O QUE VEJO, O QUE OUÇO – agosto 2021

Tenho assistido muitos documentários sobre música nos últimos tempos. Não necessariamente lançamentos, claro. Eu gosto de esperar para estar no mood correto para assistir filmes, ler livros, ouvir discos, e isso pode demorar anos. Em todo caso, segue uma lista com dicas de docs legais que estão nas plataformas de streaming.

QUEBRA TUDO: A História do Rock na América Latina

Uma história política do rock na América Hispânica em seis episódios, com depoimentos de Charly García, Fito Páez, Rubén Albarrán, Julieta Venegas, Andrea Echeverri e Gustavo Cerati. Excelente para um breve panorama do rock e, em especial, das reviravoltas políticas na América Latina. Para os brasileiros, vai ser tudo uma deliciosa novidade.

Não se preocupe em anotar o nome das bandas que gostar, tem playlists temáticas no Spotify pra isso.

Música ligeira: https://www.netflix.com/title/81006953


AMARELO – É Tudo Pra Ontem

Assisti só agora o doc do Emicida e: é tudo isso sim. A premissa é linda: Emicida vai tocar no Teatro Municipal de São Paulo e, para explicar a importância desse evento, precisa contar desde o começo. Daí ele volta um pouco no tempo: uns 500 anos. Roteiro 10/10. Emoção: total.

Tudo que nóiz tem é nóiz: https://www.netflix.com/title/81306298


CHORÃO: Marginal Alado

Corretinho e com boas imagens de arquivo, apela para a emoção de quem é fã – não teria como ser diferente. Pra quem não é fã, talvez não fique tão claro o tamanho da banda.

Duas críticas: uma, à escolha de alguns personagens (como Marcelo Nova e João Gordo) para dar loongos depoimentos – não eram necessariamente os colegas mais próximos. [Pra quem quer ver mais, aqui o recorte é o pessoal do skate]

E achei que a treta com o Marcelo Camelo de novo não ficou bem explicada: pegou imagens do programa Ensaio, no qual Chorão conta com detalhes os motivos da briga, mas deixou de fora a parte em que ele explica que já tinha desculpado o músico carioca uma vez e ele tinha falado mal dele de novo.

Aqui, dos 29’30 em diante:

Mas o doc conta bem a história do personagem, sem escapar de temas polêmicos como a Netflix às vezes faz – tipo o do Lee Morgan que consegue a proeza de contar todas as tretas mas omitir o fato de que elas eram causadas por seu vício em heroína por exemplo. No caso do Chorão está tudo lá.

Só os loucos sabem: https://www.netflix.com/title/81279462


O BARATO DE IACANGA

Não quero dar spoiler. Assistir esse doc sem saber nada sobre o festival é uma experiência maravilhosa. Não sabe do que se trata? Melhor ainda, só assiste.

Tudo tudo tudo vai dar pé: https://www.netflix.com/title/81211691


AMOR SERTANEJO

Um pouco de história, bastante de mercado, um tanto de produção musical e fundamental para entender por que esse é o gênero musical mais ouvido no Brasil há 30 anos.

Gostei muito deste momento que fala sobre a ideia de juntar compositores para criar hits: a gente critica a ideia pela massificação, João Marcelo Bôscoli porque a ideia não é nova, a geração do pai dele já tinha feito isso antes ¯\_(ツ)_/¯

E, nos dez minutos finais, um panorama de futuro que vai arrepiar os cabelos dos tonico-e-tinoquistas. Vocês vão sentir saudades do sertanejo universitário, podem anotar.

A melhor definição – vejam só – é do DJ Alok, que hoje toca em Barretos: “uma das razões pelas quais o sertanejo faz tanto sucesso no Brasil, e ele é hoje o pop do Brasil, é porque o público sertanejo abraça outros gêneros também” E, se nada fica de fora, como não ser o maior?

