria ser a mais inteligente, a mais linda, a mais engraçada, a mais talentosa, a que mais se destacava, a que mais… agradava os caras” até o presente, em que entende que o seu fortalecimento e, nas suas palavras, “redenção” só é possível através da união com as outras mulheres. Mas ainda que haja várias boas passagens feministas, o livro não panfleta sobre isso: há ainda uma mistura de relatos sobre as relações conturbadas com diversos homens ao longo de sua vida e reflexões sobre o ofício de escrever.

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Escrito em um fluxo de consciência que remete a uma versão mais rock and roll de Elvira Vigna, o livro não tem uma história propriamente dita, sendo antes uma narrativa costurada por bilhetes, poemas, letras de música e pensamentos escritos à mão, rabiscos soltos e desenhos diversos, que passam ao leitor a sensação de estar de posse de um diário íntimo da narradora-personagem. As ilustrações ficaram a cargo da artista Eva Uviedo, parceira de longa data de Clara, que traduz em imagens muitos dos sentimentos expostos pela personagem. O resultado é belíssimo.

Com o objetivo de ter maior independência, as autoras resolveram recorrer ao financiamento coletivo para viabilizar a brochura, e conseguiram reunir mais de 600 apoiadores, cujos investimentos ultrapassaram a marca inicial de 35 mil reais (agora o livro pode ser adquirido aqui). Na entrevista a seguir, Clara Averbuck e Eva Uviedo contam sobre como foi esta primeira experiência e falam ainda sobre o processo de criação da obra.

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O texto parece depender muito das imagens; gostaria de saber como foi o processo de criação. Vocês fizeram juntas, ou acontecia do desenho vir depois do texto ou vice-versa?
Clara: Eu escrevia, mandava pra Eva, ela desenhava, a gente discutia. O processo de escolher os textos dos caderninhos também foi bem legal. O trabalho de edição de texto foi nosso e isso foi incrível. Eu e a Eva construímos essa Camila juntas. Cortamos muito, muito texto, e alguns foram substituídos pelas ilustras, que realmente dão a liga do livro. O texto sozinho não existe.

Eva: A mesma coisa com os desenhos. Alguns eu diagramava junto com o texto e pensava: não, esse precisa escrever à mão, tem que ter a letra da Clara nessa imagem, vai dar a força que falta. E a gente é geminiana, muda de ideia loucamente, trocamos tudo de lugar mil vezes. Tem muita ilustração que eu fiz inspirada pela personagem, mas não sabia onde ia encaixar ainda, daí ficava zanzando de uma página pra outra até achar seu lugar. Quando todo mundo achou seu lugar, texto e imagens, demos o livro por terminado.

Eva, você pode falar sobre a escolha das ilustrações da série Sobre Amor & Outros Peixes e contar um pouco sobre sua inspiração para criá-la?
Eva
: Não sei bem como surgiu essa série. Comecei desenhando peixes alados em todo lugar por volta de 2005, daí em diante a viagem aquática foi indo em várias direções.

Eu curto muito a diversidade dos seres marinhos; saber de um animal como um tubarão, que é muito suave e ao mesmo tempo extremamente violento. Ou a arraia, que é completamente mansa, mas muito perigosa se você pisar nela. O polvo, envolvente; o peixe, fugaz. Fui identificando nas características deles muitos comportamentos que poderia atribuir a humanos, e por aí foi.

A primeira vez que a gente juntou os dois universos, o da Clara e o meu, foi no livro “Nossa Senhora da Pequena Morte” (2008). Já estavam ali as mulheres com cabelo de tentáculo e tudo o mais.

Acho que combina bem com a característica mutante da personagem, e nesse livro ela está, mais do que nunca, fugindo de um molde, ela está em eterna reconstrução.

E por outro lado, acho que a história da Camila vai trazer uma compreensão das pessoas para as ilustrações. Por exemplo, tem uma hora em que ela narra um amor que apenas escapa, e no desenho quem está fugindo é um peixe. Daí vai construindo um universo simbólico que até agora era só meu, mas espero que vá indo para o mundo pra ser entendido de uma forma mais abstrata. A real é que desenho não é muito pra explicar, ele precisa apenas funcionar. Mas o significado está lá.

+++ Leia na íntegra aqui: http://screamyell.com.br/site/2016/03/14/entrevista-clara-averbuck-e-eva-uviedo/

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