E POR FALAR EM COISA ALGUMA

digamos que não tem nada sólido aqui (só a vontade de contar da luz nas cortinas beges de renda e da menina com caxumba no fim da rua, nada mais). também você deve pensar, de vez em quando ‘mas afinal’ – muito intrigado – ‘onde foram parar esses sapatos?’ ou como eu, consolar-se ‘vai ver que, nem eram meus’. esse é um ponto. outro é dizer que pontos e vírgulas nunca bastam; e embora pontos-e-vírgula me agradem, algumas metáforas me escapam. ou, se ainda, alguém tivesse acreditado, em uma dessas tardes estrangeiras de um desbotado mas ainda azul, seria então já uma outra história? e se sim, qual seria a minha? se tivesse melhor inventado rua deleitada, asfalto nu, debruçar de janelas, mesas ou cadeiras, coisas de passar e ficar. não sei. das coisas o riso aberto, falta de jeito mesmo, nunca aprendi. tenho inveja: de bons dentes e varandas; de sentimentos rasos e pensamentos profundos. tenho amor: por martelo e chave de fenda, porque são ativos; e de pregos e parafusos, seus complementos tímidos e permanentes: coisas que se fixam nas paredes, não por serem tanto em si, mas por suportarem toda a beleza do mundo.

#SobreAmoreOutrosPeixes
#evauviedo #LoveisHardToExplain – texto publicado no blog #esquizofasia, 2007

I Don’t Know What I Can Save You From

A última vez que passei por aqui
pensava vagamente em Nietzsche, Deleuze, Derrida
sem nada entender
e aproveitava, como hoje, um azul que o outono traz
(e depois leva pra lá)

A última vez que passei por aqui
pensei exatamente o que eu deveria ter dito
, mas com muitos minutos de atraso
(e nunca mais fez sentido falar)

A última vez que passei por aqui
foram muitas
era tudo diferente, esse prédio, essa casa
isso era assim, aquilo era assado,
nem reparei
na cidade como uma foto antiga
ela cada vez mais nova
eu cada vez mais velha

(ambas um pouco pior)

ONDE A DOR NÃO TEM RAZÃO

São Paulo, aniversário da cidade >> 01 (hum) MANIFESTANTE com potencial destrutivo moderado, portando um estilingue e quatro pacotes de bolinhas de gude sendo ESPANCADO > por 50 fãs do PAULINHO DA VIOLA, incluindo > 1 agressor que dava bordoadas com um par de MULETAS > 4 seguranças ligeiramente incompetentes tentando proteger o desgraçado da turba de cidadãos DE BEM repentinamente REVOLTADOS > sendo observados por uma MULTIDÃO e mais > dezenas de integrantes da guarda municipal que só não estavam em menor número do que > o ENXAME de fotógrafos e videomakers que captava a cena, sem se abalar. “NINGUÉM vai estragar a nossa festa. Se esses caras voltarem aqui, vamos dar PORRADA”.

A MELHOR CIDADE


leia na minha camisa: i love you

sabe na paulista, perto da brigadeiro luis antônio, tem um predinho com tijolos vazados amarelos – não sei explicar bem os tijolos, são de uma época, x. quando você passar por eles vai reconhecer.
eu tinha acho uns sete anos, tinha acabado de chegar no brasil
estávamos meio de favor aqui e ali, não lembro bem onde, mas era nessa área – comprávamos coisas pro café da manhã no jumbo eletro e saíamos pra andar
eu sempre usava umas camisetas brancas do meu pai como vestido
com um cinto vermelho de verniz
e lembro do sol da manhã batendo no rosto, na paulista
(o sol nas bancas de revista)
de olhar pra cima, pensando ‘UAU’.
‘a melhor cidade, a melhor cidade’
não sei da primeira vez que ouvi essa música;
mas lembro desse momento, de ter sete anos e ter entendido tudo:
do sorvete, da lanchonete, do azul
da paz da cidade, da MELHOR cidade
dos tijolos amarelos e o sol batendo nos carros, a gasolina
e a camisa, e a cidade
a melhor cidade da américa do sul

[publicado originalmente aqui]

VIDA LOUCA VIDA

Em 1993 mais ou menos – 20 anos atrás, portanto – fui num show do Lobão, em um parque ali perto da Paulista. O repertório estava bem baladinha e meu melhor amigo na época, o Menezes, cismou que o Lobão tinha que cantar algo do Deep Purple ou do Kiss (!?). Quando eu me distraí, ele estava lá em cima do palco batendo boca com o cantor – que na época estava numa onda bossa nova qualquer nota, e passou quase uns 20 minutos dando lição de moral na ‘juventude que não estava entendendo nada”. Meu amigo tomou uns pescotapas do segurança, umas latadas dos fãs, e fomos pra casa sob o sol do outono, pensando em como o dia tinha sido histórico. Pelo menos para nós.