Quem gosta de rodeio bate forte com a mão: https://www.netflix.com/title/81295108


Docs mais antigos, agora em um streaming perto de você

Na excelente plataforma In-Edit, por R$ 7.

JORGE MAUTNER: O Filho do Holocausto

O documentário é de 2012, mas eu só assisti recentemente. Vale pela ótima história, contada lindamente pelo compositor, escritor, cantor, poeta; as ótimas cenas de arquivo; e tem como destaque a reunião de Caetano e Gil contando causos da juventude junto a um ainda inconformado Mautner. Ponto baixo: sua filha Amora encarna um papel chatíssimo, no qual aparentemente não superou sua sofridíssima infância, quando seu pai malvado ia buscá-la na escola de sunga.

Cinco bombas atômicas: https://br.in-edit.tv/film/312


UMA NOITE EM 67

Tem de tudo nesse mundo né, e se você é das raras pessoas que ainda não viu esse doc, a hora é agora. Basicamente conta a história de uma noite – e que noite:

Final do III Festival da Música Popular Brasileira da TV Record, 21 de outubro de 1967. Entre os candidatos aos principais prêmios figuravam Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Mutantes, Roberto Carlos, Edu Lobo e Sérgio Ricardo, protagonista da célebre quebra da viola no palco. Com imagens de arquivo e apresentações de músicas hoje clássicas, o filme registra o momento do tropicalismo, os rachas artísticos e políticos na época da ditadura e a consagração de nomes que se tornaram ídolos.

Caminhando contra o vento: https://br.in-edit.tv/film/328


AXÉ – Canto Do Povo de Um Lugar

Doc massa de 2016, já esteve na Globoplay, há uns tempos na Netflix. Se você perdeu esse bonde mas não deixou de botar a mão no joelho e dar uma abaixadinha, a hora é agora.

Brincadeira, esse filme é ótimo até para quem não manja nem gosta do rebolado – conta a história de um movimento importantíssimo para a cultura brasileira, e conta direitinho até demais, ou seja, dando aquela branqueada metalinguística também. Vai bem até a metade, depois desanda e termina naquela depressão de ver a música de origem tão negra apontando para o futuro na última astronave pilotada pelo russíssimo Saulo Fernandes. Ainda assim: assista, mas prepara o sonrisal.

Cara caramba cara caraô: https://www.netflix.com/title/81295392


NARCISO EM FÉRIAS

Esse não é exatamente sobre música, mas um relato pessoal de Caetano Veloso sobre o período da sua prisão, logo após o AI-5. Mas é claro que isso impactou em suas músicas e bem, melhor do que documentários sobre música, só documentários sobre história e política, se juntar tudo melhor ainda.

O errante navegante: https://globoplay.globo.com/narciso-em-ferias/t/KVRw1yNS8G/

[ QUATRO NOTAS SOBRE A LEVEZA ]

1

lugar, desabitá-lo:

procuro uma palavra para me referir às forças que passam a operar em torno dos objetos quando ninguém mais os toca

2

à noite estou sozinha

sonho com um cavalo azul
e o vento varre meu rosto e minha boca cai em desuso

3

penso em como seria educar uma pessoa com base na ideia de que há coisas que esvoaçam
cortinas, roupas em varais
– as folhas de um caderno aberto sobre a mesa próxima à janela

4

[ a página onde leio as palavras que alguém escreveu no momento em que tentava conceber —

em que se sustém a transparência quando ocorre
de a libélula voar? ]


à noite as meninas se reúnem em torno de suas bonecas
e se inclinam para beijá-las na testa e imantar seus corpinhos de pano com relâmpagos

são meninas magras e inacessíveis

tantas
e cheiram a algodão e lágrimas

nos cabelos um nevoeiro de teias de aranha. na pele os sinais em sete eclipses: lua ilícita, lisérgica. a sombra no púbis, no ânus, nos covis das axilas. uma única e mesma noite atravessa os séculos pela boca das mães até a boca das meninas

e das meninas às bonecas

num processo difícil de perpetuação da fome


1

estudar o pássaro
estudar o desenho de mãos que vem ao caso quando penso na palavra “fragilidade”

a altura
a origem da ideia de linhas
tênues

2

estudar a terminologia com a qual os homens de uma cidade perdida se referiam à movimentação de suas cortinas em manhãs de vento

