DIA DOS PAIS

Quem vê esse tipão posando de sapatos engraxados não imagina o maloqueiro transgressor, revolucionário, encrenqueiro, adorável, insuportável, autor / director de teatro premiado em uns três continentes, xamã, pai para quem precisasse, um grande sujeito. Por muito tempo pensei que não era fácil ser filha de alguém foda assim (imaginem a autocobrança); mas na verdade é uma honra, motivo de enorme orgulho – e a saudade é proporcional. Obviamente muito do que penso sobre a vida, arte e política vem dele:

Juan Carlos Uviedo, provocador.

P.s.: na última foto, a exposição que aconteceu em 2015 no MUAC – México sobre ele coincidentemente é aberta por essa imagem da minha mãe, mas vou deixar essa problematização para outro dia.

A desinvenção do Brasil

Hoje é mais um 31 de março e só tenho mágoa para oferecer. ⁠

Mas também quero deixar aqui um trecho da biografia “O livro do Boni“, dele mesmo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho. Mais do que o homem que ajudou a dar a cara à TV Globo e à televisão brasileira: aquele ajudou, e muito, a formatar o que hoje nos acostumamos a chamar de “identidade nacional”. ⁠

Não, isso não é um elogio: no processo de criar uma rede nacional de televisão, foram eliminadas diferenças de programação entre os estados, criou-se um padrão cultural, uma uniformização de sotaques e diluição de costumes; e o resultado é impressionante – para o bem e para o mal. Durante gerações, foi dessa maneira que aprendemos a entender o que era o Brasil. Como se estabelece o ícone de mulher brasileira? Como é definido o horário dos jogos de futebol e o padrão de transmissão das escolas de Samba? Sabe a música ‘Luiza’, de Tom Jobim? foi escrita para uma novela da Globo. ⁠’Pecado Capital’, do Paulinho da Viola, também. Quem conta a história do que aconteceu neste país? ⁠

E é dessa forma, imprecisa, displicente e amoral, que Boni cita os fatos do dia 31 de março de 1964, que deram início a uma noite que durou mais de vinte anos; à ditadura militar brasileira; à miséria humanitária, milhares de mortes, à vergonha histórica: não importa. ⁠

Importa a pauta, que deixou repentinamente de ser ⁠a chegada ao Rio de Janeiro da cantora Elis Regina e passou a ser: umas tropas aí chegando de Juiz de Fora. Que depois causaram umas dificuldades, como narra o livro, relacionadas a importação de equipamentos, tecnologia, censurando umas novelas. Do umbigo do mundo de quem inventou esse Brasil, é o que importa. ⁠

E talvez seja esse Brasil que precisamos desinventar. Reinventar.⁠ Precisamos passar a nos importar mais com outras coisas.⁠ com milhares de Brasis, intensos, vibrantes. Que as vezes se perdem. Às vezes acabam se acostumando com todos os nomes da morte.

Mas é preciso viver⁠
E viver não é brincadeira não :)⁠

#ditaduranuncamais

ENTREVISTA: LAMPARINASCOPE

Um ano atrás dei essa entrevista para o site LamparinaScope, na qual falei de assuntos que não costumo abordar: de como cheguei no Brasil, a perseguição que meus pais sofreram na época da ditadura e como isso me afeta hoje. Entrevista ao vivo em vez de por email é outra coisa, e a Larissa Saram é ótima nisso. Na época fiquei um pouco assim porque não é o tipo de coisa que costumo compartilhar, mas hoje vejo que ela faz mais sentido do que quando saiu, porque são assuntos que entraram com tudo no radar.

leia aqui:

L: Você nasceu na Argentina e bem pequena veio com a família para o Brasil. O que aconteceu?
E: Vim para cá em 83, tinha seis anos. Meu pai era diretor de teatro e estava sofrendo perseguição política por conta da ditadura militar. Ele conhecia a Ruth Escobar, tinha uns contatos e trabalhos aqui no Brasil. Era apaixonado pelo país, pelas praias. Quando a situação ficou muito ruim, viemos para tentar uma vida com mais liberdade.

L: Quais são as lembranças que tem desse período?
E: Quando a gente é criança, tudo é mais leve, uma brincadeira. Meus pais foram presos e tive que morar com uma tia. Não teve drama, foi até divertido. Tínhamos uma estrutura familiar e avós e tios acabaram suprindo as ausências. Lembro também de ter que sair fugindo, a gente mudou 500 vezes de casa, de cidade, de situação. Perseguição política é um horror.

L: Nunca soube dessa parte da sua história.
E: Não falo porque faz tanto tempo…

L: É dolorido lembrar?
E: Não sei se quando começar a mexer com isso vai doer, mas acho que não. Resolvi de outra maneira. Precisei pegar todas as coisas que mais gostava e fugir. Isso tem reflexos na minha personalidade hoje. Amo objetos, minha casa é lotada de tranqueira, tenho dificuldade de jogar fora. Por outro lado, não tenho sofrimento com o desapego. Se amanhã falarem que tem um incêndio e preciso abandonar tudo, ok. Gosto das coisas sem sofrer por elas.

L: Como esse momento da sua vida impacta no trabalho que você desenvolve hoje?
E: Comecei uma série que tem a ver com a Síndrome da Memória Falsa ou Síndrome da Memória Inventada. Conheci esse fenômeno por um caso de polícia em que as pessoas que foram condenadas não lembravam direito do que tinha acontecido. As provas as fizeram acreditar que eram culpadas, mas de fato elas não se recordavam. Este ano pretendo trabalhar com esse tema, das coisas que a gente inventa sobre família. Como vim para o Brasil bem nova, não convivi com avó e tios o quanto queria. Meu pai já morreu, então como não tenho como perguntar, invento. É lógico que é uma experiência minha, mas tem muita gente que passa por isso. Pessoas em situação de pobreza, que não têm foto de criança, de antepassados, de como viviam, eles têm que confiar numa lembrança.