Não sei por que lembrei disso hoje.

ÁGUAS DE MARÇO

que venham a nós todos os mares, calmos ou bravios; rios subterrâneos, grandes águas atravessáveis, geladas com ou sem gás; lagos sobre lagos, nascentes, riachos, águas ancestrais; águas que levam, que trazem, que vão. e que tenhamos barcos e remos, braços, cordas, velas, ventos; e claro, alguma razão.

Sou eu Bola de Fogo


ainda não é a estrela de belém, mas já é 2012: um meteoro se desintegrou no ar enquanto ia rumo a dallas esta semana (essa foi por pouco, amigos). uma súdita indiana da coroa inglesa cometeu harakiri – a monarquia segue a mesma: mítica e barraqueira. indiferente à iminente queda do capitalismo, o paulistano promete ser generoso nas compras deste natal – e querem ‘luz, muita luz‘, nem que alguém tenha que ir até a china buscar. e a imagem mais carregada de simbologias, metáforas, ventos de um futuro distópico deste ano vem a seguir (cuidado platéia, são imagens fortes):

chega logo, 2013.

Something Beautiful


alguma coisa entrou em erupção no chile ontem à noite
cancelando viagens da classe média a bariloche
e algum outro dano em plantações ou coisa assim, no segundo parágrafo.
claro que enquanto isso,
em algum lugar do planeta uma monarquia deve estar sendo ameaçada
e uma transexual ser a mulher mais bonita do mundo em 2012
não nos causará mais nenhum espanto (somos tão civilizados).
é claro, estamos à salvo: se um alienígena quiser destruir a terra,
a negociação de paz será devidamente conduzida
por uma sedutora e espirituosa miss sãopaulo;
podemos dormir tranquilos
enquanto as cinzas de um velho vulcão
estão cobrindo algo que nem soubemos
se era importante.

a raça humana é uma semana

então é domingo de novo. enquanto algumas pessoas queimam as pestanas na tarefa de descrever, filmar ou poetizar o cotidiano de gente comum, eu cumpro minha parte, sendo comum. churrasco de sábado, macarrão de domingo, genipapada e alguns amigos bons, isso não quer dizer nem menos nem mais; desde a fulana que gasta o domingo de bobs até o cicrano que está criando as bases da tecnologia que vai salvar a humanidade de uma eminente invasão de godzillas; ou beltrano, que pensa a melhor maneira de filmar a catástrofe, para todos nós vale o conselho:

boa semana pra todos.

no fim dá tudo na mesma

“mundo virtual pode reabilitar paralíticos”, hm, mas pode fazer um estrago em paranóicos, que nossasenhora. // toda vez que chove a internet fica lenta. será o tráfego de dados? o paulistano não aguenta mais. / paulistano aliás, só fica indignado com o trânsito. outro dia um viaduto caiu em cima de um carro e o comentário dos portais: ‘vai congestionar mais hoje’ // café e aspirina são a base da civilização moderna / da pós-moderna é uma dose a mais // não vamos mais dizer ‘ir para a geladeira’ mas sim ‘tirar um período sabático’ // a verdadeira explicação do dualismo prático e da igreja do caraoucoroismo não cabe aqui; mas posso resumir em ‘ser ou não ser’. aliás, // o mike tyson também se auto-define um cara pacífico: “sou um cara legal (…) às vezes quero ficar sozinho, por isso perco a paciência” / te entendo mike, #tamojunto. // plus ça change, plus c’est la meme chose, como diria (mas não disse) charles aznavour.

There ain’t no train to Stockholm

não há uma cadeira do meio rua mas se ela dança eu danço, se música toca e a festa só acaba no fim da ressaca. e só é o fim quando termina e as coisas à flor da pele, que é boa, que é quente, que é feita pra se deixar aquecer mais e mais ao sol do novo mundo de um tempo novo, pra secar ao vento, pra sentir as dores de ah você não gostaria de estar na minha pele, pelo que estou passando, rasgue a camisa, não, leia na minha camisa, beibe, you can drive my car, gasoline windy chic, só não estacione, acelere mais, pé em deus e fé na tábua, sem régua, sem freio e sem medo, rumo às coisas feitas de ventos, de espaços, silêncios de uma escarpa ensolarada, rumo a nada e às coisas sem nome que cabem na mala, que pesam nas costas, e a espera na estrada – e se não tiver carona tudo bem, eu vou a pé. (assobiando uma toada: sair por essa vida aventureira, e venha veja deixa beija, seja. o que deus quiser)