(a atenção com que as observavam, especialmente no instante em que depois de serem abatidas pelo vento elas caíam
e caíam assumindo uma angulação muito própria em relação à luz)

3

estudar todo e qualquer vestígio

e por que penso em homens que falam muito baixo uns com os outros, como se a palavra fosse um excesso

como se em seus íntimos eles estivessem trabalhando na elaboração de uma outra teoria do fogo

mar becker (marceli andresa becker) é formada em filosofia (universidade de passo fundo) e tem especialização em epistemologia e metafísica (universidade federal da fronteira-sul). mora atualmente em são paulo. faz bonecas e bichinhos de crochê. e-mail: mab_1109@yahoo.com.br

GOSTO MUITO DE VOCÊ

Chico Buarque é geminiano
Gilberto Gil é canceriano
Caetano Veloso é leonino

se isso não fizer vc acreditar em astrologia, nada mais faz

[amo a arte de cada um de um jeito, mas a de Caetano me ajuda a lembrar que eu gosto de arte, então começa por aí. longa vida a todos os três]

IT’S LIFE, AND LIFE ONLY

O problema do mundo é que as pessoas ouvem menos Bob Dylan do que o necessário – e olha que há 79 anos ele está aí, dando mais do que a gente merece. Obrigada Bob, este ano vou comemorar mais seu aniversário do que o meu (que é amanhã).⁠
-⁠
While them that defend what they cannot see⁠
With a killer’s pride, security⁠
It blows the minds most bitterly⁠
For them that think death’s honesty⁠
Won’t fall upon them naturally⁠
Life sometimes must get lonely⁠

My eyes collide head-on with stuffed graveyards⁠
False gods, I scuff⁠
At pettiness which plays so rough⁠
Walk upside-down inside handcuffs⁠
Kick my legs to crash it off⁠
Say okay, I have had enough⁠
What else can you show me?⁠

And if my thought-dreams could be seen⁠
They’d probably put my head in a guillotine⁠
But it’s alright, Ma, it’s life, and life only

MINHAS MÚSICAS

https://www.behance.net/gallery/99629911/Playlist-covers-Spotify

Uma coisa que gosto de fazer é playlists. Desde o tempo da fita K7, tinha coisas tipo: pra animar festa miada na qual vc entrou de bico (hits de agrado geral); seleção de músicas que falam “por quê?” e por último uma que diz “porque nãaaaao”; seleção de forró (nos anos 90 era fundamental levar uma dessas na bolsa); “blues gravados por artistas brasileiros que não são de blues”; músicas que falam de orixás – vol. 1 e 2.; músicas com nome de mulher.⁠

Depois em MP3, que a gente mandava as ‘mixtapes’ por e-mail em forma de arquivos numerados (alô @tuliparuiz); gravava CDzinhos “pra ouvir na estrada”; folk fofo; “sertanejos que parecem stones e vice-versa”. ⁠

Depois, listas no Multiply (a mais completa rede social e que nunca fez sucesso) e o Grooveshark, que deixavam a gente subir faixas. ⁠

Depois teve o Blip.fm, que era tipo um Twitter mas em vez de falar bobagem vc postava uma música – com espaço até pra contextualizar: versão muito boa, com o músico tal.⁠ Ou uma bobagem, por que não? O 8Tracks, o Soundcloud. ⁠

⚠️ Tudo isso pra dizer que desenhei capinhas para minhas playlists de gêneros musicais no @spotify.⁠