L: Talvez o seu trabalho com os pratos tenha certo paralelo também, de pegar algo que está quebradinho, faltando pedaços, e transformar.
E: É, tem a ver. Até por serem objetos antigos, né!? Tenho várias amigas que falam “ah, esse prato foi da minha avó”. Não tenho prato da minha avó, tenho que inventar, então pego o prato da avó de alguém. Preenchi essa falta com coisas que sobraram de outras pessoas que não foram para lugar nenhum, não tiveram herdeiros. Eu herdo e tento ressignificar.

L: Você é muito crítica com as suas produções?
E: Sempre vai ter um “putz, isso aqui poderia ter ficado melhor”. É um saco, mas tudo bem, tem outros trabalhos na frente. Ficou o melhor que podia naquele momento e isso pra mim já basta.

L: É legal ouvir você dizer isso porque, em geral, mulheres se cobram mais no trabalho, desenvolvem mais a Síndrome da Impostora.
E:  Também sinto que sou impostora, mas todos são um pouco. Tem várias coisas que vejo de homem que é um truque do caramba. Senta ali na reunião, não tem nada pra falar, faz uma pose, fala nada além do óbvio e ganha três vezes mais. Penso “ué, então também posso”. Lido com o meu sentimento de impostora assim. Também exercito o pensamento de que se eu for uma impostora, sou das boas porque tá funcionando. Se me chamaram de novo para um trabalho é porque gostaram. Tem esse feedback do mundo. Ter passado por muito machismo e compartilhar essas histórias é o que faz a gente forte pra ter esse tipo de postura, de falar “eu consigo”.

L: Passou por alguma situação machista que te marcou muito?
E: Não, o que sempre vejo é que estamos numa caixinha. É melhor do que estar fora do jogo, claro. A gente está se empoderando, se juntando, mas ainda não conseguimos romper a segunda barreira, que é fazer coisas do mundo. Vi uma série de um produto que tinha cinco embalagens, cada uma assinada por um artista, todos homens. É provável que no Dia da Mulher essa marca chame cinco artistas do sexo feminino. Não! Quero que quando fizerem o produto, tenha mulheres e homens, brancos e negros. Estamos vivos no mesmo ambiente.

L: Os seus trabalhos sempre estão vinculados ao feminino. Não é uma escolha, então, certo?
E: Não, é o mercado botando a gente numa caixinha. Fico feliz de ser lembrada em projetos que envolve mulheres, livros infantis sobre mulheres e ilustrado por mulheres, que bom que estou nessa lista. Mas queria fazer também projetos que não fossem só exclusivos de mulheres. Não estou dizendo que não acho importante, acho importantíssimo, mas não escolhi fazer trabalhos de mulheres. É que sou mais lembrada quando é pra fazer trabalhos assim.

L: Quero falar sobre “Amor e Outros Peixes”, sua série que trata dos sentimentos humanos.
E: Na verdade trata da dificuldade em lidar com sentimentos. Como você se relaciona com um tubarão é diferente de como você vai lidar com um peixinho dourado e não estou dizendo que um é mais fácil do que o outro. O tubarão, você sabe onde ele tá, você tem uma relação mais de igual pra igual. A arraia é mansa, não faz mal a ninguém, mas se você der um pisão, pode te matar. Vou colocar só em metáforas… Às vezes você lida com um tubarão sendo uma pessoa adulta, em outros é uma criança. A série é toda em cima disso, estou buscando uma diversidade de posturas femininas e uma diversidade de conseguir lidar de analogias.

L: Em 2017, assistimos a uma série de polêmicas envolvendo obras de arte, como o caso do Queer Museu, no Santander Cultural em Porto Alegre, e o homem nu do Panorama da Arte Brasileira, do MAM. Como artista em atividade e filha de artistas perseguidos pela repressão, com você enxerga esse movimento aqui no Brasil?
E: Como uma disputa de narrativa e de poder. Ninguém está interessado em arte ou crianças. As pessoas querem inventar um fato e se colocar como salvadores e fazem isso sem pudor de desinformar, distorcer e atingir os outros. Querem colocar um carimbo de pessoas ruins em quem é um pouco mais progressista. E assim ganham mais seguidores, mais audiência, mais poder. É tudo, menos arte.As discussões poderiam ser outras: “pô, precisamos de um homem nu em 2017? Já não foi feito 500 vezes? Isso ainda choca, ou não choca? Não é isso que está sendo feito. É um bando de gente gritando, chamando de pedófilo comunista. É tão agressivo que não quero me envolver nessa história, pra mim afeta de uma maneira que é difícil.

L: Como assim?
E: Venho de uma vivência de pessoas que foram silenciadas e abafadas, abaladas e expulsas do país. E também vivo num país que não é meu. Por 30 anos fui levada a acreditar que sou “quase brasileira”. É uma coisa agressiva de se dizer porque tira sua identidade, como se tivessem tentando aliviar alguma coisa. Não tem o que aliviar, não sou brasileira, tá tudo bem. Então o sentimento de tentar falar alguma coisa num país que não é meu é de muita opressão. Talvez tenha escolhido fazer uma contestação mais sutil por puro medo. Por pura experiência que eu não quero passar por isso de novo.

