SOBRE ARTE E POLÍTICA


“‘Antes de começar a falar de cultura aponto que o mundo tem fome’, escreveu Artaud no prefácio de seu livro “O Teatro e seu Duplo”, publicado em 1938. O poeta louco, o poeta da dor, era inseparável da realidade, embora sua estética artística estivesse ligada ao surrealismo. Infelizmente essa frase ainda em vigor hoje, foi muito eficaz no final dos anos setenta, quando um grupo de jovens lia seu livro e queria fazer teatro. Um teatro que forjou a cultura ligada à vida, e que a alimentava. Não um teatro que fosse parte da cultura que está acima da sociedade, longe dela, e que a oprime. Como as instituições são parte da cultura, esses jovens eram contra todas as instituições que, com as suas ações, tendem a perpetuar a fome e a regulamentar a vida para com isso perpetuar a fome.

Três anos antes da publicação desse livro, Breton, líder do movimento surrealista, terminou um discurso no congresso de uma associação de escritores revolucionários, rompendo definitivamente com o realismo socialista do stalinismo, com a seguinte frase: “Transformar o mundo, disse Marx. Mudar a vida, disse Rimbaud. Para nós, esses dois slogans são um só.” Desde então, arte e revolução, revolução e arte se transformou em um binômio indissolúvel para muitos artistas. Revolucionar a arte, a arte anti-vida, arte-comércio, a arte elitista. Fazer arte para a revolução. Transformar o mundo e mudar a vida virou o norte de todas as ações e pensamento daqueles jovens em Buenos Aires no final dos anos setenta. E começaram a fazer, a fazer muito, em teatros, casas, bibliotecas, clubes, ruas, apesar de viver sob a mais feroz repressão na história moderna, quando juntar mais de três pessoas era considerado subversiva e punível com penas atrozes. Todos os eventos e intervenções teatrais feitas por TiT buscavam a ruptura com o teatro espaço-sede tradicional, com a relação desigual entre atores e audiência, e a dependência de teatro em relação à literatura. (…) E com base em escritos de Marx e Engels conceberam o slogan “por menos artistas, e mais homens e mulheres que façam arte.”

(discurso na entrega do prêmio Podestá, da Ass. Argentina de Autores, 2014)
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Esse grupo, do qual fazia parte um certo Don Juan Uviedo, chamava-se Taller de Investigaciones Teatrales (TiT) e obviamente sou suspeita pra falar, mas tinha um trabalho que vale muito a pena ser conhecido e lembrado; pra quem quer saber mais a respeito, o site criado por Rubén Bat tem uma vasta documentação fotográfica, em texto e vídeo e é um ótimo retrato de como se fazia arte e política nos loucos e doloridos anos setenta.

http://tit.16mb.com/mencion.htm

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