Tem mais listas lá, fora essas. Tem sets para festas: “obscurinhas astralizantes”; “para perder a compostura”. “Reinaldo canta Caetano” – músicas do Caetano Veloso citadas por Reinaldo Azevedo em seu programa. Até resgatei e criei uma playlist só com as Músicas que resgatei do Blip.fm. E muito mais.⁠

Quer ouvir? Me add:

➡️ http://bit.ly/evauviedoFM⁠ ⬅️

ou “Eva Uviedo” na busca do @spotifybrasil

OUTRAS MENTES

Outras Mentes

Tô desde quinta-feira agarrada nesse livro do Peter Godfrey-Smith, filósofo e mergulhador (a capa é do excelente Laurindo Feliciano), que muitos amigos já tinham me recomendado, em parte pela minha sabida obsessão por polvos, outra porque o livro é ótimo, de fácil leitura sem ser simplista nem excessivamente acadêmico. ⁣

A cada capítulo rola um insight maior que o outro. Mas o trecho que me impactou por ora é não é sobre polvos, mas algo que vem de encontro a uma reflexão que vem me rondando, sobre ação tática e a não-ação taoista (melhor entendida como naturalidade do que como conformismo); sobre a necessidade que temos hoje de tomar mil vezes mais decisões morais, éticas e práticas por semana do que um homem do século XIX em toda a vida; e como ‘não fazer nada’ também é fazer.⁣

“Manter os neurônios e fazê-los funcionar demanda muita energia (…) Em um animal como nós, 1/4 da energia obtida pela alimentação é gasta só para manter o cérebro funcionando. Por que vale a pena ter um cérebro assim? Duas ideias orientam essa questão, no trabalho científico e na filosofia (…) A função original é fazer a conexão entre percepção e ação (…) Fazer alguma coisa, para quem é composto por muitas células, não é algo trivial. Exige uma grande medida de coordenação entre suas partes. Não é grande coisa se você for uma bactéria, mas se for um organismo maior, as coisas são diferentes. Neste caso, você enfrenta a tarefa de gerar uma ação coerente em todo o organismo a partir dos muitos outputs minúsculos. A uma multidão de microação é preciso dar a forma de uma macroação (…) [e, sobre binarismo de decisões x cooperação, ação e estratégia] Fazer um barco mover-se requer microações coordenadas, mas alguém tem que observar para onde o barco está indo.” ⁣

Daí também lembrei deste trecho do Tao que parece ter sido escrito inspirado em um cefalópode:

A coisa mais macia e flexível no universo⁣
Consegue vencer a coisa mais dura.⁣
E só o que não tem substância⁣
pode entrar onde não há uma fenda por onde entrar.⁣
É essa a vantagem da não ação.⁣
Mas poucos entendem o ensino sem palavras⁣
E os benefícios da não ação.⁣

[Tao Te Ching, Cap. 43]

A única coisa dura do polvo são seus olhos.

MARIE KONDO E A ARTE DE ORGANIZAR AS IDEIAS

Estreia da nova série da Netflix trouxe de volta à tona o método best seller de arrumação e deixou muita gente confusa – ou apaixonada

Após sete anos do lançamento, o best-seller (mais de 8 milhões de cópias vendidas em mais de 40 países) escrito por Marie Kondo “A mágica da arrumação — a arte japonesa de colocar ordem na sua casa e na sua vida”  voltou a causar polêmica. O método, desenvolvido no Japão por Marie, tem uma série de dicas que parecem muito estranhas sob o olhar ocidental, materialista e consumista ao extremo retratado no programa. E infelizmente a série vem mais para confundir do que esclarecer, mesmo que às vezes pareça benéfico.

No programa “Ordem na casa” tanto a fetichização pela figura carismática da autora como FADA ORIENTAL PERFEITA ORGANIZADORA IMPECÁVEL quanto a mitificação excessiva de rituais como agradecer a casa ou abraçar suas roupas acaba FOLCLORIZANDO o método de forma caricatural e transformando tudo ou em salvação mágica — ou piada.