L: Enxerga alguma mudança?
E: Acho que as mudanças acontecem a partir das mudanças de cada indivíduo. Então, essa é a vantagem de se juntar em mulheres, de compartilhar dores, medos, essas coisas, para se fortalecer e conseguir. Vai ficar colocando lei em cima? Claro que são importantes, mas é a lógica do vagão rosa, se nos fecharmos em guetos, deixaremos todos os outros vagões pra eles. A gente tem que se impor, se colocar, precisa trocar ideias, informações, que são do nosso específico. Tem que ter espaço, espaço para as mulheres, negros, todo mundo tem que ter seu momento. Então, não é vagão rosa. É “respeite os 10 vagões porque os 10 vagões são de todos”. Precisamos conversar e ir para um mundo mais preparado pra essas coisas. Enfim, acho que tudo é pouco tempo. Não tem nada resolvido. E o preço disso é eterna vigilância.

— Leia na íntegra aqui

TRADIÇÃO, FAMÍLIA, PROPRIEDADE

Hoje, Dia das Mães, quero mostrar essa, que é a primeira imagem que lembro de ter visto da minha mãe como algo separado de mim.

Era o flyer do ato / performance de criação coletiva “Tú propiedad privada no es la mía”, 1972, baseada no texto de Friedrich Engels “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado” – uma provocação / direção do meu pai, Juan Uviedo. Ela surgia, forte e firme, por trás das mãos que tentavam calar sua voz, seu corpo.

Do outro lado do cartão, a frase: ⠀
“Mais militante que aquele que em seu trabalho intelectual combate, no terreno da ideia, contra os adversários de classe, é aquele que em seu próprio trabalho artístico arranca da classe dominante o privilégio da beleza”

– Ernesto Che Guevara.

Obrigada mãe, pela inabalável serenidade, doçura e firmeza pra sobreviver, ter voz e espalhar beleza nesse mundo louco ♥️ #DiadasMães

DELICADA COMO UMA LÂMINA

delicado⁣: adjetivo ⁣1. de espessura reduzida; fino. 2. quase imperceptível; sutil. 3. que apresenta beleza singela. 4. que demonstra técnica elaborada; esmerado. 5. carente de forças e defesas; frágil. 6. que se melindra com facilidade; vulnerável. 7. que se comporta com cortesia e civilidade. 8. meigo, afetuoso. 9. Fig. que apresenta brandura, suavidade. 10. que exige prudência e cautela. 11. que apresenta sutileza, argúcia. ⁣

Ainda é estranho constatar o tanto que as pessoas julgam pelas aparências, muitas vezes sem prestar atenção ao que está sendo dito. ⁣Uma ‘atitude’ punk rock pode mascarar um discurso vazio que não ameaça minimamente o establishment, ou pior ainda, reacionário; um visual moderno pode mascarar ideias antiquadas por trás da etiqueta de “novo!”; um ar de intelectual pode convencer que faz sentido um raciocínio completamente torto; design e slogans hipsters podem esconder uma indústria anti-ecológica e práticas de mercado predatórias. As ideias nem sempre vem sinceramente estampadas na embalagem. É preciso entender melhor o que diz cada metáfora. Cada símbolo. Por trás de um visual fofo, pode estar um discurso afiado, incisivo, radical – e vice-versa. ⁣

A delicadeza pode ser uma navalha – mas tem horas que parece que a gente precisa de um machado. ⁣

DITADURA NUNCA MAIS

Reafirmar o repúdio ao GOLPE de 64 é apenas o assunto MAIS RELEVANTE a se tratar hoje. O que vai definir que tipo de Nação é o Brasil. Do tipo que se envergonha do seu passado na mão de ditadores e está disposta a não repetir os erros e horrores, ou do tipo que está pronta para voltar atrás. ⁣



E não adianta pensar “porra, em pleno 2019 eu tenho que falar disso”. Tem que falar sim, que nem faz a Argentina, o Chile, a Alemanha; falar todo ano, pra ninguém esquecer. Decretar feriado, fazer ato cívico, vestir preto, encher as ruas, ensinar as crianças. Deixar outras pautas se somarem a essa. Porque essa é a base, é o mínimo denominador comum a todas as outras. Sem democracia, nada se edifica. ⁣

#DitaduraNuncaMais ⁣
#TorturaNuncaMais
#memoriaverdadeejustiça
#memoriaverdadyjusticia

Pelo fim da militância irônica

Fazer chacota de cunho machista com alguém que é machista não te isenta de ser, também, machista

A polêmica começou no Twitter e envolveu, pelo que vocês podem notar, uma turma que não saiu da quinta série. Segue matéria do Buzzfeed, mas resumidamente é assim: Bolsonarinho #1 postou que não era pra professores falarem de feminismo nas escolas. Aí PC Siqueira desenterrou um tuíte do mesmo, de 2017, reclamando do feminismo pois sua ex-namorada estava em uma balada LGBT dançando até o chão com um cubano. A própria ex, Patrícia Lelis, botou mais lenha na fogueira, postando nas redes que o ex teria um micropênis, ejaculação precoce e outros detalhes de alcova. Bolsonaristas contra-atacaram trazendo a tona um caso em que o PC Siqueira teria sido traído. Baixaria total.

Problematizando até o chão

Pelamor do deus inexistente: a esta altura, ninguém deveria ter que explicar que piada de corno, além de infantilidade, é machismo tóxico level hard, e, como todo machismo, no fim da linha acaba gerando violência contra mulheres.

Como isso vira um bumerangue? Uma das consequências da masculinidade tóxica promovida pela sociedade patriarcal e que homens extremamente ciumentos (em parte graças à construção social de que mulheres são sua propriedade), homens com insegurança sobre sua masculinidade (e isso inclui os eventualmente encanados com o tamanho do seu pênis), podem acabar se tornando extremamente violentos, em parte porque a sociedade, para reafirmar que valores como virilidade e hombridade são os mais importantes de todos, tira sarro de qualquer característica que possa ser considerada uma “fraqueza” ou diminuição de masculinidade. Acha exagero? Procure saber quem são os incels ou mascus.

