MARIE KONDO E A ARTE DE ORGANIZAR AS IDEIAS

Estreia da nova série da Netflix trouxe de volta à tona o método best seller de arrumação e deixou muita gente confusa – ou apaixonada

Após sete anos do lançamento, o best-seller (mais de 8 milhões de cópias vendidas em mais de 40 países) escrito por Marie Kondo “A mágica da arrumação — a arte japonesa de colocar ordem na sua casa e na sua vida”  voltou a causar polêmica. O método, desenvolvido no Japão por Marie, tem uma série de dicas que parecem muito estranhas sob o olhar ocidental, materialista e consumista ao extremo retratado no programa. E infelizmente a série vem mais para confundir do que esclarecer, mesmo que às vezes pareça benéfico.

No programa “Ordem na casa” tanto a fetichização pela figura carismática da autora como FADA ORIENTAL PERFEITA ORGANIZADORA IMPECÁVEL quanto a mitificação excessiva de rituais como agradecer a casa ou abraçar suas roupas acaba FOLCLORIZANDO o método de forma caricatural e transformando tudo ou em salvação mágica — ou piada.

Não é nem um, nem outro; mas infelizmente pode parecer.

Pensamento mágico: o mito da fada exótica que com sua cultura espiritualizada tem como missão salvar as pobres almas perdidas ocidentais

O método foi desenvolvido pela profissional de organização após anos de experiência e estudo, e a partir da aplicação crítica de outros métodos conhecidos de arrumação. Pra quem não conhece, a base do método é: mantenha apenas aquilo que te traz alegria. Mas como assim? 

Bom, o conceito é explicado em um livro de 158 páginas, então pode parecer estranho se você apenas assiste um ou dois episódios, mas ele faz sentido.

O método Marie Kondo consiste em seis passos simples:

1) comprometa-se com a arrumação;
2) imagine o estilo de vida ideal;
3) termine o descarte antes de arrumar;
4) organize por categoria e não por cômodo; e
5) siga a ordem correta, sem pular etapas (essa parte é importante):
roupas e sapatos; livros; papelada; itens diversos; e por último, itens de valor sentimental (coleções, álbuns de fotos).

Não chega a ser uma filosofia milenar, atávica ou mágica, apesar de provavelmente alguns traços da cultura oriental estarem contidos nele.

A ideia de Marie Kondo que me parece mais razoável (não fica explícita, mas permeia todo o método) é a de que, se a relação que temos com os objetos envolve sentimentos em algum grau, é necessário um ritual que leve isso em conta ao se livrar deles. Arrumar sua casa não é o mesmo que arrumar os papéis da firma.

Se a relação que temos com os objetos envolve sentimentos, é necessário um ritual que leve isso em conta ao se livrar deles

Por isso faz sentido a ordem rígida do processo de descarte, o ato de cumprimentar e agradecer a casa (muitas vezes estamos com raiva e frustrados com a bagunça, então mudar para uma atitude positiva é importante), sentir o objeto, agradecer antes de mandar embora… Não é OBRIGATÓRIO, mas muitas vezes ajuda.

A família oriental não estranhou nem um pouco a ideia de falar com a casa

Problematizando as soluções

Apesar de certa forma ficar claro que a mudança é da pessoa, e ela apenas dá a ferramenta TÉCNICA da arrumação, por ser um reality show com algum foco no drama dos personagens, precisaria de mais intervenção nas dificuldades enfrentadas.

Exemplo: em um episódio, a mulher é de origem paquistanesa e tem dificuldade em desapegar de seus lenços típicos, que ficam guardados escondidos no armário de brinquedos dos filhos. Diz que é uma forma de se conectar com suas raízes. O programa mostra a tensão (o marido parece incomodado), mas nada é dito ou feito pra resolver. Os lenços seguem guardados em outro quarto.

