THIS IS NOT AMERICA | lista de referências

Antes de mais nada: assista ao clipe acima.

(para quem nao entende espanhol, segue a tradução da letra)

Isso não é América: é uma provocação

Para falar do clipe de “This is Not América”, precisamos voltar um pouco no tempo.

Em 2018, o rapper e compositor René Pérez (ex-Calle 13), mais conhecido pelo nome artístico Residente, conhecido por incorporar um discurso contestador em suas músicas, criticou em uma entrevista o fato dos norteamericanos se referirem aos Estados Unidos como ‘America’. E que mesmo pensadores que ele respeita “Não têm a mentalidade inclusiva de entender que existe um continente latino-americano que também faz parte da América”.

Na sequência, falou sobre o aclamado clipe ‘This Is America’ do músico e ator Donald McKinley Glover, conhecido como Childish Gambino: “Se eu fizesse um ’This Is America’, seria muito mais abrangente, e muito mais pesado, porque não seria só com o que acontece nos Estados Unidos. Na América Latina acontecem coisas muito fodidas.”

Quatro anos depois, ele lançou sua versão “This is Not America” em parceria com Ibeyi, duo franco-cubano constituído pelas gêmeas Lisa-Kaindé e Naomi Díaz. O cantor não considera que seja uma resposta e sim uma continuação: “Sou fã do Gambino. Meu vídeo mostra o que estava faltando em ‘This is America’. Estou completando, colaborando”, disse em entrevista a BBC.

Tanto o clipe quanto a letra são repletos de referências, algumas bem óbvias, que todos correram para identificar (algumas vezes equivocadamente). Baseado no conteúdo que encontrei em threads no Twitter, correções das mesmas, vídeos no YouTube e comentários nesses vídeos (listados no fim do texto), chequei a maioria e listei abaixo:

As referências em “This Is NOT America”

O clipe começa citando a obra “A Logo for America” do artista chileno Alfredo Jaar, que em 1987 fez uma intervenção em um painel eletrônico na Times Square com o mesmo tema que a música vai explorar a seguir: que EUA não são sinônimo de “América”

Na sequência, o clipe faz referência a Lolita Lebrón Sotomayor, ativista boricua na luta pela independência de Porto Rico, que liderou um protesto na Câmara dos Deputados dos Estados Unidos em março de 1954.

Desde hace rato,
cuando ustedes llegaron,
ya estaban las huellas de nuestros zapatos

Ao longo do clipe, aparecem crianças representando povos originários de várias partes do continente (não me arrisco a tentar identificar, se alguém souber me fala):

Assim a representação da América está mais adequada. Aqui vemos a figura de um nativo do território hoje chamado Estados Unidos da América substituindo a Estátua da Liberdade – a escultura “Liberty Enlightening the World”, foi projetada pelo artista francês Frédéric Auguste Bartholdi e virou símbolo dos EUA.

A cena em que o cantor aparece em meio a armas suspensas apontadas em direção a ele lembram visualmente a obra “Controlador do Universo, 2007” do artista plástico e ativista mexicano Damián Ortega, conhecido por suas esculturas fragmentadas.

No verso “Tupac se llama Tupac por Túpac Amaru del Perú”, a letra lembra que o nome do rapper norteamericano, batizado Tupac Amaru Shakur, vem de Túpac Amaru II, liderança peruana que conduziu a maior rebelião anticolonial da América no século XVIII. No clipe, a cena de um homem com indumentária indígena faz referência à morte de Amaru, que teve o corpo desmembrado por cavalos.

A estos canallas
Se les olvidó que el calendario que usan se lo inventaron los mayas
Con la valdivia precolombina
Desde hace tiempo este continente camina

Esta cena faz alusão à imagem impactante de uma mae amamentando o filho através das grades – que viralizou como sendo da fronteira do México com EUA, mas na verdade são de uma ocupação na cidade de Bahía Blanca, na Argentina, em 2013.

Pero ni con toda la marina pueden sacar de la vitrina
A la peste campesina
Esto va pa’l capataz de la empresa
El machete no es solo pa’ cortar caña,
También es pa’ cortar cabeza’

Nesta cena a referência são as mulheres Zapatistas do México. Não vou tentar resumir a interessantíssima e fundamental participação das mulheres nesse movimento, sugiro a leitura dessa carta que elas dedicam as mulheres que lutam em todo o mundo e esse artigo.

As referências visuais do cristianismo na América Latina e as gangues (pandillas). A imagem da Virgem de Guadalupe é muito difundida e cultuada, especialmente entre os mexicanos e aparece em tatuagens e grafites.

A sequência parece aludir ao problema das tentativas de cruzar a fronteira em direção aos EUA:

Aqui a referência é possivelmente aos mutilados pelo trem conhecido como “a Besta ou “trem da morte”. A tentativa de travessia no trem que vai do México aos Estados Unidos é feita pelos migrantes pendurados no teto e laterais do veículo – uma tentativa desesperada e perigosa: bandidos, gangues ou soldados do cartel de drogas regularmente embarcam no trem e exigem dinheiro, ou sequestram os viajantes por resgate ou atuam como mulas de drogas; mulheres sofrem abusos; e muitos se acidentam caindo nos trilhos, são atropelados ou mutilados.

Na cena seguinte, um homem caminha para a água com um bebê. Em 2019, a foto impactante do corpo de um pai salvadorenho e sua filha pequena no Rio Bravo, na fronteira do México com os EUA, se tornou símbolo da crise migratória e dos perigos da travessia.

Los paramilitares, la guerrilla
Los hijos del conflicto, las pandillas

Las listas negras, los falsos positivos
Los periodistas asesinados, los desaparecidos

A imagem de jovens assassinados a queima-roupa é a que teve a maior quantidade de interpretações; infelizmente, aqui as referências poderiam ser várias. O uniforme com boinas vermelhas é característico da Venezuela, então muitos opinaram que pode ser que a crítica seja à violência policial nesse país. Mas também pode aludir aos 43 estudantes desaparecidos no México. Nas palavras do compositor: “Esse trecho representa muitos dos jovens latino-americanos, estudantes, que foram assassinados. Estudantes que se manifestaram na Venezuela, em Cali, na Colômbia, na Argentina, em todos os lugares”.

Residente menciona na letra os “falsos positivos” na Colômbia, uma prática de execução de pessoas inocentes como forma de inflar os números de combate ao narcotráfico.

Los Machetes

O manifestante está fazendo os movimentos da Danza de los Machetes (facões), tradicional do México.

É também uma referência ao Ejército Popular Boricua, também conhecido como “Los Macheteros”, que luta pela independência de Porto Rico desde os anos 70, e que tem como símbolo o machete.

As crianças com trajes de lideranças indígenas aparecem sobre caixas do McDonalds, Coca-Cola, Starbucks e Amazon (atente para a ironia de uma criança amazonense nessa última) em uma clara crítica a essas corporações de caráter exploratório.

Los narcogobiernos, todo lo que robaron
Los que se manifiestan y los que se olvidaron
Las persecuciones, los golpes de Estado
El país en quiebra, los exiliados, el peso devaluado
El tráfico de droga, los cárteles
Las invasiones, los emigrantes sin papeles

Um presidente ficcional do Brasil almoça carne em frente a uma criança indígena (cujas terras estão sendo entregues à agropecuária) e limpa a boca na bandeira nacional. Lembra alguém?

“Sim, claramente é (o presidente Jair) Bolsonaro, tratamos de encontrar alguém parecido com ele. Na América Latina, em geral, há muitos presidentes que fazem o mesmo que ele faz, que é limpar a boca com as bandeiras dos seus países. Para mim, isso não é uma questão de atacar a direita ou a esquerda, é a de que existem governantes que não se importam com seus países, e isso tem que ser denunciado. Isso é o que acontece na Nicarágua, em Cuba e na Venezuela, algo que não apoio. São vários presidentes, mas como não podíamos botar todos no clipe, escolhemos o campeão” confirmou Residente em entrevista ao Globo.

Cinco presidentes en once días
Disparo a quemarropa por parte de la policía

Nesse trecho, a letra se refere à crise que ocorreu na Argentina em dezembro de 2001, o “argentinazo” – uma série de protestos, saques, tumultos na qual uma das consequências foi a sucessiva derrubada de vários presidentes, entre os quais Fernando De la Rúa e Adolfo Rodríguez Saá.

Nesta cena que alude as manifestações na Venezuela em 2017, a referência visual parece ser a série “Study of Perspective” (1995 to 2003) do artista chinês Ai Wei Wei, na qual ele mostra o dedo médio contra diferentes monumentos e instituições ao redor do mundo.

Após enumerar uma série de conflitos e casos de violência policial, René cita “This is America” nominalmente: “Gambino, meu irmão, isso sim é América”.

Más de cien años de tortura
La nova trova cantando en plena dictadura

Então vem a cena mais impactante do vídeo, que é a que remete ao assassinato do poeta, cantor, compositor, músico e ativista político chileno Víctor Jara. Ele foi preso, torturado e morto pela ditadura de Augusto Pinochet dentro do estádio Chile, que hoje leva seu nome, apenas quatro dias após a instauração do golpe de Estado. Foi dos crimes mais emblemáticos da ditadura porque Jara foi, com seu violão e com seus versos, o trovador da revolução socialista do governo de Allende, expoente do movimento nueva canción chilena.

Ao mesmo tempo, traça um paralelo visual com o clipe de Gambino, no qual ele atira em um homem sentado que a princípio aparecia tocando violão. Na maioria dos reacts de youtubers hispanohablantes o efeito é bastante perturbador, justamente por ser uma história bastante conhecida.

Aquí estamos, siempre estamos
No nos fuimos, no nos vamos
Aquí estamos pa’ que te recuerdes
Si quieres mi machete te muerde

Gosto muito da sequencia seguinte, que tem uma criança indígena derramando um café do Starbucks (lembrando que é a América Latina que produz os melhores grãos de café, que infelizmente acabam indo para exportação).

Nesta cena, uma pirâmide maia (provavelmente o Templo de Kukulcán, em Chichén Itzá, México) aparece em meio a um mar de prédios ao por do sol.

Difícil dizer exatamente no que a imagem clichê de dois manifestantes se beijando (ela está com a bandeira do México nas costas) foi inspirada. Mas uma possibilidade é a premiada foto de dois estudantes de se beijando durante um protesto no Chile, em 2014.

Curiosidade: a foto que viralizou de dois estudantes deitados no chão em meio a uma manifestação em 2011… Bem, não foi na América Latina e sim no Canadá, não era um protesto político e sim esportivo, e eles não estavam se beijando. Entenda o hoax aqui.

Aqui uma clara referência ao Brasil, dividindo a tela entre sua versão campeão no futebol e a violência do narcotráfico das favelas.

Uma manifestante envolvida em uma bandeira sopra fumaça no rosto de um policial, e remete a foto em uma marcha de protesto no Chile em 2016.

Uma cena de violência em uma favela e pelo ângulo é possível que seja uma citação a Cidade de Deus. Mas não deixa de ser um ângulo um pouco clichê, então não sei.

A imagem de um manifestante envolto em fogo lembra a foto que venceu o World Press Photo em 2017, de Ronaldo Schemidt. Ela retrata o acidente que sofreu jovem manifestante José Víctor Salazar Balza em meio a protestos contra Nicolás Maduro em Caracas, Venezuela.

Nesta cena algumas pessoas viram similaridade com Lucas Villa, manifestante morto em meio a uma manifestação pacífica na Colômbia em 2021 (pessoalmente acho que só o lenço lembra um pouco, mas pode ser sim uma citação):

E uma possível alusão a essa performance:

E a imagem final da mulher de vestido colorido que observa a violência policial é a de uma Palenquera, personagem típica da região caribenha da Colômbia.

O clipe termina com corpos sendo empilhados pela polícia e formando a palavra AMÉRICA.

De fato, é um clipe bem forte. O rapper disse, em entrevista, que maioria das situações apresentadas no vídeo estão ligadas a intervenções dos Estados Unidos.

Em um dos vídeos, alguém deixou essa frase, adequadíssima, do escritor uruguaio Eduardo Galeano:

“Na América todos nós temos um pouco de sangue de povos originários.
Alguns nas veias, e outros nas mãos”

Inspirado em parte nos vídeos de:

Nicolas Vildosola / Ama2 Cray / La Rechola
e nas threads: El Pachanga / Luis Fernando Tófoli

Recomendo também a leitura:
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/joao-wainer/2022/03/isso-nao-e-america.shtml

Entrevista com Residente, na qual explica uma série de pontos sobre o clipe e a música:
https://www.bbc.com/portuguese/geral-60842427

7 comentários

  1. Eva, muito obrigada por compartilhar sua pesquisa!
    Esta é minha primeira vez aqui, já admirava (e desejava) seus desenhos, agora virei fã também das palavras.
    Aquele Abraço,
    Helê

  2. Eva, muito obrigada por buscar, reunir e compartilhar todas as referências. O clipe é muito forte e opera de modo exemplar com os arquivos visuais do continente americano.
    Tem uma das cenas em que dois policiais pisam sobre uma montanha de corpos, sorrindo e fazendo pose, que acho que uma citação quase literal das imagens vazadas de Abu Ghraib (soldados estadunidenses, que tiraram selfies junto a presos torturados).
    Um grande abraço.

    1. Oi Fabiana, obrigada! Eu vi que um pessoal falou dessa referência, mas fiquei na dúvida por não ser relacionado a América Latina. Mas depois ele disse que a maioria das situações apresentadas no vídeo estão ligadas a intervenções dos Estados Unidos, então pode ser que seja uma citação mesmo. Valeu pela contribuição!

  3. Sensacional o artigo! Acompanhei algumas das threads, mas fiquei feliz de encontrar uma que de fato teve alguma checagem e não só baseada em opinião. Ficou muito boa!

    Vou deixar aqui a minha contribuição. A verdade é que não sei se realmente é uma referência, talvez só tenha me lembrado… Mas a cena do homem com um braço mutilado erguendo uma cruz me fez pensar no filme colombiano “El Abrazo de la Sepiente”, que foi indicado ao Oscar. O filme se passa na época das missões na Amazônia e essencialmente fala sobre a doutrinação e violência colonialistas, a consequente perda da identidade dos povo originários.

    Tem duas cenas muito marcantes: a do jesuíta que se passa por Deus e a do homem indígena que teve o braço mutilado por seringueiros, ambas cenas relacionadas de certa forma a exploradores e à escravização física e cultural. O clipe do Residente se centra em temas semelhantes, mas mais ligados aos EUA, então fiquei na dúvida. O filme fala do colonialismo europeu, não é? Mas a cena do ator indígena surgindo com o braço mutilado é uma das mais comentadas do filme. Me lembrou muito.

    Um abraço!

    1. Oi Mel! Obrigada :) Olha, faz sentido mesmo… Sabe essas cenas que a gente pensa “já vi isso em algum lugar”, mas não lembra onde? É bem possível que seja essa a referência. Obrigada pela contribuição!

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