Não é nem um, nem outro; mas infelizmente pode parecer.

Pensamento mágico: o mito da fada exótica que com sua cultura espiritualizada tem como missão salvar as pobres almas perdidas ocidentais

O método foi desenvolvido pela profissional de organização após anos de experiência e estudo, e a partir da aplicação crítica de outros métodos conhecidos de arrumação. Pra quem não conhece, a base do método é: mantenha apenas aquilo que te traz alegria. Mas como assim? 

Bom, o conceito é explicado em um livro de 158 páginas, então pode parecer estranho se você apenas assiste um ou dois episódios, mas ele faz sentido.

O método Marie Kondo consiste em seis passos simples:

1) comprometa-se com a arrumação;
2) imagine o estilo de vida ideal;
3) termine o descarte antes de arrumar;
4) organize por categoria e não por cômodo; e
5) siga a ordem correta, sem pular etapas (essa parte é importante):
roupas e sapatos; livros; papelada; itens diversos; e por último, itens de valor sentimental (coleções, álbuns de fotos).

Não chega a ser uma filosofia milenar, atávica ou mágica, apesar de provavelmente alguns traços da cultura oriental estarem contidos nele.

A ideia de Marie Kondo que me parece mais razoável (não fica explícita, mas permeia todo o método) é a de que, se a relação que temos com os objetos envolve sentimentos em algum grau, é necessário um ritual que leve isso em conta ao se livrar deles. Arrumar sua casa não é o mesmo que arrumar os papéis da firma.

Se a relação que temos com os objetos envolve sentimentos, é necessário um ritual que leve isso em conta ao se livrar deles

Por isso faz sentido a ordem rígida do processo de descarte, o ato de cumprimentar e agradecer a casa (muitas vezes estamos com raiva e frustrados com a bagunça, então mudar para uma atitude positiva é importante), sentir o objeto, agradecer antes de mandar embora… Não é OBRIGATÓRIO, mas muitas vezes ajuda.

A família oriental não estranhou nem um pouco a ideia de falar com a casa

Problematizando as soluções

Apesar de certa forma ficar claro que a mudança é da pessoa, e ela apenas dá a ferramenta TÉCNICA da arrumação, por ser um reality show com algum foco no drama dos personagens, precisaria de mais intervenção nas dificuldades enfrentadas.

Exemplo: em um episódio, a mulher é de origem paquistanesa e tem dificuldade em desapegar de seus lenços típicos, que ficam guardados escondidos no armário de brinquedos dos filhos. Diz que é uma forma de se conectar com suas raízes. O programa mostra a tensão (o marido parece incomodado), mas nada é dito ou feito pra resolver. Os lenços seguem guardados em outro quarto.

Se isso é importante para ela, poderia ter sido incentivada ou a usar os lenços de outra maneira, junto com roupas ocidentais, ou mesmo a participar mais da comunidade de seu país de origem.

Claro que, aplicando corretamente o método, provavelmente isso vai acontecer uma hora ou outra. Mas para quem assiste, ficou faltando esse toque, algo que poderia ter sido incentivado na hora.

Ela também está se sentindo gorda, então as roupas que servem ela não gosta, as que ela gosta não lhe servem. Kondo fala da própria dificuldade de comprar roupas por ser muito pequena e magrinha e tudo fica por isso mesmo também. Caberia aí uma conversa, mesmo que rápida, sobre a importância de se sentir bem, independente do peso.

Mas, apesar de mostrar as histórias, o foco da solução é basicamente a ordem, e muitos outros assuntos são deixados de lado, lamentavelmente, com poucas exceções.

Que falta você faz, Karamo [Divulgação /Queer eye]

Ordenando a Ordem

Agora do ponto de vista da arrumação, vou dar uma de brasileira e depois dos episódios “ensinando cristianismo ao Papa” e “contestando alemães sobre nazismo”, vou CORRIGIR A ARRUMAÇÃO DA MARIE KONDO na série.