Se isso é importante para ela, poderia ter sido incentivada ou a usar os lenços de outra maneira, junto com roupas ocidentais, ou mesmo a participar mais da comunidade de seu país de origem.

Claro que, aplicando corretamente o método, provavelmente isso vai acontecer uma hora ou outra. Mas para quem assiste, ficou faltando esse toque, algo que poderia ter sido incentivado na hora.

Ela também está se sentindo gorda, então as roupas que servem ela não gosta, as que ela gosta não lhe servem. Kondo fala da própria dificuldade de comprar roupas por ser muito pequena e magrinha e tudo fica por isso mesmo também. Caberia aí uma conversa, mesmo que rápida, sobre a importância de se sentir bem, independente do peso.

Mas, apesar de mostrar as histórias, o foco da solução é basicamente a ordem, e muitos outros assuntos são deixados de lado, lamentavelmente, com poucas exceções.

Que falta você faz, Karamo [Divulgação /Queer eye]

Ordenando a Ordem

Agora do ponto de vista da arrumação, vou dar uma de brasileira e depois dos episódios “ensinando cristianismo ao Papa” e “contestando alemães sobre nazismo”, vou CORRIGIR A ARRUMAÇÃO DA MARIE KONDO na série.

Apesar do livro ser bem mais complexo do que isso, a série “Ordem na casa” acaba focando apenas no desapego, que não é suficiente para resolver o problema, embora seja um bom começo. A série mostra muito pouco Kondo ajudando na lógica da arrumação dos itens — que é parte importantíssima para manter tudo em ordem.

Observar o fluxo em que os moradores da casa se movem no dia a dia e ordenar os itens de maneira a facilitar suas atividades é como se fosse um urbanismo caseiro e super importante para se sentir bem. Entender esses caminhos pela casa, menos do que as mandingas (espelhos, mandalas etc) é a base do Feng shui.

E na série podemos notar erros básicos de fluxo como: roupas de uma pessoa espalhada por armários em vários cômodos; caixas de itens de escritório empilhadas, dificultando acesso ao conteúdo; em muitos episódios não fica claro como a cozinha foi organizada. Ou seja, em breve, tudo isso estará bagunçado novamente.

Em outro episódio, a participante é obviamente apaixonada por roupas e se sente bem com quase todas.

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Ela consegue desapegar de uma enorme quantidade, mas ainda sobra muito e acaba lotando vários armários espalhados pela enorme casa. Resolveu o problema? Infelizmente não. A dificuldade de acesso provavelmente vai fazer com que ela acabe deixando sem uso a maioria e elas vão continuar não trazendo a alegria que poderiam. No caso, o mais indicado seria usar um dos cômodos da casa (que é enorme) para criar um closet ou quarto de vestir, já que o gosto por moda é um traço marcante da cliente.

Maurício, acode aqui? [Divulgação / Decora GNT]

Não é que a série seja totalmente ruim, mas ela fica aquém de muitas outras do gênero, tanto as que tem foco em desapego / arrumação (gosto muito do Santa Ajuda! do GNT), ou as mais emotivas, com dicas edificantes de mudança de vida (Queer eye, meu amor, também no Netflix); e deixa muito a desejar na hora de explicar o método, que tem sim uma base muito legal (sim, você vai acabar tendo que ler o livro). Mas de fato Marie é carismática e muitas pessoas podem acabar se encantando com isso pra começar o processo. Meu medo é que, sem informações completas, acabem se frustrando e desistam.

Desapegando do que você ainda não tem

Uma das críticas mais acertadas que vi ao programa (e ao método) é que o foco no desapego puro e simples, com base em “você não precisa disso agora, se precisar você compra de novo” e “tenha o que te traz alegria” podem ser entendidos e aplicados como apenas outra face da mesma moeda consumista e anti-ecológica que pode até desentulhar sua casa, mas entulha O MUNDO inteiro com lixo.

