ENTREVISTA: PROJETO MULHERES ARTISTAS

O projeto Mulheres Artistas foi criado por Indiara Launa, estudante de ciências sociais na UPE – Universidade de Pernambuco e artista visual, e idealizado a partir de uma pesquisa acadêmica sobre a Cena contemporânea feminina nas Artes Visuais. Através de total imersão nessa cena, e com entrevistas de mulheres que tinham algo a falar, surgiu esta plataforma com o objetivo de reunir essas artistas. Formado pelas artistas entrevistadas, o projeto tem como o objetivo promover o dialogo entre as mulheres, a arte e o público interessado em conhecer mais esse movimento. O foco é compartilhar cultura e fortalecer as mulheres distantes fisicamente, mas unidas pela arte. Você pode apresentar o seu trabalho e responder a entrevista através do formulário de inscrições no site.

Conheça: https://projetomulheresartistas.wordpress.com/

Essa é a entrevista que eu dei, são ótimas questões:

Quando começou a produzir arte? Quais as motivações para esse início?

Desde criança ouvi que tinha talento para o desenho. Porém ao longo da vida fui me envolvendo com outras áreas, jornalismo, documentários, direção de arte, desenvolvimento web. E estudando pintura ao mesmo tempo. Foi só depois do retorno de Saturno tirei o desenho da lista dos hobbies e passei a levar ilustração como uma profissão. E só recentemente tomei coragem de assumir um lado mais autoral, desenvolver uma série e um universo pictórico próprio. A motivação é mostrar pro mundo algo que eu tinha só pra mim.

Teve alguma inspiração para produzir arte?

Meus pais eram artistas (minha mãe, cantora, e meu pai, teatrólogo, escritor e desenhava muito bem) e sempre criaram um ambiente muito propício para a expressão artística, mostrando obras de arte, e incentivando. Mas era algo que eu usava só como válvula de escape. Agora eu quero contar pro mundo como eu penso, como me sinto.

Qual a relação da arte na sua vida? Como ela te influência e como você quer influenciar o outros?

Sim, no sentido da frase ‘a arte existe para que a verdade não nos destrua’, de Nietzsche, acho que é uma maneira de lidar com a vida em um âmbito que não o linear, verbal, lógico. Ou, como disse Ferreira Gullar: “A arte existe porque a vida não basta”. Muitas obras de arte me influenciaram, mas muito mais no sentido de insuflar o espírito. Em geral acontece com música, que muda meu humor, me motiva, altera os sentidos. Eu adoraria poder influenciar as pessoas como um cantor de banda de rock faz, por exemplo. Mas não me vejo caminhando rumo a isso. Se eu conseguir passar uma ideia, explicar uma teoria contida em uma série de desenhos, já vou considerar uma vitória.

Que técnicas você utiliza? Segue algum estilo convencional ou o próprio?

Uso aquarela, café, nanquim e estou sempre à procura de um estilo próprio a partir de uma natural mistura de influências. No meu caso, gosto muito de arte oriental. Sou muito influenciada pela arte japonesa e seus símbolos: peixes, mar, polvos, gueixas… Filosoficamente gosto do minimalismo do Sumie (a arte do essencial) e do conceito do Kintsugi (arte japonesa da restauração). Amo desde os gravuristas Hiroshige, Hokusai e Utamaro até as moderníssimas Yuko Shimizu, Yayoi Kusama e claro, a musa Yoko Ono com sua arte poética e política. E gosto do estilo vitoriano, fotografias antigas. Faço um mix de tudo isso.

O que você representa na sua arte? Como isso fala com você de forma subjetiva?

Em geral, represento mulheres em diversas fases da vida. Crianças, meninas, adolescentes, adultas. Está relacionado à forma como me vejo. Acho que todas as idades estão dentro de nós, e surgem conforme a ocasião.

Sua arte tem alguma relação direta com ser mulher? E como isso é representado?

De certa forma, sim, pois meu ponto de vista é o de uma mulher. Mas não acho que abordo questões de gênero, tento trabalhar os sentimentos humanos. Na série Sobre Amor & outros Peixes, a personagem feminina (que pode ser criança, adolescente ou adulta) se relaciona com um ser do mar, que não necessariamente tem um gênero definido. É um sentimento. Um tipo de relação, de dinâmica, que conheço de um ponto de vista bem limitado, o meu. Mas o legal do simbólico é que cada um pode usar para se identificar a partir das suas próprias histórias.

“Meu ponto de vista é o de uma mulher. Mas não acho que abordo questões de gênero, tento trabalhar os sentimentos humanos”

Sua arte tem alguma relação política ou dialoga com alguma ideologia?

Não. Na minha arte, só procuro retratar as coisas como elas são, bem niilista mesmo.

Você se vê dentro de alguma cena artística?

Não, infelizmente. Não estou na cena de galerias ‘sérias’, SP-Art etc; nem de Street art, não faço Graffitti, não ‘dialogo com a cidade’, não sou do mundo da moda, e nem entro na categoria de mulheres que fazem arte feminista. Digo infelizmente porque acho seria mais fácil se eu me encaixasse em alguma cena, mas não foi uma opção, simplesmente aconteceu.

Acho muito estranho quando falam que meu trabalho ‘é delicado, feminino’, como se fossem coisas naturalmente associadas.

Você sentiu alguma dificuldade ou preconceito ao se inserir na arte por ser mulher?

Não é bem um preconceito. Mas me incomoda um pouco a diferença de tratamento. Acho muito estranho quando falam que meu trabalho ‘é delicado, feminino’, como se fossem coisas naturalmente associadas. Existem trabalhos super agressivos de mulheres, e homens com um trabalho super delicado, como Conrad Roset. E nunca vi falarem do trabalho artístico de um homem como ‘é masculino’, porque esse é o gênero neutro. Não gosto muito dessa associação porque dá a impressão de que faço um tipo de arte que só pode ser apreciado por mulheres, e não é verdade. Nesse sentido, dificulta, pois diminui o número de jobs para os quais posso ser chamada.

https://projetomulheresartistas.wordpress.com/2017/06/26/eva-uviedo/

Anúncios