Apesar do livro ser bem mais complexo do que isso, a série “Ordem na casa” acaba focando apenas no desapego, que não é suficiente para resolver o problema, embora seja um bom começo. A série mostra muito pouco Kondo ajudando na lógica da arrumação dos itens — que é parte importantíssima para manter tudo em ordem.

Observar o fluxo em que os moradores da casa se movem no dia a dia e ordenar os itens de maneira a facilitar suas atividades é como se fosse um urbanismo caseiro e super importante para se sentir bem. Entender esses caminhos pela casa, menos do que as mandingas (espelhos, mandalas etc) é a base do Feng shui.

E na série podemos notar erros básicos de fluxo como: roupas de uma pessoa espalhada por armários em vários cômodos; caixas de itens de escritório empilhadas, dificultando acesso ao conteúdo; em muitos episódios não fica claro como a cozinha foi organizada. Ou seja, em breve, tudo isso estará bagunçado novamente.

Em outro episódio, a participante é obviamente apaixonada por roupas e se sente bem com quase todas.

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Ela consegue desapegar de uma enorme quantidade, mas ainda sobra muito e acaba lotando vários armários espalhados pela enorme casa. Resolveu o problema? Infelizmente não. A dificuldade de acesso provavelmente vai fazer com que ela acabe deixando sem uso a maioria e elas vão continuar não trazendo a alegria que poderiam. No caso, o mais indicado seria usar um dos cômodos da casa (que é enorme) para criar um closet ou quarto de vestir, já que o gosto por moda é um traço marcante da cliente.

Maurício, acode aqui? [Divulgação / Decora GNT]

Não é que a série seja totalmente ruim, mas ela fica aquém de muitas outras do gênero, tanto as que tem foco em desapego / arrumação (gosto muito do Santa Ajuda! do GNT), ou as mais emotivas, com dicas edificantes de mudança de vida (Queer eye, meu amor, também no Netflix); e deixa muito a desejar na hora de explicar o método, que tem sim uma base muito legal (sim, você vai acabar tendo que ler o livro). Mas de fato Marie é carismática e muitas pessoas podem acabar se encantando com isso pra começar o processo. Meu medo é que, sem informações completas, acabem se frustrando e desistam.

Desapegando do que você ainda não tem

Uma das críticas mais acertadas que vi ao programa (e ao método) é que o foco no desapego puro e simples, com base em “você não precisa disso agora, se precisar você compra de novo” e “tenha o que te traz alegria” podem ser entendidos e aplicados como apenas outra face da mesma moeda consumista e anti-ecológica que pode até desentulhar sua casa, mas entulha O MUNDO inteiro com lixo.

A satisfação narcísica de concluir com louvor a cerimônia do desapego e método de organização da moda não podem se sobrepor ao fato de que muitas coisas que não servem mais para você servem para outras pessoas. Ou que podem ser úteis em outro momento. Ou que jogar fora todos os copinhos plásticos pra comprar de novo depois obviamente é uma atitude pouco sustentável.

Refletir sobre consumo consciente deve ser parte integrante e indispensável de qualquer processo de questionamento sobre acúmulo.

Este artigo do The Guardian explica isso muito bem: Marie Kondo, you know what would spark joy? Buying less crap | Alexandra SpringThose glossy garbage bags filled with unwanted stuff don’t just vanish – they are filling up landfills and polluting…www.theguardian.com

Mas claro que se espera que levar a pessoa a refletir sobre as coisas que ela já tem também colabore para ela pensar futuramente em qualquer coisa que ela venha a querer comprar.

Não tenho tudo que amo, mas amo tudo que tenho

Agora, as pessoas são muito LITERAIS né? Quando ela foca em manter as coisas que TRAZEM ALEGRIA ou você AMA, está dizendo de maneira geral: veja se o motivo que liga você a essa peça FAZ SENTIDO. Não espere ter orgasmos nem epifanias abraçando seus casacos.

