A desinvenção do Brasil

Hoje é mais um 31 de março e só tenho mágoa para oferecer. ⁠

Mas também quero deixar aqui um trecho da biografia “O livro do Boni“, dele mesmo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho. Mais do que o homem que ajudou a dar a cara à TV Globo e à televisão brasileira: aquele ajudou, e muito, a formatar o que hoje nos acostumamos a chamar de “identidade nacional”. ⁠

Não, isso não é um elogio: no processo de criar uma rede nacional de televisão, foram eliminadas diferenças de programação entre os estados, criou-se um padrão cultural, uma uniformização de sotaques e diluição de costumes; e o resultado é impressionante – para o bem e para o mal. Durante gerações, foi dessa maneira que aprendemos a entender o que era o Brasil. Como se estabelece o ícone de mulher brasileira? Como é definido o horário dos jogos de futebol e o padrão de transmissão das escolas de Samba? Sabe a música ‘Luiza’, de Tom Jobim? foi escrita para uma novela da Globo. ⁠’Pecado Capital’, do Paulinho da Viola, também. Quem conta a história do que aconteceu neste país? ⁠

E é dessa forma, imprecisa, displicente e amoral, que Boni cita os fatos do dia 31 de março de 1964, que deram início a uma noite que durou mais de vinte anos; à ditadura militar brasileira; à miséria humanitária, milhares de mortes, à vergonha histórica: não importa. ⁠

Importa a pauta, que deixou repentinamente de ser ⁠a chegada ao Rio de Janeiro da cantora Elis Regina e passou a ser: umas tropas aí chegando de Juiz de Fora. Que depois causaram umas dificuldades, como narra o livro, relacionadas a importação de equipamentos, tecnologia, censurando umas novelas. Do umbigo do mundo de quem inventou esse Brasil, é o que importa. ⁠

E talvez seja esse Brasil que precisamos desinventar. Reinventar.⁠ Precisamos passar a nos importar mais com outras coisas.⁠ com milhares de Brasis, intensos, vibrantes. Que as vezes se perdem. Às vezes acabam se acostumando com todos os nomes da morte.

Mas é preciso viver⁠
E viver não é brincadeira não :)⁠

#ditaduranuncamais