Tenho que aguentar Felipe Neto sendo a pessoa sensata do rolê

Claro que a tentação de usar qualquer coisa contra pessoas que a gente considera inimigos é grande. Claro que dá vontade de ver o feitiço se virar contra o feiticeiro.

Mas fazer isso perpetuando um modo de pensar que rejeitamos não ajuda em nada a promover uma mudança de consciência, que é o que precisamos de verdade.

Atira no que vê, acerta no que não vê

Me parece tão óbvio que não precisaria ser dito que não é legal fazer piada ou chacotas com questões que não são relativas ao caráter da pessoa, como: traição em um relacionamento monogâmico; colostomia — qualquer condição clínica aliás —; pau pequeno ou micropênis; revenge porn; vida sexual alheia — seja ela farta ou inexistente — ; e aparência física de homens ou mulheres.

Mesmo que o alvo da piada seja “contra o politicamente correto” e não siga ele mesmo esses critérios? Sim. Mas por que ser legal com quem não é legal?

Bem, pra começar, por princípios internos de respeito ao ser humano, independente de quem seja.

Depois, por todo mundo que enfrenta esse tipo de problema (no caso de doenças) ou insegurança e não tem nenhuma culpa de compartilhar essas características com a pessoa a quem a gente quer atingir.

Quando a gente reproduz essas chacotas, aumentando o estigma e o tabu sobre esses assuntos, estamos afetando indiretamente a vida de milhares de pessoas que não tem nada a ver com isso, além de contribuir para piorar a sociedade como um TODO.

Micropênis

Um motivo que vejo pra não fazer piada com tamanho do pênis é que vi um documentário, acho que no Home & Health (faz tempo), onde mostrava o drama das pessoas que sofriam com isso. Fiquei muito impressionada, porque imagino a dificuldade que seja procurar ajuda.

Fora isso, não tenho conhecimento para falar sobre, mas, vocês podem imaginar ou procurar saber o que é ser homem trans em uma sociedade falocentrada.

Ouçam essa pessoa trans não-binária
Segue na mesma lógica: “se não achar que é racismo, deixa de ser”? claro que não.

A Vida (sexual) dos Outros

É muito comum a gente usar o “não come ninguém / é mal comida” como formas de diminuir o outro. Como se a vida sexual da pessoa determinasse algum valor ao indivíduo. Isso é uma faca de dois gumes, né?

Certamente mulheres são as vítimas mais constantes de exposição de detalhes íntimos na internet, mas isso quer dizer que estamos autorizadas a aprovar o comportamento quando é contra um homem que a gente não gosta? É assim que queremos ser?

Sim, mulheres são mais julgadas quanto à sua vida sexual: ou é piranha ou é frígida ou mal comida. Mas quando usamos “xingamentos” como: “vai dar”, “vai transar” etc, estamos de novo atribuindo valor moral a algo que é apenas um problema ou escolha individual, algo de foro íntimo.

De novo um documentário sobre pessoas assexuais me levou a ter empatia com esses indivíduos e entender o quanto o estigma atrapalha a levar uma vida saudável. Um giro por qualquer rede social e vamos encontrar milhares de casos. Todas pessoas afetadas pela ideia vendida de que uma vida sexual fervilhante é o ideal de vida que TODOS os indivíduos ~normais~ devem alcançar.

Inclusive, e isso é assunto para outro post, a hipervalorização de experiências sexuais performáticas ou romantizadas é uma fonte sem fim de neuroses hoje. Se o parceiro faz ou não isso ou aquilo é uma combinação entre duas (ou mais) partes, e não tem nada a ver a gente ficar “fulane não faz sexo oral”. Lidar bem com a sua sexualidade é uma questão em mais complexa do que um manualzinho de boas práticas na cama.

Aparência física

Sobre aparência física nem precisa falar né? De pressão estética a gordofobia, da barriguinha do Ciro até a opressão estrutural que exclui corpos gordos, comentários sobre o corpo alheio são: prejudiciais. Pra homens e mulheres, que são julgados e prejudicados em diversos campos: relacionamento, trabalho, direitos à mobilidade, saúde, respeito.

Sobre o assunto, leiam Flavia Durante em sua coluna no UOL: https://flaviadurante.blogosfera.uol.com.br/

“Ah, mas as mulheres sofrem pressão sobre seus corpos e sua vida sexual também”. SIM, justamente devido a essa mesmo estrutura que agora a gente ACHA que está usando a nosso favor. Não estamos. Claro que não dá pra comparar a pressão que mulheres sofrem com a que homens sofrem. Mas não adianta negar que ela existe e que homens gordos sofrem muito com isso também. Precisamos questionar se a melhor maneira de reagir é de uma maneira que reforça o problema.

O problema da Ironia

ironia (do grego antigo εἰρωνεία, transl. eironēia, ‘dissimulação’) é uma forma de expressão literária ou uma figura de retórica que consiste em dizer o contrário daquilo que se quer expressar. Na Literatura, a ironia é a arte de zombar de alguém ou de alguma coisa, com um ponto de vista a obter uma reação do leitor, ouvinte ou interlocutor. Ela pode ser utilizada, entre outras formas, com o objetivo de denunciar, de criticar ou de censurar algo, diz a Wiki.

Mas, como diz a velha máxima: o problema de ser irônico é que, quando a pessoa não entende, quem passa por burro é você. Muita gente justificou seu machismo sob o pretexto de: eu não acho isso, mas eles acham; quero que eles vejam como é ruim etc.

No entanto, usar de machismo contra machistas, ainda que conscientemente não concordemos com os valores inseridos na piada (vamos fingir que isso seja possível), acaba sendo uma forma de legitimar uma lógica que queremos que desapareça. Então reforçá-la não faz sentido.

Não importa QUEM é zoado, mas pelo QUÊ. Se não achamos que algo é merecedor de piada ou chacota, isso deve ser independente de contra quem seja.