It’s all right ma’


tenho começado toda conversa / preenchido qualquer lacuna, com / tenho trabalhado demais // paulistano tem um fetiche com isso? / nos encontramos pra tomar cerveja e competimos pra ver quem trabalhou mais / quem trabalhou no domingo / quem vai ficar de plantão no carnaval /@vitorfasano, olhai por nós // e tenho visto comédias romanticas demais / identifiquei um padrão de tramas e personagens e me sinto capaz de escrever uma / se quisesse, se precisasse / teria o john cusack e a drew barrymore / trilha sonora do elliott smith / e um labrador // voltei a pregar quadros na parede, sem me preocupar com o eminente fim do contrato da casa // tenho ouvido dezenas de vezes o disco Odetta sings Dylan //e estou apaixonada por um novo tom de vermelho / ‘mais aberto’ disse a manicure / combina com o colar novo, a blusa de lã // tenho comprado vestidos e sandálias como se não houvesse outra estação que não o verão // descobri que gosto de mais músicas do elton john do que considero aceitável / tenho me achado piegas demais, mas / I look inside myself and see my heart is black. / vi uma arraia de verdade e entendi porque elas são parentes do tubarão / quem a vê flanando leve pelo aquário pensa que é mansa / vai nessa. // as metáforas me abandonaram / mas considero um bom sinal / foram pra sempre ou migraram, como patos para o sul? tanto faz; vim do sul, vou pro norte, from the west unto the east,

sim, mas não no sul

são paulo, viajo porque preciso, volto porque te amo / ou viajo porque amo, volto porque preciso / em casa tive uma crise de pra que isso tudo, só preciso de um par de chinelos, mas já passou / na estrada, li “descompensados anônimos” onde estava escrito “compensados anatômicos”; talvez fosse o caso de ficar por lá? // things are getting better / all the time.

caro deus ou whatever, valeu por 2008, foi jóia,
capricha ai em 2009, é nois.

outra vez domingou, meu amor

então desenterraríamos velhos elepês e eu diria ah você também tem esse? que coincidência mais feliz // e também teríamos daqueles quadros de cortiça cheios de fotos sem medo, porque já passou tanto tempo, e parece bom envelhecer // daí tiraria da manga algo surpreendentemente novo, uma história, uma frase, uma mentira // ou algo gravado lá pela década de, não sei / e eu pensaria – ainda que um pouco desconfiada – mas como é que eu nunca soube disso? ou uma maneira de dizer, decentemente, como encontrei o amor da minha vida na zombie walk // o som de chinelos na escada / nossas senhas comuns configuradas / eu trago o livro, você me lê // e a vida, quem sabe faz ao vivo / enquanto você faz planos,

/ faço junto do piano estes versos pra você.

muito pouco sangue

quarta-feira // elizângela me cobrou uma coca-cola e meio quilo de café às 21:11, dois anos atrás – e ainda vive ao meu lado, colada na parede. então quem sabe ainda algo persista. mas pra que ficar triste por um chinês, por um rim, ou comprar mais um maço de cigarros sendo que não acabou? inútil esforço; faço mais não.

* * *

quinta-feira // cinco reais e trinta e um centavos – como tudo aumentou! – e uma enorme preguiça de chorar. gosto da idéia: em madagascar (ilha, ilha do amor) desenterram os mortos e os levam pra dançar, que tal? o comprovante emitido por elizangela tem proporção áurea e convive com vivos e mortos sem dor. já eu, não. não?

* * *

sexta-feira // o futuro foi ontem? descansei.

* * *

sábado // 
como a pele do mar:

* * *

domingo // comprei cigarros
, e ainda tinha um maço cheio, 

outra vez.
no raro silêncio da tarde, ao longe ouço um coro
cantar parabéns.

* * *

p. s. : que solitário e humilhante pode ser o amor, hein?.

há uma sutil diferença entre vivos e mortos

Os mortos não vivem mais. Vivos não descansam em paz. Mortos não saem dali. Ninguém sai vivo daqui. Vivos não sabem viver. Mortos souberam morrer. Há vivos mortos. Há mortos vivos. Mortos não mais importam. Vivos não mais se importam. Vivos são quentes; mortos são frios. Vivos estão cheios. Mortos são vazios. Vivos vêm e vão, ouvem, sabem e vêem, ou não; pensam e fazem, com ou sem razão. Vivos erram e sentem muito. Mortos não erram, e não sentem. Vivos são, de verdade. Mortos, não mentem.

o destino me acomete


o rio que passa aqui embaixo
sempre correu para o mesmo lado;
e eu posso ir e posso voltar.