Obviamente não temos tanto amor por uma legging de academia quanto pela blusa de renda que foi do noivado de sua querida avó. Mas se ela é útil e te traz coisas boas (te ajuda a entrar em forma), ela fica – e o ESPÍRITO DA MARIE KONDO não vai te assombrar pra dar bronca por isso.

Agora, se o tapetinho de yoga representa um curso no qual você se inscreveu, nunca foi e agora virou um símbolo da sua inércia, incompetência em cumprir o que se propôs, e dinheiro jogado fora, melhor se livrar disso rapidamente.

Não ter nada é o novo ter muito

Netflix é a nova Globo, só que maior, e qualquer nova estreia de série desencadeia o fenômeno mundial de “o assunto está em pauta”. Ok.

Então acontece que documentários como “Minimalistas” e a série “Ordem na casa” trouxeram à ordem do dia a ideia de que chique é viver com pouco. “Será que vou conseguir desapegar o bastante?” É a pergunta de dez entre dez pessoas que tentam aplicar o método. “Marie Kondo aprovaria esta gaveta?” Eu já me peguei pensando.

Substituir um combo de neurose e ideal inalcançável por outro é a armadilha da qual a gente sempre precisa fugir.

– Ficou bom assim?
– Ainda não :)

Tirando a real tendência ao consumismo da nossa sociedade, precisamos levar em consideração a história e o estilo de vida de cada um.

Você não vai falar para um colecionador de vinis se desfazer da sua coleção, afinal “tem tudo no Spotify”, e nem pra uma pessoa que gosta de cozinhar e receber amigos para jantar que “um jogo com quatro pratos é mais do que suficiente”. Para essa pessoa, não é. Por isso não existe um número perfeito de roupas no armário, de itens de cozinha na gaveta, de livros na prateleira e nem amigos no Facebook.

Ter muitas coisas pode ser difícil, e acabamos gastando mais tempo tentando encaixar as coisas em algum lugar (até concluirmos que simplesmente não cabe) do que desfrutando delas de fato. Mais tempo levando livros pra lá e pra cá do que lendo. Mais tempo organizando os discos do que ouvindo. Mais tempo tirando o pó do que aproveitando o sofá.

O mais saudável é usar métodos de arrumação mais como um questionamento sobre as coisas que você quer ter e acomodá-las de acordo com a sua personalidade, gostos e estilo de vida — e não permitir que a idealização de uma vida perfeita com sendo uma casa com poucas coisas, perfeitamente arrumadas em rolinhos, acabe gerando mais sofrimento do que alegria.

Viver rodeada apenas de coisas que eu gosto, preciso, e me trazem alegria é a base da filosofia em que passei a acreditar.

Never more.

CONTERRÂNEOS VELHOS DE GUERRA

Na ‪#‎DicadeDocumentário‬ de hoje fugirei um pouco dos óbvios ‘O dia que durou 21 anos’ (ótimo por sinal) ou outros sobre Golpes de Estado, aqui ou no mundo, de diferentes modelos – hoje podemos ver um ao vivo. Sugiro o excelente registro sobre a construção de Brasília: do projeto grandioso e utópico de cidade igualitária e democrática que, segundo o arquiteto Oscar Niemeyer falhou, à miserável vida das milhares de pessoas que a ergueram. Exploradas, escravizadas, massacradas, abandonadas à sua própria sorte, completamente à margem do novo Brasil que se anunciava. E pra quem acredita que os sistemas de saúde, educação, habitação, enfim, o país ‘eram bem melhores antigamente’: por favor, não deixem de ver. Mas prepara o estômago.

(via Bruno Torturra)

A BATALHA DO CHILE PARTE II – O Golpe de Estado

No capítulo anterior vimos como o Congresso Nacional paralisa o governo de Allende votando contra todas as reformas propostas por ele e cassando mandatos de um ministro atrás do outro, levando o país a um estado de completo caos.

Agora vou recomendar a parte II do excelente documentário A Batalha do Chile, onde uma greve de empresários donos das frotas de transportes paralisa o país e o negócio desanda de vez – apesar do apoio popular ao presidente eleito e à mobilização contra o golpe – graças à interferência dos militares, da mídia monopolizada controlada por um grupo de oposição e claro, dos Estados Unidos.

E o General Augusto Pinochet, até então leal ao governo, sobe ao poder após o Golpe de Estado que pretendia reestabelecer a ordem.

Pra quem tiver estômago, segue o link:

MILAGRE

Marquei mais um xiszinho no cartão fidelidade dessa temporada maravilhosa de shows do Fellini encerrada ontem.
Meu eu de 17 anos de idade está em festa.
É um milagre ainda estarmos vivos.
É um milagre.

A BATALHA DO CHILE PARTE I – A Insurreição da Burguesia

É um excelente documentário, mas poderia ser um filme de terror. Ou uma aula de como se acaba com um governo de esquerda democraticamente eleito através da combinação: boicote e embargo dos Estados Unidos e empresários + congresso paralisando medidas populares + manifestações e greves apoiadas por uma elite financeira – isso fora as divisões internas e o fogo amigo.

Só sei que é de chorar.

… e ainda tem a parte II e III, que eu estou com medo de ver.

MISSISSIPI GODDAM

Nina Simone, apenas com essa música, foi mais punk que Sex Pistols tocando God Save the Queen, mais contundente que Bob Dylan discursando contra a guerra, mais chocante que Roberto Carlos mandando tudo pro inferno, ou qualquer outro exemplo de letra-que-quebra-tudo que eu consiga me lembrar, de qualquer gênero musical.

A canção foi inspirada pelo atentado que matou quatro crianças negras numa igreja no estado do Alabama em 1963; e o grito-desabafo de revolta GODDAM teve um impacto enorme, ainda mais na voz de uma mulher negra em uma época em que segregação racial era lei. E isso foi só o começo da sua luta, que foi dura, longa e de fundamental importância.

Hoje é aniversário dela e só temos a agradecer.

Nina, que bom que você nasceu.

https://www.letras.mus.br/nina-simone/185487/traducao.html

SETEMBRO

Teu corpo luava ouro
Nos banhados que chuvinha fez
Nas lavadas que ramalha flor
Nos setembros de chegar
Tu reinas vasta nas cheias de cada maré
Tu raias do céu que enfeita a manhã

[Setembro, um dos meus meses favoritos, deliciosamente cantado pelo amigo Junio Barreto. Clica e sê feliz. ♥]

O MEU MAL É NENHUMA CERTEZA

Moça deixe que eu ligue meu olhar em você
Você é mesmo uma cigana bonita
Mochileira deite comigo essa noite
E conte alguma boa e velha história
De umas noites de mágica em Machu Picchu
E os dias dourados na Califórnia

O encanto se foi
Mas você diz acreditar
No bem, na revolução, no amor,
No pé na estrada, no sol / zen
Sua vida é um trem indo embora
Trens, estradas, cidades
Que a mim já não empolgam meu bem
A minha alma adoece
No Rio ou no Nepal
O meu mal nenhuma certeza
o seu mal é certeza total

Dança Mochileira
Que eu toco a guitarra
Dança Mochileira
E aquece a minha alma

Mochileira deite comigo essa noite
E conte alguma boa e velha história
De umas noites de mágica em Machu Picchu
E os dias dourados na Califórnia

Você tem o dom
de viver em qualquer lugar
Mesmo quando o medo vem
Uma noite nos Andes é fria
Mas o frio, ele é fácil de espantar
Os Deuses sabem
Que a estrada ainda é uma farra
E depois o trovão não assusta
Alguém com essa marra de ser
Do tipo de cigarra
Que canta na chuva

Dança Mochileira
E aquece a minha alma
Dança Mochileira
Que eu toco a guitarra