Se eu não acredito que “ser corno” é uma questão de honra, como posso compactuar com a zoeira? Se eu sei que micropênis é uma condição triste que traz sofrimento e estigma a homens cis e trans, como posso achar legal que alguém brinque com isso?

“Ah é ironia”, vão dizer. Mas vale a pena? É compreensível para todos que estamos apontando incoerências? Ou estamos apenas dando brecha para ser chamados de incoerentes?

Matando formiga com DDT

“Não é problematizar demais? É só uma piada…”

O problema, nesses dois casos citados no início, apenas para exemplificar, é que só demonstra e valida uma estrutura da sociedade que é machista (avacalhação porque é corno) e falocêntrica (tamanho de pau) portanto nociva. Ambas REFORÇAM o que supostamente querem combater.

Comparando, é como matar um inseto com um veneno que também te contamina. O inseto fica afetado, mas o maior afetado é você.

Apontar esse tipo de contradição não é “enfraquecer a esquerda”. É fortalecedor quando a gente percebe falhas e tenta melhorar. A união não deve ser a qualquer custo.

E se acusam movimentos de mulheres, negros e LGBTs de estarem, com isso, “separando a esquerda”, por favor procurem entender por que talvez a gente queira distância desse tipo de pensamento (e desses tipos) sim.

AMOR / RAIVA / AMOR

porque tem dias que a gente tá puto mesmo
* * *
a palavra emoção vem do termo em latim emovere, que significa energia em movimento. Isso significa que toda emoção existe para movimentar a vida do indivíduo e mudar comportamentos e situações que estão em desequilíbrio. […] A principal função das emoções é gerar comportamentos que garantam a sobrevivência do indivíduo diante de um estímulo externo, seja para proteger ou impulsioná-lo a realizar algo. (“A função da raiva”, Edivaldo P. Negrão).
* * *
Mas elas também podem nos levar à imobilidade, à depressão, à inação. Está a nosso cargo encontrar e entender o sentimento motriz do momento e lidar com ele da melhor maneira possível.
* * *
Ícaro Jorge (@icarojorgesantana), articulador do Ocupa Preto, militante do Coletivo de Juventude Ousar, do JPT-SSA, escreveu, em excelente artigo de 24/07/2018 no site Justificando: “Precisamos aprender a transformar a raiva em auto-amor. Mas não como o amor romântico que o capitalismo criou no imaginário social para vender e lucrar com sentimentos, mas o amor que fortalece as nossas subjetividades e nos faz voltar a quem somos a todo tempo, heróis e heroínas das nossas vidas, reis e rainhas que foram aprisionados pelo medo daqueles que não possuíam brilho suficiente para enxergar a nossa realeza. Nós somos a realeza, a fortaleza, aqueles que mesmo diante das diversas dificuldades, se reconstroem a cada dia. E é como bell hooks nos direciona: precisamos nos movimentar para além da dor, e só nos amando conseguiremos isso, buscar pensar em novas possibilidades para desestruturar as mazelas da sociedade e transformar essa raiva do mundo em amor. E dessa forma, revolucionar sem ser engolido pelo caos da própria estrutura”.
* * *
This too shall pass 
So raise your glass 
to change and chance 
And freedom is 
the only law 
Shall we dance? 
So if you’re feeling low, 
stuck in some bardo 
I, even I know the solution 
Love, music, wine and revolution 
Love, love, love, music, wine and revolution.

The Magnetic Fields – World Love.
* * *
Escolha seu combustível
Não deixe de avançar

RELAXA, VAI DAR TUDO ERRADO

Afinal, o que quer dizer dar certo né? Pra bactéria, uma infecção é um ataque bem sucedido.
Que toda forma de ódio, ignorância, intolerância e manipulação dê muito errado são meus votos pra 2019 ♥️ (infecções também)
#otimismo #felizanonovo

SOBRE AS FRONTEIRAS QUE NÃO PRECISAMOS


Um combo de curiosidade, gosto pela política e tempo livre configuraram que a tarefa de buscar candidatos ao legislativo para o Mauro votar é por minha conta. Não lembro como cheguei no nome da Erica Malunguinho para deputada estadual, mas ao bater o olho no seu Instagram dei de cara com um texto que me ganhou. Segue:

“Imigração é um tema muito importante a ser debatido, é como pensar diásporas. Há muitos motivos pelos quais as pessoas fazem esse fluxo e quase sempre estão ligados as tormentas e as dificuldades de sobrevivência em terras de origem. Antes de mais nada é bom lembrar que esta ideia de Estado Nação é em si problemática.”

(CAIRAM DUAS LÁGRIMAS QUANDO LI ESSA PARTE, VOU REPETIR: A IDEIA DE ESTADO NAÇÃO É PROBLEMÁTICA).

“As pessoas deveriam apenas poder ir, andar, caminhar e buscar refúgio pelo desejo de andarilhar… Naturalizar-se, nacionalizar-se simplesmente pela aderência as culturas. Mas não é assim, os refúgios estão diretamente ligados às demarcações territoriais que geraram disputas, guerras, instabilidades sociais e protecionismos segregacionistas.

Qualquer um(a) que o mandatário / latifundiário / governante / sistema decidir é estranho/o outro / estrangeiro; e é a partir do fundamento racial, da ideia de casta e/ou classe, língua, fenótipo, hábitos que isso se materializa.”

Muitos me perguntam por que eu não me naturalizei brasileira para poder votar; acontece que para isso eu precisaria ABDICAR de ser argentina, algo que não faz sentido para mim. Nascida na Argentina, residente há 30 anos no Brasil, é ISSO que sou. E tudo bem pra mim não votar – desde que eu mantenha o direito de ter e exprimir minha opinião.