é o rio tão livre quanto eu,
ou serei eu preso no fluxo contínuo
como é o rio? *

ontem a terra tremeu e eu, embaixo dela, não senti nada. só tive uma vontade-ziiiiiinha de chorar duas vezes no final de um livro, quando sombra do menino envolve a dor que levaria para sempre. muitas vezes penso: o que foi que eu disse de errado? qual mancha eu deixei agora? então tento pensar nas coisas como se já fossem memórias, como um presente imperfeito, um futuro do pretérito.

mas puxa, todos tão bonitos e eu com esse medo. do futuro, do passado.

o que será que eu estava fazendo quando a terra tremeu? só soube mais tarde, como de costume: nunca estou presente nos grandes momentos da história. sempre distraída com algo, como naquela manhã sonolenta da queda das torres; como naqueles dias ótimos e hedonistas no reveillon do tsunami; e quando tudo foi embora naquele ano das águas que culminou com o rio mississipi levando em seu fluxo caixões, casas, entes queridos, anjos.

as coisas me chegam depois, já como histórias, «a menina morta», «o padre que se perdeu no mar numa noite de lua cheia preso a mil balões coloridos», «os ossos do polvo e o rei-peixe» e «como foi que eu cheguei aqui».

ou então chegam antes, como previsões, presságios, estúpidos prenúncios de apocalipse.

pois bem. entrando no inferno astral, este ano decidi jogar fora de vez qualquer bússola. afinal, não estarei, indo contra as previsões, apenas favorecendo as circunstâncias, como na lenda sufi? não saberei; nem dos perigos dos rios, nem dos fluxos, nem da segurança das pontes. pois, se for rio eu – peixe – nado, se for céu azul above us, te vejo, e se a terra tremer, eu danço.

* * *

(“Obstinação em suas veias”, Só o Abimonismo Salva, Abimonistas)

Dance me to the end of love


sim, podemos concordar em deixar pra lá a noite escura – até porque, é lua cheia e desmedida, sabe lá. chega de ‘houve um tempo’ e rabos de lagartixa. afinal, é preciso blá blá blá, todos sabemos e a ninguém é dado alegar: sem eclipses, sem elipses, sem prego ou ponto final. mesmo os velhos parênteses foram quase abandonados, vazios de sentido e sussurros sem vazão. me dedica alguma coisa? vivia a suspirar. um pesto, um post it, um estacionamento, uma canção, um couvert. sabe o quanto, não-me-importo? não sabe não. é mentira. vamos combinar assim então: chamarei outono de setembro, junho de céu, outubro de chão. e vou dizer os teus nomes: coisas, vertigem, vitrola, cumes, ventos, vales, cais. nem sim nem não, nem se ou quando. ontem. sempre. hoje. amanhã.

E POR FALAR EM COISA ALGUMA

fotosroubadas.com.ar
digamos que não tem nada sólido aqui (só a vontade de contar da luz nas cortinas beges de renda e da menina com caxumba no fim da rua, nada mais). também você deve pensar, de vez em quando ‘mas afinal’ – muito intrigado – ‘onde foram parar esses sapatos?’ ou como eu, consolar-se ‘vai ver que, nem eram meus’. esse é um ponto. outro é dizer que pontos e vírgulas nunca bastam; e embora pontos-e-vírgula me agradem, algumas metáforas me escapam. ou, se ainda, alguém tivesse acreditado, em uma dessas tardes estrangeiras de um desbotado mas ainda azul, seria então já, uma outra história? e se sim, qual seria a minha? se tivesse melhor inventado rua deleitada, asfalto nu, debruçar de janelas, mesas ou cadeiras, coisas de passar e ficar. não sei. das coisas o riso aberto, falta de jeito mesmo, nunca aprendi. tenho inveja: de bons dentes e varandas; de sentimentos rasos e pensamentos profundos. tenho amor: por martelo e chave de fenda, porque são ativos; e de pregos e parafusos, seus complementos tímidos e permanentes: coisas que se fixam nas paredes, não por serem tanto em si, mas por suportarem toda a beleza do mundo.

Eu era feliz e ninguém estava morto


todo dia alguma coisa já faz anos; a não ser as que nasceram outro dia – muitas delas, nem bem natas, ficaram afogadas naquele pântano de preguiça e desilusão. vamos deixar tudo assim, como a areia da gata e o vaso do manjericão morto. vamos plantar outra coisa nesse espaço.

todo dia aquele dia faz seu próprio aniversário. e todo dia se comemora um nome santo – mas nunca o meu, que é pagão. todo maldito santo dia, dias vãos se repetindo; dias se auto-entrelaçando, em infinitas relações que se roçam ano a ano.

também hoje minha tristeza faz mais um aniversário.