NÃO ESTÁ TUDO BEM

Desde 2018, no mínimo, estamos lidando mal com essa pergunta-cumprimento. A gente passou a falar “e ai, tudo bem?” já emendando: “quer dizer, na medida do possível né”. Na época achei correto, afinal pegava até mal uma pergunta dessas, parecia alienação. ⁠

Mas como desgraça é pouca é bobagem e o antigo normal virou utopia, já podemos considerar que a régua do bem estar mudou um pouco. Que sim, apesar de, contudo, todavia, mas, porém, segue o baile. ⁠

Daí pode ser que a gente consiga promover uma mudança cultural e passe a mandar uns “bom dia/tarde/noite”(formal demais), “oi, e aí?” (onomatopeia paulistana demais) ou “bom te ver” (um pouco íntimo demais) e “o que me conta / o que tem feito / quais as novidades?”. Bem assim, tangenciando o ⁠assunto “realidade”.⁠

Mas na verdade a esta altura, podemos assumir que: tuuuudo bem nunca vai estar. É só uma forma de dizer. Sempre tem um não-sei-que, uma unha encravada, uma joanete, um quadro de depressão agravado pelo excesso de más notícias e falta de perspectiva no futuro, carência, injustiças, uma doença que preocupa, uma pessoa querida que se foi. ⁠

E em vez de se antecipar, meio abafando o caso e já anunciando que tá todo mundo na merda (o que é real), sou a favor de relaxar e seguirmos perguntando, sincera e abertamente, para dar a chance de quem sabe ouvir uma boa notícia, uma conquista, uma história engraçada – mas também preparados para a possibilidade, claro, de ouvir um “é, daquele jeito né?” emendado com uma lamentação (também fica permitido expurgar um pouco o que nos pesa as costas, mesmo correndo o risco de parecer um pouco conversa de véio na fila do INAMPS). ⁠

Mas talvez mesmo isso seja melhor do que se podar e atropelar esse passo de aproximação-abertura tão importante e se iludir, de um jeito estranho, que se não fosse o governo, o vírus, a iminência de um apocalipse climático e consequente extinção da humanidade aí sim, teríamos a resposta correta quando alguém perguntasse “tudo bem?”:

– tudo, e você?⁠
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p.s.: com minha amiga-irmã @ninalemos usamos “e aí, como você está?”, porque a gente realmente quer saber.
p.s.2: tá tudo bem ;)