Depois de tanto tempo morando aqui, é óbvio que eu amo o Brasil; mas nem sempre recebo esse amor de volta. E mesmo depois de 30 anos, ainda estou sujeita a ouvir um “volta para sua terra” quando a coisa esquenta. Já ouvi isso algumas vezes, mas cada vez que falam isso para um imigrante dói como se fosse para mim.

Assim como tantos, não vim para cá por causa das belas praias. Vim criança, fugindo de uma ditadura HORRÍVEL pra cair em uma MENOS PIOR. É de ditaduras que a gente SEMPRE foge na América Latina, deveríamos estar cansados de saber. Deveríamos saber identificar (e deter) uma pelo cheiro, pela cara, pelo som das botas. Pelas notícias de pessoas agredidas por sua roupa, por seus modos, pelo que pensa.

Mesmo dentro de uma democracia, precisamos encontrar formas de garantir que TODOS tenham os mesmos direitos, que negros, mulheres, LGBTs, PcDs (pessoas com deficiência), moradores de favelas não sejam considerados “minorias querendo direitos demais” porque o autodenominado “cidadão de bem”, essa FICÇÃO, sente que vale mais que todos, se achando verdadeiro herdeiro desta terra roubada.

Deveríamos parar de criar fronteiras. 
Deveríamos parar de criar estrangeiros. 
Amanhã pode ser você.

#EleNão

p.s.: Erica Malunguinho é mulher trans, negra, pernambucana e foi eleita Deputada Estadual em SP pelo Psol

RETROSPECTIVA 2017: ESPECIAL TEXTÕES

Perspectivas que deram muito o que pensar

Neste ano que passou, aprendi que muitas vezes a realidade suplanta a lógica. Pode-se construir um raciocínio perfeito, analogias aparentemente impecáveis, tentar simetrizar situações à vontade, dizer “isso abre um precedente perigoso”, “mas se X pode, você dá direito a Y também” etc. Ok. Mas, apesar de vivermos em uma sociedade racionalista, a gente não vive em uma fórmula matemática e os fatores não são números frios; são vidas. E, humanos que somos, podemos escolher um lado pra nos importar. É quase inevitável, aliás.

E é normal que uns estejam mais cansados que outros, mais irritados, mais fartos de injustiças, mais putos da cara por ter direitos básicos negados. Que estejam cansados dos mesmos argumentos toscos e de pedidos falsos de diálogo e conciliação. Que às vezes aumentem o tom e até “passem do ponto”. Especialmente quem está basicamente em uma luta por respeito (mais do que por identidade), que é o que mulheres, negros, gays, bis, trans, pessoas gordas etc tem em comum. Pelo direito a existir e ser tratado como humano. É o básico do básico, sabe? E como ninguém é uma coisa só, a trama é complexa e nunca sem conflito. Mas avança mesmo assim, desde que o mundo é mundo.

Na seleção de textos que me fizeram pensar este ano, tem muito conteúdo ligado a racismo, especialmente porque foi um período em que me caíram várias fichas a respeito. Paradoxalmente, não foram textos lidos que mais mexeram comigo a respeito de assuntos espinhosos como apropriação cultural e lugar de fala, mas ver eles confirmados através de algumas atitudes absolutamente vergonhosas de amigos brancos. De boas intenções até, mas sem sensibilidade para perceber que o meio (o emissor) é a mensagem; sendo veículos de reprodução de opressões seculares, reforçando estereótipos ou acometidos da síndrome-da-princesa-isabel, e até tentando silenciar quem já é silenciado em nome de um não-silenciamento… Um show de horror — e também um espelho. Um símbolo de algo de quero cada vez mais me distanciar.

Agradeço por poder observar esse cenário e suas dinâmicas, perspectivas diferentes, ouvir tantas vozes diversas e muitas vezes discordantes, misturar esse caldo e me alimentar dele. Porque há tempo pra falar e pra calar, pra agir e pra observar.

Como no hexagrama 64, do I-Ching, Wei Chi – Antes Da Conclusão, cuja simbologia é uma raposa caminhando cuidadosamente sobre um rio congelado, atenta a qualquer ruído para identificar um possível rompimento. “Quando estamos com um problema, ter uma boa perspectiva dele é fundamental. Sem isso, dificilmente as soluções surgem. Para superar os perigos, é preciso claridade. Antes da luz, porém, deve vir a quietude interior”.

Então estaremos prontos para cruzar o grande rio. Ele espera por nós.

(ih, fiz textão.)

1. Treta, ops, expressão do ano

O que é “lugar de fala”? Entenda:

2. Feminismo

Como é ser mulher hoje? Desafios e encheções de saco que não aguentamos mais

https://www.cartacapital.com.br/diversidade/adeus-mano-velho

3. Questões de gênero

https://www.cartacapital.com.br/diversidade/sobre-genero-judith-butler-aborto-e-tudo-isso-que-esta-ai

4. Racismo

Como brancos reagem a críticas? Onde o racismo se esconde nas pessoas bem-intencionadas? Como racismo afeta estruturalmente a vida dos negros?

5. Apropriação cultural

A dificuldade de entender o significado das coisas

https://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-alegoria-do-turbante-no-carnaval-de-racismo

6. Corpo: padrões estéticos e gordofobia

Por que é tão difícil deixar as pessoas serem como elas são

7. Desigualdade social

Política econômica e você

https://www.cartacapital.com.br/blogs/vanguardas-do-conhecimento/desenvolvimento-economico-depende-de-um-novo-raciocinio

Menção honrosa

Direitos humanos, homofobia, família, jornalismo; não teve um canto onde esse texto não deixou entrar luz

Lembrou de algum texto ou assunto que poderia ou deveria estar nessa lista? Agradeço se sugerir.

