SÓ POR HOJE

Todo dia, entre acordar e dormir, alterno as fases “até que tá normal”, “tá ruim, mas vamo que vamo”, “nossa, vai dar muito ruim”, “vai ser horrível”, “vai passar”, “nunca mais seremos iguais”, “tá tudo bem, daqui a uns meses a gente vai rir disso tudo”. é tudo verdade, e não temos como ter certeza de nada. não entro muito na onda de pavor da não-volta ao normal porque o normal da espécie humana é a mudança, é se adaptar. e há tempos que a gente tá adaptado a algo bem ruim. ia mudar pra melhor, não tava muito bom, tava meio ruim também. agora parece que piorou. e não que eu seja do tipo otimista que fala que uma nova consciência e juventude vai acontecer. faz tempo que a gente queria uma era de aquário – mas também um parto sem dor. não dá.

em situações assim a gente vê o que há de bonito na humanidade, mas especialmente o que há de bem ruim. injustiças se agravam. gestos de solidariedade são lindos, mas é o que nos resta. não romantizemos o fundo do poço: todos sabemos que nada melhor que sossego. uma vida tranquila, justiça social. ter condições pra realizar sonhos.

mas não é nada pessoal, gente. são sete bilhões, e às vezes a gente passa uns perrengue. tem planos adiados. tem perdas. de Pirapora a Bagdad, vida mansa é a exceção. em zonas de guerra o medo é todo dia. e todo dia alguma força faz a pessoa levantar e fazer o que tem que fazer. desde sempre. nós, nossos pais, nossos avós, nossos antepassados e os deles, os que vieram antes, os que ainda estão por vir. só por hoje, vamos ficar bem. e o mundo, amanhã, renascerá.⁠

#FiqueemCasa#FicaemCasa
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a ilustração faz parte de um livro (Livro dos Recomeços, produzido pela @momentumbrasil), criado a partir das ações da @vademarisa para o Outubro Rosa 2019, de incentivo à prevenção do câncer de mama.⁠
https://evauviedo.com.br/marisa-livro-dos-recomecos

#RedeDoRecomeço#RedeDoRecomeco#LivrodosRecomeços

LONGE DE TUDO

Recuerdo nostálgico de um dia tranquilo, em que ficar em casa era uma deliciosa opção. Eu tinha acabado de sair do último emprego e me entregava ao conforto do home office com direito a pausa para o café à tardinha, bolo no forno e família por perto. Muito em breve as tardes tranquilas seriam substituídas por dias e dias sem mal ver o sol, prazos apertados, acúmulo de freelas em certas épocas e correr atrás de clientes em tempos de vacas magras. Mas ainda assim, ficar sem sair de casa por longos períodos passou a ser meu estilo de vida ideal. O mais próximo possível do sonho escapista de voltar para o campo. ⁠

Hoje não se chama mais estilo de vida, e sim isolamento social, e é extremamente necessário. Ficar em casa passa a ser a única coisa correta a fazer. As notícias de uma crise mundial sem precedentes se acumulam e se impõem. Falha a concentração para trabalhar em projetos ou ler qualquer coisa que não seja notícias. Mesmo acostumada, não é a mesma coisa estar em casa sabendo que lá fora uma pandemia provoca o caos. Que milhares de pessoas estão seriamente ameaçadas. Que o sistema de saúde opera no limite. Que centenas de instituições podem estar prestes a desmontar. Que o sistema econômico, já frágil e desigual, fica por um fio. E que não tem muita coisa que eu possa fazer em relação a isso, visto que, ainda que privilegiada em uma série de pontos, estou longe de ter qualquer poder de decisão. Que a lista de coisas que a gente pode fazer para ajudar uns aos outros parece bastante limitada – talvez a gente tenha que ser criativo e encontrar outros meios. ⁠

Que gosto amargo tem, hoje, ficar em casa. ⁠

Mas não importa:⁠
#FiqueemCasa
#FicaEmCasa
#FicaentuPutaCasa
#FicaEmCasaCaralho
#stayhome
#isolamentosocialvoluntário

E POR FALAR EM COISA ALGUMA

digamos que não tem nada sólido aqui (só a vontade de contar da luz nas cortinas beges de renda e da menina com caxumba no fim da rua, nada mais). também você deve pensar, de vez em quando ‘mas afinal’ – muito intrigado – ‘onde foram parar esses sapatos?’ ou como eu, consolar-se ‘vai ver que, nem eram meus’. esse é um ponto. outro é dizer que pontos e vírgulas nunca bastam; e embora pontos-e-vírgula me agradem, algumas metáforas me escapam. ou, se ainda, alguém tivesse acreditado, em uma dessas tardes estrangeiras de um desbotado mas ainda azul, seria então já uma outra história? e se sim, qual seria a minha? se tivesse melhor inventado rua deleitada, asfalto nu, debruçar de janelas, mesas ou cadeiras, coisas de passar e ficar. não sei. das coisas o riso aberto, falta de jeito mesmo, nunca aprendi. tenho inveja: de bons dentes e varandas; de sentimentos rasos e pensamentos profundos. tenho amor: por martelo e chave de fenda, porque são ativos; e de pregos e parafusos, seus complementos tímidos e permanentes: coisas que se fixam nas paredes, não por serem tanto em si, mas por suportarem toda a beleza do mundo.

#SobreAmoreOutrosPeixes
#evauviedo #LoveisHardToExplain – texto publicado no blog #esquizofasia, 2007

I Don’t Know What I Can Save You From

A última vez que passei por aqui
pensava vagamente em Nietzsche, Deleuze, Derrida
sem nada entender
e aproveitava, como hoje, um azul que o outono traz
(e depois leva pra lá)

A última vez que passei por aqui
pensei exatamente o que eu deveria ter dito
, mas com muitos minutos de atraso
(e nunca mais fez sentido falar)

A última vez que passei por aqui
foram muitas
era tudo diferente, esse prédio, essa casa
isso era assim, aquilo era assado,
nem reparei
na cidade como uma foto antiga
ela cada vez mais nova
eu cada vez mais velha

(ambas um pouco pior)

ONDE A DOR NÃO TEM RAZÃO

São Paulo, aniversário da cidade >> 01 (hum) MANIFESTANTE com potencial destrutivo moderado, portando um estilingue e quatro pacotes de bolinhas de gude sendo ESPANCADO > por 50 fãs do PAULINHO DA VIOLA, incluindo > 1 agressor que dava bordoadas com um par de MULETAS > 4 seguranças ligeiramente incompetentes tentando proteger o desgraçado da turba de cidadãos DE BEM repentinamente REVOLTADOS > sendo observados por uma MULTIDÃO e mais > dezenas de integrantes da guarda municipal que só não estavam em menor número do que > o ENXAME de fotógrafos e videomakers que captava a cena, sem se abalar. “NINGUÉM vai estragar a nossa festa. Se esses caras voltarem aqui, vamos dar PORRADA”.

A MELHOR CIDADE


leia na minha camisa: i love you

sabe na paulista, perto da brigadeiro luis antônio, tem um predinho com tijolos vazados amarelos – não sei explicar bem os tijolos, são de uma época, x. quando você passar por eles vai reconhecer.
eu tinha acho uns sete anos, tinha acabado de chegar no brasil
estávamos meio de favor aqui e ali, não lembro bem onde, mas era nessa área – comprávamos coisas pro café da manhã no jumbo eletro e saíamos pra andar
eu sempre usava umas camisetas brancas do meu pai como vestido
com um cinto vermelho de verniz
e lembro do sol da manhã batendo no rosto, na paulista
(o sol nas bancas de revista)
de olhar pra cima, pensando ‘UAU’.
‘a melhor cidade, a melhor cidade’
não sei da primeira vez que ouvi essa música;
mas lembro desse momento, de ter sete anos e ter entendido tudo:
do sorvete, da lanchonete, do azul
da paz da cidade, da MELHOR cidade
dos tijolos amarelos e o sol batendo nos carros, a gasolina
e a camisa, e a cidade
a melhor cidade da américa do sul

[publicado originalmente aqui]

VIDA LOUCA VIDA

Em 1993 mais ou menos – 20 anos atrás, portanto – fui num show do Lobão, em um parque ali perto da Paulista. O repertório estava bem baladinha e meu melhor amigo na época, o Menezes, cismou que o Lobão tinha que cantar algo do Deep Purple ou do Kiss (!?). Quando eu me distraí, ele estava lá em cima do palco batendo boca com o cantor – que na época estava numa onda bossa nova qualquer nota, e passou quase uns 20 minutos dando lição de moral na ‘juventude que não estava entendendo nada”. Meu amigo tomou uns pescotapas do segurança, umas latadas dos fãs, e fomos pra casa sob o sol do outono, pensando em como o dia tinha sido histórico. Pelo menos para nós.

Não sei por que lembrei disso hoje.

ÁGUAS DE MARÇO

que venham a nós todos os mares, calmos ou bravios; rios subterrâneos, grandes águas atravessáveis, geladas com ou sem gás; lagos sobre lagos, nascentes, riachos, águas ancestrais; águas que levam, que trazem, que vão. e que tenhamos barcos e remos, braços, cordas, velas, ventos; e claro, alguma razão.

Sou eu Bola de Fogo


ainda não é a estrela de belém, mas já é 2012: um meteoro se desintegrou no ar enquanto ia rumo a dallas esta semana (essa foi por pouco, amigos). uma súdita indiana da coroa inglesa cometeu harakiri – a monarquia segue a mesma: mítica e barraqueira. indiferente à iminente queda do capitalismo, o paulistano promete ser generoso nas compras deste natal – e querem ‘luz, muita luz‘, nem que alguém tenha que ir até a china buscar. e a imagem mais carregada de simbologias, metáforas, ventos de um futuro distópico deste ano vem a seguir (cuidado platéia, são imagens fortes):

chega logo, 2013.

Something Beautiful


alguma coisa entrou em erupção no chile ontem à noite
cancelando viagens da classe média a bariloche
e algum outro dano em plantações ou coisa assim, no segundo parágrafo.
claro que enquanto isso,
em algum lugar do planeta uma monarquia deve estar sendo ameaçada
e uma transexual ser a mulher mais bonita do mundo em 2012
não nos causará mais nenhum espanto (somos tão civilizados).
é claro, estamos à salvo: se um alienígena quiser destruir a terra,
a negociação de paz será devidamente conduzida
por uma sedutora e espirituosa miss sãopaulo;
podemos dormir tranquilos
enquanto as cinzas de um velho vulcão
estão cobrindo algo que nem soubemos
se era importante.

Pragmatismo vem de berço

minha mãe abrindo crediário na renner;
atendente: ‘casada?’ ‘sim’;
‘tem filhos?’ ‘não’
eu: ‘mãe!’; ‘ah é, tem ela.’

justificativa: ‘ah, a moça perguntou se eu tinha filhO’

a raça humana é uma semana

então é domingo de novo. enquanto algumas pessoas queimam as pestanas na tarefa de descrever, filmar ou poetizar o cotidiano de gente comum, eu cumpro minha parte, sendo comum. churrasco de sábado, macarrão de domingo, genipapada e alguns amigos bons, isso não quer dizer nem menos nem mais; desde a fulana que gasta o domingo de bobs até o cicrano que está criando as bases da tecnologia que vai salvar a humanidade de uma eminente invasão de godzillas; ou beltrano, que pensa a melhor maneira de filmar a catástrofe, para todos nós vale o conselho:

boa semana pra todos.

no fim dá tudo na mesma

“mundo virtual pode reabilitar paralíticos”, hm, mas pode fazer um estrago em paranóicos, que nossasenhora. // toda vez que chove a internet fica lenta. será o tráfego de dados? o paulistano não aguenta mais. / paulistano aliás, só fica indignado com o trânsito. outro dia um viaduto caiu em cima de um carro e o comentário dos portais: ‘vai congestionar mais hoje’ // café e aspirina são a base da civilização moderna / da pós-moderna é uma dose a mais // não vamos mais dizer ‘ir para a geladeira’ mas sim ‘tirar um período sabático’ // a verdadeira explicação do dualismo prático e da igreja do caraoucoroismo não cabe aqui; mas posso resumir em ‘ser ou não ser’. aliás, // o mike tyson também se auto-define um cara pacífico: “sou um cara legal (…) às vezes quero ficar sozinho, por isso perco a paciência” / te entendo mike, #tamojunto. // plus ça change, plus c’est la meme chose, como diria (mas não disse) charles aznavour.

Se eu quiser falar

– Ian, como é que você fala com Deus?
– hm… uso o céu-lular. quer saber como eu falo com o Diabo?
– como?
– uso a infernet.

 

[Ian, 10, e sua avó, discutindo teologia e tecnologia]

There ain’t no train to Stockholm

não há uma cadeira do meio rua mas se ela dança eu danço, se música toca e a festa só acaba no fim da ressaca. e só é o fim quando termina e as coisas à flor da pele, que é boa, que é quente, que é feita pra se deixar aquecer mais e mais ao sol do novo mundo de um tempo novo, pra secar ao vento, pra sentir as dores de ah você não gostaria de estar na minha pele, pelo que estou passando, rasgue a camisa, não, leia na minha camisa, beibe, you can drive my car, gasoline windy chic, só não estacione, acelere mais, pé em deus e fé na tábua, sem régua, sem freio e sem medo, rumo às coisas feitas de ventos, de espaços, silêncios de uma escarpa ensolarada, rumo a nada e às coisas sem nome que cabem na mala, que pesam nas costas, e a espera na estrada – e se não tiver carona tudo bem, eu vou a pé. (assobiando uma toada: sair por essa vida aventureira, e venha veja deixa beija, seja. o que deus quiser)

Vagalumes ensandecidos dizem here’s johnny

[assistindo Animal Planet]

– Ian, sabe o q é ‘bioluminescência’?
– Não.
– Pensa na palavra: bio…
– Vida…
– Isso. Luminescência…
– … iluminado?
– Isso, então ‘bio-luminescência’ são…
– … larvas com um machado?

Das coisas que gosto de escutar

Aninha, 13: ‘Não sei por quê, mas na festa Junina dessa escola o pessoal do G2 [colegial] é o q mais se diverte. ‘
Ian, 10: ‘Deve ser porque eles já podem tomar caipirinha.’

* * *Ian: ‘Sabe por que não ligo pra futebol? Porque por exemplo: se o Santos ganhar do São Paulo, não quer dizer que Santos vai INVADIR São Paulo. Daí não acho importante. ‘

* * *
Eu: ‘Hmmm, então você já tem namorada?’
Ian: ‘Sim.’
Eu: ‘E como ela é?’
Ian: ‘Ah. Loirinha…’
Aninha: ‘Ian. Ela é ALBINA. Não ‘loirinha’. ALBINA.’

* * *
Ian: ‘Sabe qual ia ser a primeira coisa que eu ia fazer se eu fosse pra um lugar onde NEVA?’
Aninha: ‘O quê.’
Ian: ‘Passar a LÍNGUA NO GELO’
Aninha: [abraçando o irmão] ‘É POR ISSO que eu TE AMO’

a humanidade não decepciona

Praça do Pôr do Sol, 17:45

– mãe, só vamos embora depois que o sol for né
– só vou embora depois que baterem palmas

[palmas]

– mãe! (espantada) como você sabia?
– ora (ar de superioridade). sabemos de tu-do.

[mais fácil que tirar doce da mão de criança, convenhamos]