A satisfação narcísica de concluir com louvor a cerimônia do desapego e método de organização da moda não podem se sobrepor ao fato de que muitas coisas que não servem mais para você servem para outras pessoas. Ou que podem ser úteis em outro momento. Ou que jogar fora todos os copinhos plásticos pra comprar de novo depois obviamente é uma atitude pouco sustentável.

Refletir sobre consumo consciente deve ser parte integrante e indispensável de qualquer processo de questionamento sobre acúmulo.

Este artigo do The Guardian explica isso muito bem: Marie Kondo, you know what would spark joy? Buying less crap | Alexandra SpringThose glossy garbage bags filled with unwanted stuff don’t just vanish – they are filling up landfills and polluting…www.theguardian.com

Mas claro que se espera que levar a pessoa a refletir sobre as coisas que ela já tem também colabore para ela pensar futuramente em qualquer coisa que ela venha a querer comprar.

Não tenho tudo que amo, mas amo tudo que tenho

Agora, as pessoas são muito LITERAIS né? Quando ela foca em manter as coisas que TRAZEM ALEGRIA ou você AMA, está dizendo de maneira geral: veja se o motivo que liga você a essa peça FAZ SENTIDO. Não espere ter orgasmos nem epifanias abraçando seus casacos.

Obviamente não temos tanto amor por uma legging de academia quanto pela blusa de renda que foi do noivado de sua querida avó. Mas se ela é útil e te traz coisas boas (te ajuda a entrar em forma), ela fica – e o ESPÍRITO DA MARIE KONDO não vai te assombrar pra dar bronca por isso.

Agora, se o tapetinho de yoga representa um curso no qual você se inscreveu, nunca foi e agora virou um símbolo da sua inércia, incompetência em cumprir o que se propôs, e dinheiro jogado fora, melhor se livrar disso rapidamente.

Não ter nada é o novo ter muito

Netflix é a nova Globo, só que maior, e qualquer nova estreia de série desencadeia o fenômeno mundial de “o assunto está em pauta”. Ok.

Então acontece que documentários como “Minimalistas” e a série “Ordem na casa” trouxeram à ordem do dia a ideia de que chique é viver com pouco. “Será que vou conseguir desapegar o bastante?” É a pergunta de dez entre dez pessoas que tentam aplicar o método. “Marie Kondo aprovaria esta gaveta?” Eu já me peguei pensando.

Substituir um combo de neurose e ideal inalcançável por outro é a armadilha da qual a gente sempre precisa fugir.

– Ficou bom assim?
– Ainda não :)

Tirando a real tendência ao consumismo da nossa sociedade, precisamos levar em consideração a história e o estilo de vida de cada um.

Você não vai falar para um colecionador de vinis se desfazer da sua coleção, afinal “tem tudo no Spotify”, e nem pra uma pessoa que gosta de cozinhar e receber amigos para jantar que “um jogo com quatro pratos é mais do que suficiente”. Para essa pessoa, não é. Por isso não existe um número perfeito de roupas no armário, de itens de cozinha na gaveta, de livros na prateleira e nem amigos no Facebook.

Ter muitas coisas pode ser difícil, e acabamos gastando mais tempo tentando encaixar as coisas em algum lugar (até concluirmos que simplesmente não cabe) do que desfrutando delas de fato. Mais tempo levando livros pra lá e pra cá do que lendo. Mais tempo organizando os discos do que ouvindo. Mais tempo tirando o pó do que aproveitando o sofá.

O mais saudável é usar métodos de arrumação mais como um questionamento sobre as coisas que você quer ter e acomodá-las de acordo com a sua personalidade, gostos e estilo de vida — e não permitir que a idealização de uma vida perfeita com sendo uma casa com poucas coisas, perfeitamente arrumadas em rolinhos, acabe gerando mais sofrimento do que alegria.

Viver rodeada apenas de coisas que eu gosto, preciso, e me trazem alegria é a base da filosofia em que passei a acreditar.

Never more.