SOBRE ARTE E POLÍTICA


“‘Antes de começar a falar de cultura aponto que o mundo tem fome’, escreveu Artaud no prefácio de seu livro “O Teatro e seu Duplo”, publicado em 1938. O poeta louco, o poeta da dor, era inseparável da realidade, embora sua estética artística estivesse ligada ao surrealismo. Infelizmente essa frase ainda em vigor hoje, foi muito eficaz no final dos anos setenta, quando um grupo de jovens lia seu livro e queria fazer teatro. Um teatro que forjou a cultura ligada à vida, e que a alimentava. Não um teatro que fosse parte da cultura que está acima da sociedade, longe dela, e que a oprime. Como as instituições são parte da cultura, esses jovens eram contra todas as instituições que, com as suas ações, tendem a perpetuar a fome e a regulamentar a vida para com isso perpetuar a fome.

Três anos antes da publicação desse livro, Breton, líder do movimento surrealista, terminou um discurso no congresso de uma associação de escritores revolucionários, rompendo definitivamente com o realismo socialista do stalinismo, com a seguinte frase: “Transformar o mundo, disse Marx. Mudar a vida, disse Rimbaud. Para nós, esses dois slogans são um só.” Desde então, arte e revolução, revolução e arte se transformou em um binômio indissolúvel para muitos artistas. Revolucionar a arte, a arte anti-vida, arte-comércio, a arte elitista. Fazer arte para a revolução. Transformar o mundo e mudar a vida virou o norte de todas as ações e pensamento daqueles jovens em Buenos Aires no final dos anos setenta. E começaram a fazer, a fazer muito, em teatros, casas, bibliotecas, clubes, ruas, apesar de viver sob a mais feroz repressão na história moderna, quando juntar mais de três pessoas era considerado subversiva e punível com penas atrozes. Todos os eventos e intervenções teatrais feitas por TiT buscavam a ruptura com o teatro espaço-sede tradicional, com a relação desigual entre atores e audiência, e a dependência de teatro em relação à literatura. (…) E com base em escritos de Marx e Engels conceberam o slogan “por menos artistas, e mais homens e mulheres que façam arte.”

(discurso na entrega do prêmio Podestá, da Ass. Argentina de Autores, 2014)
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Esse grupo, do qual fazia parte um certo Don Juan Uviedo, chamava-se Taller de Investigaciones Teatrales (TiT) e obviamente sou suspeita pra falar, mas tinha um trabalho que vale muito a pena ser conhecido e lembrado; pra quem quer saber mais a respeito, o site criado por Rubén Bat tem uma vasta documentação fotográfica, em texto e vídeo e é um ótimo retrato de como se fazia arte e política nos loucos e doloridos anos setenta.

http://tit.16mb.com/mencion.htm

CONTERRÂNEOS VELHOS DE GUERRA

Na ‪#‎DicadeDocumentário‬ de hoje fugirei um pouco dos óbvios ‘O dia que durou 21 anos’ (ótimo por sinal) ou outros sobre Golpes de Estado, aqui ou no mundo, de diferentes modelos – hoje podemos ver um ao vivo. Sugiro o excelente registro sobre a construção de Brasília: do projeto grandioso e utópico de cidade igualitária e democrática que, segundo o arquiteto Oscar Niemeyer falhou, à miserável vida das milhares de pessoas que a ergueram. Exploradas, escravizadas, massacradas, abandonadas à sua própria sorte, completamente à margem do novo Brasil que se anunciava. E pra quem acredita que os sistemas de saúde, educação, habitação, enfim, o país ‘eram bem melhores antigamente’: por favor, não deixem de ver. Mas prepara o estômago.

(via Bruno Torturra)

A BATALHA DO CHILE PARTE II – O Golpe de Estado

No capítulo anterior vimos como o Congresso Nacional paralisa o governo de Allende votando contra todas as reformas propostas por ele e cassando mandatos de um ministro atrás do outro, levando o país a um estado de completo caos.

Agora vou recomendar a parte II do excelente documentário A Batalha do Chile, onde uma greve de empresários donos das frotas de transportes paralisa o país e o negócio desanda de vez – apesar do apoio popular ao presidente eleito e à mobilização contra o golpe – graças à interferência dos militares, da mídia monopolizada controlada por um grupo de oposição e claro, dos Estados Unidos.

E o General Augusto Pinochet, até então leal ao governo, sobe ao poder após o Golpe de Estado que pretendia reestabelecer a ordem.

Pra quem tiver estômago, segue o link:

A BATALHA DO CHILE PARTE I – A Insurreição da Burguesia

É um excelente documentário, mas poderia ser um filme de terror. Ou uma aula de como se acaba com um governo de esquerda democraticamente eleito através da combinação: boicote e embargo dos Estados Unidos e empresários + congresso paralisando medidas populares + manifestações e greves apoiadas por uma elite financeira – isso fora as divisões internas e o fogo amigo.

Só sei que é de chorar.

… e ainda tem a parte II e III, que eu estou com medo de ver.

O MITO DA CORDIALIDADE

“‘Somos cordiais’ significa em primeiro lugar que agimos pelo coração – mesmo quando odiamos. (…) Existe um ódio que Euclides da Cunha notou como se fosse do sertão, ao dizer que havia um encontro entre o Brasil do litoral, civilizado, do século XIX com o Brasil antigo, violento – como se o ódio não fosse uma característica do Brasil, e sim dos grotões. (…) 

