SOBRE AS FRONTEIRAS QUE NÃO PRECISAMOS


Um combo de curiosidade, gosto pela política e tempo livre configuraram que a tarefa de buscar candidatos ao legislativo para o Mauro votar é por minha conta. Não lembro como cheguei no nome da Erica Malunguinho para deputada estadual, mas ao bater o olho no seu Instagram dei de cara com um texto que me ganhou. Segue:

“Imigração é um tema muito importante a ser debatido, é como pensar diásporas. Há muitos motivos pelos quais as pessoas fazem esse fluxo e quase sempre estão ligados as tormentas e as dificuldades de sobrevivência em terras de origem. Antes de mais nada é bom lembrar que esta ideia de Estado Nação é em si problemática.”

(CAIRAM DUAS LÁGRIMAS QUANDO LI ESSA PARTE, VOU REPETIR: A IDEIA DE ESTADO NAÇÃO É PROBLEMÁTICA).

“As pessoas deveriam apenas poder ir, andar, caminhar e buscar refúgio pelo desejo de andarilhar… Naturalizar-se, nacionalizar-se simplesmente pela aderência as culturas. Mas não é assim, os refúgios estão diretamente ligados às demarcações territoriais que geraram disputas, guerras, instabilidades sociais e protecionismos segregacionistas.

Qualquer um(a) que o mandatário / latifundiário / governante / sistema decidir é estranho/o outro / estrangeiro; e é a partir do fundamento racial, da ideia de casta e/ou classe, língua, fenótipo, hábitos que isso se materializa.”

Muitos me perguntam por que eu não me naturalizei brasileira para poder votar; acontece que para isso eu precisaria ABDICAR de ser argentina, algo que não faz sentido para mim. Nascida na Argentina, residente há 30 anos no Brasil, é ISSO que sou. E tudo bem pra mim não votar – desde que eu mantenha o direito de ter e exprimir minha opinião.

Depois de tanto tempo morando aqui, é óbvio que eu amo o Brasil; mas nem sempre recebo esse amor de volta. E mesmo depois de 30 anos, ainda estou sujeita a ouvir um “volta para sua terra” quando a coisa esquenta. Já ouvi isso algumas vezes, mas cada vez que falam isso para um imigrante dói como se fosse para mim.

Assim como tantos, não vim para cá por causa das belas praias. Vim criança, fugindo de uma ditadura HORRÍVEL pra cair em uma MENOS PIOR. É de ditaduras que a gente SEMPRE foge na América Latina, deveríamos estar cansados de saber. Deveríamos saber identificar (e deter) uma pelo cheiro, pela cara, pelo som das botas. Pelas notícias de pessoas agredidas por sua roupa, por seus modos, pelo que pensa.

Mesmo dentro de uma democracia, precisamos encontrar formas de garantir que TODOS tenham os mesmos direitos, que negros, mulheres, LGBTs, PcDs (pessoas com deficiência), moradores de favelas não sejam considerados “minorias querendo direitos demais” porque o autodenominado “cidadão de bem”, essa FICÇÃO, sente que vale mais que todos, se achando verdadeiro herdeiro desta terra roubada.

Deveríamos parar de criar fronteiras. 
Deveríamos parar de criar estrangeiros. 
Amanhã pode ser você.

#EleNão

p.s.: Erica Malunguinho é mulher trans, negra, pernambucana e foi eleita Deputada Estadual em SP pelo Psol

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