Vocês devem lembrar que na escola não aparece a expressão ‘guerra civil’ em toda a História do Brasil. Nós não utilizamos essa expressão quando o Rio Grande do Sul se separa durante dez anos do resto do Brasil; não utilizamos essa expressão na Cabanagem, na Sabinada ou na Balaiada; não utilizamos na revolução de 1932. Todos esses movimentos são revoltas regenciais, movimentos constitucionalistas, abriladas, movimentos liberais. Nós vivemos ‘agitações’, nunca guerra civil. Ora, se guerra civil é uma guerra de pessoas contra pessoas de um mesmo país, nós temos vivido sistematicamente episódios de guerra civil; inclusive disfarçadas ou iminentes, como na campanha da legalidade ou nas reações, ainda que fracas, ao golpe militar de 64. (…) 
Evitar a expressão ‘guerra civil’ quer dizer que nós evitamos a denominação da violência. Conseguimos dizer apenas expressões eufemísticas, uma maneira de atenuar nosso horror estrutural a imaginar que nós sejamos violentos. (…) 
A questão crucial da história brasileira é de que a violência é sempre do outro; nunca é minha. Ela é sempre um espanto, sempre inexplicável, só tem sentido no outro. Então constato que, por incrível que pareça, nós somos um povo profundamente pacífico, cercado de gente violenta por todos os lados.”
Vale a pena gastar horinha e meia nessa ótima palestra do historiador e comentarista do Jornal da Cultura Leandro Karnal sobre o ódio no Brasil x o mito da cordialidade brasileira (e do ser humano em geral) pra entender porque isso não é, nem de longe, uma novidade.

OS MEIOS PARA A COMPREENSÃO: A IDEIA E O INDIVÍDUO

“Em geral se aconselha a governantes, estadistas e povos a aprenderem a partir das experiências da história. Mas o que a experiência e a história ensinam é que os povos e governos até agora jamais aprenderam a partir da história, muito menos agiram segundo as suas lições. Cada época tem suas próprias condições e está em uma situação individual; as decisões devem e podem ser tomadas apenas na própria época, de acordo com ela. No torvelinho das questões mundiais nenhum princípio universal e nenhuma memória de condições semelhantes poderá ajudar-nos — uma reminiscência imprecisa não tem força contra a vitalidade e a liberdade do presente. Nada é mais oco do que os apelos tantas vezes repetidos aos exemplos gregos e romanos durante a Revolução Francesa; nada é mais diferente do que a natureza destes povos e a de nosso próprio tempo.”

“Uma primeira olhadela na história nos convence de que as ações dos homens emanam de suas necessidades, suas paixões, seus interesses, suas qualidades e seus talentos. É como se realmente nesse drama de atividades todas essas necessidades, paixões e interesses, fossem a causa e o principal motivo da ação. É verdade que este drama envolve também objetivos universais — benevolência ou nobre patriotismo, virtude e objetivos esses deveras insignificantes no vasto quadro da história. Talvez se possa ver o ideal da Razão realizado naqueles que adotam tais objetivos e na esfera de suas influências; entretanto, seu número é mínimo em proporção à massa da raça humana e sua influência, proporcionalmente limitada. Paixões, objetivos particulares e satisfação de desejos egoístas são, ao contrário, formidáveis motivos de ação. Sua força está em que eles não respeitam nenhuma das limitações que a lei e a moralidade impor-lhes-iam e no fato de que estes impulsos naturais estão mais próximos da essência da natureza humana do que a disciplina artificial e maçante que tende à ordem, ao autodomínio, à lei e à moralidade.

Quando examinamos este mostruário de paixões e as conseqüências de sua violência, o absurdo associado não apenas a eles, mas até (diríamos antes especialmente) com os planos bons e os objetivos honestos e quando vemos surgir daí o mal, o vício, a ruína que ocorreram aos reinos mais florescentes que a mente humana jamais criou, mal podemos evitar encher-nos de tristeza com essa mancha universal de corrupção. E, como esta decadência não é obra da natureza simples, mas da vontade humana, nossas reflexões podem muito bem levar-nos a um pesar moral, uma repulsa pela vontade boa (o espírito) — se é que esta tem realmente espaço dentro de nós. Sem exagero retórico, um simples relato verdadeiro das desgraças que destruíram os mais nobres governos e as mais nobres nações e os melhores exemplares da virtude privada forma um quadro assustador, despertando emoções da mais profunda e mais desesperançada tristeza, sem a compensação de um resultado consolador. Podemos suportá-lo fortalecendo-nos contra isto apenas pensando que assim deveria ser — é o destino, nada se pode fazer. Por fim, saindo do aborrecimento com que esta dolorosa reflexão nos ameaça, voltamos à vitalidade do presente, para nossos objetivos e os interesses do momento. Resumindo: voltamos ao egoísmo que está na praia tranqüila, gozando em segurança o distante
espetáculo do naufrágio e da confusão.”

HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich, que não foi invocado a toa, em ‘A Razão na História’

Obrigada, mundo, por ser assim.

MISSISSIPI GODDAM

Nina Simone, apenas com essa música, foi mais punk que Sex Pistols tocando God Save the Queen, mais contundente que Bob Dylan discursando contra a guerra, mais chocante que Roberto Carlos mandando tudo pro inferno, ou qualquer outro exemplo de letra-que-quebra-tudo que eu consiga me lembrar, de qualquer gênero musical.

A canção foi inspirada pelo atentado que matou quatro crianças negras numa igreja no estado do Alabama em 1963; e o grito-desabafo de revolta GODDAM teve um impacto enorme, ainda mais na voz de uma mulher negra em uma época em que segregação racial era lei. E isso foi só o começo da sua luta, que foi dura, longa e de fundamental importância.

Hoje é aniversário dela e só temos a agradecer.

Nina, que bom que você nasceu.

https://www.letras.mus.br/nina-simone/185487/traducao.html

MALUF QUE FEZ

Bem, Paulo Maluf finalmente teve a candidatura impugnada por comprovada improbidade administrativa em um dos muitos casos pelos quais está sendo investigado; porém, sua inestimável ~contribuição~ para os debates políticos do Brasil jamais será esquecida.

Com vocês, o melhor de Dr. Paulo: