ON THE ROAD, WITH LOVE

só pra contar que hoje comemoro 22 anos de co-habitação (de união faz mais tempo ainda) com meu companheiro de viagem do melhor jeito possível: acabamos de chegar a #Montevideo, #Uruguay (cidade amada!) para participar da II Feria de Arte Impreso, organizada pela microutopiaspress (30/8 a 1/9 no Centro Cultural de España – Rincón, 629 – Ciudad Vieja), levando zines e prints da @latosca e, claro, peixes e amor ♥️🐟 O time de expositores reúne artistas e editoras do Uruguai, Argentina, Chile e Brasil e vai ser demais! 😊 🇺🇾 ⁠

CADERNO DE VIAGEM: MONTEVIDÉU

A cidade mais legal do mundo

1. CIUDAD VIEJA


Ciudad Vieja é o centro antigo da cidade, ao lado do porto, e o melhor lugar pra começar a conhecer a cidade. Assim como no centro de SP, é formado em boa parte por calçadões (peatonales) e edifícios antigos, de uma arquitetura antiga, meio descuidada porém fascinante. Por lá parece que tudo parou no tempo. Primeira parada após aquela conferida básica no rio que parece mar: o centro gastronômico Mercado del Puerto.

Rambla Francia, ao lado do porto: muito vento e vista pro Rio da Prata

Melhor lugar da cidade para comprar souvenirs e comidas típicas

Esqueci de fazer foto, vai essa do Google Maps


1. Prato: paella (R$ 60, serve dois) e cervejinha Patricia (inclusive sdds). 2. Grupo de rua tocando música brasileira sofisticadíssima: Michel Teló

Já no primeiro passeio deu pra notar a diferença no ritmo de vida da cidade. Era uma sexta-feira, e algumas lojas de artesanato local estavam encerrando as atividades pois havia passado um cruzeiro por lá logo cedo e estavam dando o dia por concluído… à uma da tarde. Porém o Mercado estava funcionando para o almoço com ótimas opções em carnes (assadas na lenha) e frutos do mar, então tudo bem.

Nos calçadões, poucas porém boas lojas abertas, entre elas: livrarias, lojas de discos, grow shops e lojas de artesanato.

Meus lugares favoritos em Ciudad Vieja:

Peatonal Perez Castellano

Livraria Moebius

Recomendo especialmente uma visita à livraria, que tem uma excelente seleção de livros e coisas, entre elas o objeto de desejo de 9 entre dez viajantes com orientação política à esquerda: a estatueta do Mujica tomando chimarrão (R$ 120). Nas lojas de discos pode se encontrar boa música brasileira, tanto à venda como na trilha sonora de fundo.

Livraria Moebius, no calçadão do centro de Ciudad Vieja. Tem miniatura do Pepe Mujica e uma excelente seleção de livros e objetos




Más Puro Verso, Libreria & brasserie (peatonal Sarandí, 675)


A luz do Uruguai é mesmo ótima pra dar uns closes

Tem arte ubana sim

Protestar o pessoal protesta mesmo






Grow shops

O consumo de maconha no Uruguai é liberado, mas só para cidadãos uruguaios, e a venda é feita em farmácias. Mas como é legalizado, pode ter lojas com artigos de cannabis e para plantio.


Legalize mas só pra quem mora lá — a grow shop Cañabis Protectio (Alzáibar, 1365, travessa da rua Sarandí) tem um bom acervo de sedas e roupas de cânhamo que não vão dar problema na volta ao Brasil

Favor não insistir

Plaza Zabala




Peatonales


1. Cantor de rua coreano dando a volta ao mundo cantando Hey Jude; 2. Mural de Joaquín Torres García, o Romero Britto deles

MUSEUS (en Ciudad Vieja)

Museo Cabildo

Montevidéu é uma cidade rica em museus de todos os tipos — de arte indígena pré-colombiana até o recém inaugurado museu da cannabis — , a maioria pagos, a uma média de R$ 20 o ingresso.

Como opção gratuita, o Museo Cabildo*, localizado em frente à praça da Matriz, traz um bom acervo de peças e informações históricas da cidade.


Museo Cabildo Montevideo: Artigas era um cara importante mesmo (tem várias ruas com o nome dele)



Museo Cabildo Montevideo: não sente nos objetos históricos







Catedral Metropolitana de Montevidéu

Do outro lado da praça da Matriz, vale a pena visitar a principal igreja católica da cidade e provável destino de metade do ouro dos Andes. Tudo brilha.

Catedral Metropolitana de Montevideo (Iglesia Matriz)

Também nessa praça, aos sábados, tem lugar uma feira de antiguidades. Dica: os vendedores uruguaios são afeitos à formalidades, então não é de bom tom chegar mexendo ou perguntando o preço das coisas. Comece a relação com um tradicional “buen dia”. Então solicite: “¿puedo ver?”, e ele dirá “si, claro, como no”. Já na Argentina pode mandar à seco “¿quanto cuesta?” e economizar tempo e o humor do vendedor — que não é muito.

Museu Torres García

Em homenagem ao famoso pintor uruguaio Joaquín Torres García




Endereço: Sarandí 683

Museu de Arte Pré-colombiana e Indígena

Valioso acervo arqueológico e etnográfico dos povos originários da América




Com quantos paus se faz uma canoa?














Casa Lavalleja

Esta casa colonial, construída em 1783 é a antiga residência da família Lavalleja.














Endereço: Zabala 1469

Plaza de la Independência e Mausoléu Artigas

Plaza de la Independencia; vale a descida ao subsolo para conhecer o mausoléu do Gal. Artigas e um pouco mais de história da América



Domingo: Feria Tristan Narvaja

Um programa realmente imperdível é a feira de rua que ocorre todos os domingos no bairro Cordón (mais ao centro), na rua Tristán Narvaja. Começa bem cedo e termina por volta das 15h, 16h.

Surgida no começo do século passado, mistura artigos novos, usados e alimentos. Pode-se encontrar, lado a lado, uma barraca de livros e outra de queijos, antiguidades e aparelhos eletrônicos de todo tipo, discos, roupas novas ou usadas, artesanato local, e quinquilharias industrializadas; pessoas que resolveram vender ou trocar seus eletrodomésticos como geladeira e fogão e até lojas de material de construção com uma dezena de esquadrias de alumínio para janelas.


A feira não tem padronização alguma, e é impossível calcular o número exato de barracas, que varia de 1 mil a 3 mil, se estendendo pelas transversais da rua da feira original. A maioria dos vendedores só aceita pagamentos en efectivo, então guarde algum dinheiro vivo para as compras (veja + fotos) e tempo para ver tudo.


Feria Tristan Navaja, aos domingos: o Uruguai está aqui tudo junto e misturado





2. PUNTA CARRETAS

Na zona sul da cidade, seguindo pela rambla que circunda a cidade à beira do Rio da Prata, está o bairro de Punta Carretas. É um bairro calmo, com infraestrutura, lojas e bons restaurantes, além de estar localizado próximo à uma praia e ao excelente parque Rodó.





Hotel Intercity: cheguei e não queria mais ir embora #VidadeBoy

Por-do-sol na rambla

A Rambla é uma avenida de mais de 22 km de comprimento que ladeia a costa do Río de la Plata. As principais ramblas de Punta Carretas são a Rambla Ghandi, mais ao sul, e a Rambla Presidente Wilson, ao lado da praia Ramírez e próxima ao parque Rodó, a melhor para ver o por do sol. Para quem mora no Brasil, as praias não são muito convidativas. Por ser de rio, são de cor marrom; mas pela localização, são bastante mexidas, venta e faz frio, a não ser no alto verão. Porém o parque linear que se forma ao longo da rambla é um ótimo lugar para aproveitar o fim de tarde. Muitos moradores levam cadeiras de praia e chimarrão, vão passear com o cachorro, andar de bicicleta ou fazer yoga ao pôr-do-sol, tudo naquela calma característica da cidade.

Rambla Presidente Wilson, próximo à Punta Brava


O ‘mar’ é bravo, não tem grades nem sinalização; quem for com crianças deve ficar de olho




Uruguaio e sua yoguinha ao por-do-sol


Venta um pouquinho

As ramblas em geral estão divididas em: calçada para pedestres, ciclovia e parque; porém as regras não são rígidas e tem gente andando na ciclovia, pedalando na calçada e na grama. Isso não é um problema, visto que não tem muita gente e todo mundo consegue conviver numa boa. Um velhinho de scooter na calçada não causou espanto a mais ninguém.

Rambla Presidente Wilson próximo à Playa Ramirez e Parque Rondó

Ao lado do Parque Rodó, perto da rambla presidente Wilson, na Av. Sarmiento, tem um parque de diversões com roda gigante, carrossel etc chamada Juegos del Parque Rodó. Na barraca de churros, já conhecidos dos brasileiros, também servem TORTA FRITA, por apenas 2 reais. Uma delícia, experimentem


Entre a playa Ramírez e o clube de Pesca, o melhor por-do-sol de Montevidéu


Candombe em Punta Carretas

Na sexta-feira a ideia era ouvir música local e fugir das casas ‘pra turista’, quando ouvimos um batuque e fomos seguindo o som. Era a comparsa Los Chinchin. Assim como outros corsos, se juntam pra ensaiar o candombe uma vez por semana, se preparando para as ‘llamadas’, concursos que acontecem no carnaval. Os ensaios são mais reuniões de amigos do bairro, muitos jovens, velhos e crianças.


Se reúnem ao fim de tarde de sexta/sábado e vão pelas ruas tocando, dançando e cantando, de vez em quando parando pra descansar, beber vinho de caixinha e cerveja litrão, fumar un porro (“acá es legalize”, me informaram), conversar um pouco. Aí acendem uma fogueira, aquecem os tambores e seguem assim até de madrugada. Os carros param e esperam a passagem do grupo, que segue sem reclamações dos vizinhos, sem muita burocracia, sem stress e, como eles mesmo disseram: sin apuro, sin apuro.



3. POCITOS

Playa Pocitos

Pocitos é um bairro de classe média-alta da capital, com vários cafés e restaurantes, onde fica a praia mais famosa da cidade — e o mais próximo que encontramos de uma praia brasileira em Montevidéu.

Se não for pra fazer foto clichê nem viajo

Rambla Pocitos, ensolarada pero que friaca

Jogo de handbol, o esporte local


Chimarrão, a bebida nacional. Os uruguaios não desgrudam de kit cuia+bomba+garrafa térmica e em vários lugares pode-se abastecer de erva e água quente

MAPA DA CIDADE

CADERNO DE VIAGEM: MALDONADO

Punta del Este y Casapueblo, em Punta Ballena

PUNTA DEL ESTE

Como fomos fora da temporada (março) e durante a semana (quarta a sábado), não dá pra dizer que conhecemos Punta del Este como dizem que ela é: agitada, festiva e cara. Bem, cara é, um pouco. Especialmente na praia, onde paguei 20 reais por uma água mineral e uma tônica.


O Uruguai tem a água engarrafada cara em relação ao Brasil, mas só no fim da viagem descobri que a água da torneira é 100% potável e a mineral em é que custa cara pois é orgulho nacional, considerada das águas mais puras do mundo.



Essa sou eu tentando manter a cara de rica após pagar 20 reais em uma água e um refri

A mão em Punta del Este é parada obrigatória, e só ficamos sabendo depois o nome tétrico: Monumento aos afogados


Levantamos a hipótese dessas aves serem contratadas pelo governo para posar para fotos ao por do sol

Hospedagem: como não tínhamos certeza de onde gostaríamos de ficar, deixamos para decidir chegando lá. Através do Booking encontrei uma boa hospedagem, que recomendo para um pouso rápido e barato: o hotel The Smalleast, que tem bons quartos a menos de R$ 200, uma localização ótima, perto da praia e dos restaurantes, bom atendimento, wi-fi, lavanderia, e café-da-manhã farto. Ah, e frigobar, que enchemos de cerveja comprada no mercado local (Disco).

Quarto com vista para o Farol


Restaurantes: fora da temporada, encontramos três abertos, todos com hostess na porta e tocando bossa nova. Não vim de tão longe pra ouvir versão lounge de o barquinho, então preferimos comer empanadas mesmo.

Não é nada disso que vocês estão pensando — é que a empanada pinga óleo, por isso a posição mais adequada ao consumo é essa

Virgen de la Candelária

Bem o dia em que planejamos visitar Casapueblo, conhecida pelo por do sol magnífico e basicamente o objetivo primordial dessa viagem, amanheceu em plena TORMENTA. Tipo: chuva torrencial, com vento e granizo. Melhorou um pouco, mas ainda estava bastante nublado ao meio-dia quando passamos para conhecer o altar da Virgem da Candelária, padroeira da cidade, que já foi carregada pelo mar e voltou. Muitas pessoas colam no altar placas e azulejos agradecendo milagres.


Agnóstica convicta, apenas agradeci pela viagem e aproveitei pra sugerir, despretensiosamente, que seria legal se a Santa pudesse fazer o tempo abrir à tarde, ainda que as notícias da chegada de uma frente fria fossem desanimadoras. E não é que lá pelas quatro e meia da tarde o tempo inacreditavelmente ABRIU? Yo no creo, pero… No dia seguinte voltamos para deixar nossa plaquinha: gracias por todo, Virgencita.


Aparentemente algum campeonato ganho pelo Corinthians também tem uma mãozinha dela

Já comentei que venta bastante?

Museo del Mar, em La Barra, Maldonado, ao lado de Punta del Este. Instalado numa área de 2.300 m², conta com mais de 5000 exemplares marinhos.

Em Buenos Aires você pode conseguir raviolis até em caixa eletrônico e Uruguai não fica atrás. Mas este lugar, à beira da estrada Interbalnearia perto de Punta Ballena, conquistou definitivamente meu coração


O motorista do busão que nos levou de volta à capital era um uruguaio típico: não largava o kit chimarrão e deu a mão à todas as mulheres para ajudar a descer do veículo

Casapueblo, en Punta Ballena

Ponto alto da viagem, o desejo de conhecer o Uruguai começou depois de ver um documentário sobre este lugar. A casa de verão do artista uruguaio Carlos Páez Vilaró está localizada em Punta Ballena*, a 16 quilômetros ao sul de Punta del Este, na província de Maldonado, e é uma verdadeira obra de arte. Inspirada nos ninhos de joão-de-barro, foi sendo construída aos poucos pelo artista, falecido em 2014, e hoje consiste em um hotel, museu/galeria e um restaurante.

A história de Vilaró é contada por um documentário de 20 min logo na entrada e é ótimo para contextualizar as obras que serão vistas a seguir. O trabalho artístico do uruguaio é muito baseado em suas vivências e parte importante é dedicada ao culto ao sol.

Curiosidade: ele é pai de Carlitos Vilaró, que ficou conhecido como um dos sobreviventes da tragédia dos Andes, acidente aéreo ocorrido em 1972 e tem documentos relacionados a isso na exposição, como cartas e jornais da época, assim como trabalhos artísticos inspirados nesse acontecimento.

(*) Estávamos de carro, mas no blog Viaje na Viagem tem várias dicas de como chegar lá de táxi ou transporte público


Clima nublado na chegada, mas algum milagre fez que ele abrisse em questão de poucas horas















O gato de Carlos Vilaró e o meu, rs


O ingresso ao museu é pago em dinheiro (aproximadamente R$ 25) e dá direito a ir e voltar do museu por uma semana. Então é possível visitar o museu, curtir a tarde nas falésias do lado de fora e voltar para ver o pôr-do-sol, quando tem uma cerimônia onde se ouve a gravação de um poema na voz de Vilaró. É cafona? Não vou dizer que não, mas faz todo sentido com o lugar e acaba sendo muito legal.





Parece que o artista está vivo, mas é apenas uma foto.

Para terminar, uma lua cheia. Que mais posso querer, Uruguai?

Mais informações sobre o museu:

http://www.carlospaezvilaro.com.uy/nuevo/museo-taller/

CADERNO DE VIAGEM: COLONIA DEL SACRAMENTO

A cidade mais calma do mundo

Muito parecida com Paraty, mas infinitamente mais tranquila, Colonia del Sacramento tem um centro histórico próximo ao porto, com calçamento de pedras, bons restaurantes com vista para o rio, lojas de souvenirs. É a única cidade do país que teve colonização portuguesa, então muitos detalhes da arquitetura e decoração, como azulejos, são familiares aos brasileiros.





Sente a paz





Meio Paraty, só que melhor



Por ser próximo via fluvial de Buenos Aires, muitos argentinos vão para Colonia passar o fim de semana ou mesmo fazer um bate e volta no mesmo dia via Buque Bus ou outra das empresas que operam a travessia, como Colonia Express ou Seacat. Porém, caso haja interesse em fazer esse passeio, o ideal é comprar as passagens antecipadamente via sites, pois fica muito mais caro se comprar no guichê.




O ladrão piromaníaco

No hotel, uma hóspede estava preocupada com a falta de estacionamento: “mas e se roubarem o carro?”. O funcionário do hotel explicou que em no ano anterior haviam sido registrados apenas três roubos de veículo — sempre pelo mesmo ladrão, na verdade um piromaníaco que levava os carros para um lugar deserto e botava fogo neles. Mas que recentemente ele tinha incendiado um pavilhão e foi transferido para Montevidéu, para se tratar em uma clínica, ou algo assim, portanto ela podia ficar tranquila.

Pensamos em esticar mais um dia em Colonia, mas era quarta-feira e por isso a maioria dos restaurantes, comércios e pontos turísticos estavam fechados.

I FERIA DE ARTE IMPRESA MICROUTOPIAS

Tudo pronto, prints, zines e malas (mentira) pra embarcar pra #montevideo, onde participo da I Feria de Arte Impresa Microutopias, organizada por microutopías, no Centro cultural de España de 8 a 10 de junho.

Estarei lá com a La Tosca, lançando zine oficial e levando missão, valores e visão de futuro do grupo de criação coletiva que conta com Ian UviedoEduardo Kerges Mari CasalecchiRonaldo Bressane Michelle KrotoszynskiJosé Maia e população flutuante.

Conheça mais em: http://www.latosca.com.br

CADERNO DE VIAGEM: URUGUAI

Dez dias em Montevidéu, Colonia del Sacramento e Punta del Este e uma lista com os melhores lugares para ver o pôr-do-sol

Fizemos a viagem no início de março, logo após o Carnaval, portanto fora da temporada, mas antes da chegada do outono. Nosso roteiro incluía um fim de semana em Buenos Aires, então chegamos em Montevidéu em uma sexta-feira, atravessamos para Argentina via BuqueBus no sábado (dicas de BsAs no próximo post), voltamos por Colônia na terça-feira cedo, alugamos um carro e fomos rodar pelas praias até Punta del Este, e voltamos a tempo de passar o fim de semana em Montevidéu. Se eu fizesse esse roteiro hoje, dispensaria a ida à Buenos Aires, que por si só merece uma viagem de mais de três dias, e alugaria o carro em Montevidéu para os dez dias, o que sairia mais prático e barato. A seguir, dicas das três cidades que visitamos no Uruguai: Montevidéu, Colonia del Sacramento e Punta del Este.

I. MONTEVIDÉU

Ciudad Vieja

Ciudad Vieja

Ciudad Vieja é o centro antigo da cidade, ao lado do porto, e o melhor lugar pra começar a conhecer a cidade. Assim como no centro de SP, é formado em boa parte por calçadões (peatonales) e edifícios antigos, de uma arquitetura antiga, meio descuidada porém fascinante. Por lá parece que tudo parou no tempo. Primeira parada após aquela conferida básica no rio que parece mar: o centro gastronômico Mercado del Puerto.

Rambla Francia, ao lado do porto: muito vento e vista pro Rio da Prata

Melhor lugar da cidade para comprar souvenirs e comidas típicas

Esqueci de fazer foto, vai essa do Google Maps


1. Prato: paella (R$ 60, serve dois) e cervejinha Patricia (inclusive sdds). 2. Grupo de rua tocando música brasileira sofisticadíssima: Michel Teló

Já no primeiro passeio deu pra notar a diferença no ritmo de vida da cidade. Era uma sexta-feira, e algumas lojas de artesanato local estavam encerrando as atividades pois havia passado um cruzeiro por lá logo cedo e estavam dando o dia por concluído… à uma da tarde. Porém o Mercado estava funcionando para o almoço com ótimas opções em carnes (assadas na lenha) e frutos do mar, então tudo bem.

Nos calçadões, poucas porém boas lojas abertas, entre elas: livrarias, lojas de discos, grow shops e lojas de artesanato. Recomendo especialmente uma visita à Livraria Moebius, que tem uma excelente seleção de livros e coisas, entre elas o objeto de desejo de 9 entre dez viajantes com orientação política à esquerda: a estatueta do Mujica tomando chimarrão (R$ 120). Nas lojas de discos pode se encontrar boa música brasileira, tanto à venda como na trilha sonora de fundo.

Peatonal Perez Castellano

Livraria Moebius, no calçadão do centro de Ciudad Vieja. Tem miniatura do Pepe Mujica e uma excelente seleção de livros e objetos





A luz do Uruguai é mesmo ótima pra dar uns closes

Tem arte ubana sim (mas não muito)



Protestar o pessoal protesta mesmo


Legalize mas só pra quem mora lá — a grow shop Cañabis Protectio (Alzáibar, 1365, travessa da rua Sarandí) tem um bom acervo de sedas e roupas de cânhamo que não vão dar problema na volta ao Brasil



Plaza Zabala (Circunvalacion Durango, 11000) e o lema de Montevidéu: NI OFENDO, NI TEMO. Adequadíssimo ao estilo dessa Suíça sul-americana

Más Puro Verso, Libreria & brasserie (peatonal Sarandí, 675)


1. Cantor de rua coreano dando a volta ao mundo cantando Hey Jude; 2. Mural de Joaquín Torres García, o Romero Britto deles

Matriz e Museo Cabildo

Montevidéu é uma cidade rica em museus de todos os tipos — de arte indígena pré-colombiana até o recém inaugurado museu da cannabis — , a maioria pagos, a uma média de R$ 20 o ingresso. Como opção gratuita, o Museo Cabildo*, localizado em frente à praça da Matriz, traz um bom acervo de peças e informações históricas da cidade. Do outro lado da praça da Matriz, vale a pena visitar a Catedral Metropolitana de Montevidéu, principal igreja católica da cidade e provável destino de metade do ouro dos Andes. Tudo brilha.

Também nessa praça, aos sábados, tem lugar uma feira de antiguidades. Dica: os vendedores uruguaios são afeitos à formalidades, então não é de bom tom chegar mexendo ou perguntando o preço das coisas. Comece a relação com um tradicional “buen dia”. Então solicite: “¿puedo ver?”, e ele dirá “si, claro, como no”. Já na Argentina pode mandar à seco “¿quanto cuesta?” e economizar tempo e seu humor — que não é muito.

(*) Prefeitura


Museo Cabildo Montevideo: Artigas era um cara importante mesmo (tem várias ruas com o nome dele)



Museo Cabildo Montevideo: não sente nos objetos históricos

Catedral Metropolitana de Montevideo (Iglesia Matriz)

Plaza de la Independencia; vale a descida ao subsolo para conhecer o mausoléu do Gal. Artigas e um pouco mais de história da América



Domingo: Feria Tristan Narvaja

Um programa realmente imperdível é a feira de rua que ocorre todos os domingos no bairro Cordón (mais ao centro), na rua Tristán Narvaja. Começa bem cedo e termina por volta das 15h, 16h.

Surgida no começo do século passado, mistura artigos novos, usados e alimentos. Pode-se encontrar, lado a lado, uma barraca de livros e outra de queijos, antiguidades e aparelhos eletrônicos de todo tipo, discos, roupas novas ou usadas, artesanato local, e quinquilharias industrializadas; pessoas que resolveram vender ou trocar seus eletrodomésticos como geladeira e fogão e até lojas de material de construção com uma dezena de esquadrias de alumínio para janelas.

A feira não tem padronização alguma, e é impossível calcular o número exato de barracas, que varia de 1 mil a 3 mil, se estendendo pelas transversais da rua da feira original. A maioria dos vendedores só aceita pagamentos en efectivo, então guarde algum dinheiro vivo para as compras (veja + fotos) e tempo para ver tudo.



Feria Tristan Navaja, aos domingos: o Uruguai está aqui tudo junto e misturado


Punta Carretas

Na zona sul da cidade, seguindo pela rambla que circunda a cidade à beira do Rio da Prata, está o bairro de Punta Carretas, onde ficamos hospedados. É um bairro calmo, com infraestrutura, lojas e bons restaurantes, além de estar localizado próximo à uma praia e ao excelente parque Rodó.




Hotel Intercity: cheguei e não queria mais ir embora #VidadeBoy

Por-do-sol na rambla

A Rambla é uma avenida de mais de 22 km de comprimento que ladeia a costa do Río de la Plata. As principais ramblas de Punta Carretas são a Rambla Ghandi, mais ao sul, e a Rambla Presidente Wilson, ao lado da praia Ramírez e próxima ao parque Rodó, a melhor para ver o por do sol. Para quem mora no Brasil, as praias não são muito convidativas. Por ser de rio, são de cor marrom; mas pela localização, são bastante mexidas, venta e faz frio, a não ser no alto verão. Porém o parque linear que se forma ao longo da rambla é um ótimo lugar para aproveitar o fim de tarde. Muitos moradores levam cadeiras de praia e chimarrão, vão passear com o cachorro, andar de bicicleta ou fazer yoga ao pôr-do-sol, tudo naquela calma característica da cidade (se você está atrás de agito e vida loka, talvez não seja o lugar mais adequado).

Rambla Presidente Wilson, próximo à Punta Brava


O ‘mar’ é bravo, não tem grades nem sinalização; quem for com crianças deve ficar de olho




Uruguaio e sua yoguinha ao por-do-sol


Venta um pouquinho

As ramblas em geral estão divididas em: calçada para pedestres, ciclovia e parque; porém as regras não são rígidas e tem gente andando na ciclovia, pedalando na calçada e na grama. Isso não é um problema, visto que não tem muita gente e todo mundo consegue conviver numa boa. Um velhinho de scooter na calçada não causou espanto a mais ninguém.

Rambla Presidente Wilson próximo à Playa Ramirez e Parque Rondó

Ao lado do Parque Rodó, perto da rambla presidente Wilson, na Av. Sarmiento, tem um parque de diversões com roda gigante, carrossel etc chamada Juegos del Parque Rodó. Na barraca de churros, já conhecidos dos brasileiros, também servem TORTA FRITA, por apenas 2 reais. Uma delícia, experimentem


Entre a playa Ramírez e o clube de Pesca, o melhor por-do-sol de Montevidéu


Candombe em Punta Carretas

Na sexta-feira a ideia era ouvir música local e fugir das casas ‘pra turista’, quando ouvimos um batuque e fomos seguindo o som. Era a comparsa Los Chinchin. Assim como outros corsos, se juntam pra ensaiar o candombe uma vez por semana, se preparando para as ‘llamadas’, concursos que acontecem no carnaval. Os ensaios são mais reuniões de amigos do bairro, muitos jovens, velhos e crianças.


Se reúnem ao fim de tarde de sexta/sábado e vão pelas ruas tocando, dançando e cantando, de vez em quando parando pra descansar, beber vinho de caixinha e cerveja litrão, fumar un porro (“acá es legalize”, me informaram), conversar um pouco. Aí acendem uma fogueira, aquecem os tambores e seguem assim até de madrugada. Os carros param e esperam a passagem do grupo, que segue sem reclamações dos vizinhos, sem muita burocracia, sem stress e, como eles mesmo disseram: sin apuro, sin apuro.



Playa Pocitos

Pocitos é um bairro de classe média-alta da capital, com vários cafés e restaurantes, onde fica a praia mais famosa da cidade — e o mais próximo que encontramos de uma praia brasileira em Montevidéu.

Se não for pra fazer foto clichê nem viajo

Rambla Pocitos, ensolarada pero que friaca

Jogo de handbol, o esporte local


Chimarrão, a bebida nacional. Os uruguaios não desgrudam de kit cuia+bomba+garrafa térmica e em vários lugares pode-se abastecer de erva e água quente

UPDATE

Em 2018 voltei para a cidade e conheci um monte de lugares legais

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II. COLONIA DEL SACRAMENTO

Colonia merece o título de cidade mais calma do mundo. Muito parecida com Paraty, mas infinitamente mais tranquila, tem um centro histórico próximo ao porto, com calçamento de pedras, bons restaurantes com vista para o rio, lojas de souvenirs. É a única cidade do país que teve colonização portuguesa, então muitos detalhes da arquitetura e decoração, como azulejos, são familiares aos brasileiros.





Sente a paz





Meio Paraty, só que melhor



Por ser próximo via fluvial de Buenos Aires, muitos argentinos vão para Colonia passar o fim de semana ou mesmo fazer um bate e volta no mesmo dia via Buque Bus ou outra das empresas que operam a travessia, como Colonia Express ou Seacat. Porém, caso haja interesse em fazer esse passeio, o ideal é comprar as passagens antecipadamente via sites, pois fica muito mais caro se comprar no guichê.




O ladrão piromaníaco

No hotel, uma hóspede estava preocupada com a falta de estacionamento: “mas e se roubarem o carro?”. O funcionário do hotel explicou que em no ano anterior haviam sido registrados apenas três roubos de veículo — sempre pelo mesmo ladrão, na verdade um piromaníaco que levava os carros para um lugar deserto e botava fogo neles. Mas que recentemente ele tinha incendiado um pavilhão e foi transferido para Montevidéu, para se tratar em uma clínica, ou algo assim, portanto ela podia ficar tranquila.

Pensamos em esticar mais um dia em Colonia, mas era quarta-feira e por isso a maioria dos restaurantes, comércios e pontos turísticos estavam fechados.

III. ESTRADAS

Estradas ótimas, tolerância pra álcool: zero. Nada no mundo é mais óbvio que o sistema viário do Uruguai, portanto é muito difícil errar o caminho e se meter em roubada. Em Montevidéu, basta pegar a ruta Interbalneária para chegar à qualquer uma das praias. Essa estrada não vai pela costa, mas a qualquer momento você pode sair dela para acessar as praias e seguir pelas ramblas com vista para o mar (sim, saindo da capital já é oceano). Tudo bastante seguro e bem sinalizado, mais fácil ainda ligando o GPS.

Clique para ver maior


Ruta Interbalneária

Rua de frente pra praia em Las Toscas


Las Toscas™

IV. PUNTA DEL ESTE

Como fomos fora da temporada (março) e durante a semana (quarta a sábado), não dá pra dizer que conhecemos Punta del Este como dizem que ela é: agitada, festiva e cara. Bem, cara é, um pouco. Especialmente na praia, onde paguei 20 reais por uma água mineral e uma tônica.


O Uruguai tem a água engarrafada cara em relação ao Brasil, mas só no fim da viagem descobri que a água da torneira é 100% potável e a mineral em é que custa cara pois é orgulho nacional, considerada das águas mais puras do mundo.



Essa sou eu tentando manter a cara de rica após pagar 20 reais em uma água e um refri

A mão em Punta del Este é parada obrigatória, e só ficamos sabendo depois o nome tétrico: Monumento aos afogados


Levantamos a hipótese dessas aves serem contratadas pelo governo para posar para fotos ao por do sol

Hospedagem: como não tínhamos certeza de onde gostaríamos de ficar, deixamos para decidir chegando lá. Através do Booking encontrei uma boa hospedagem, que recomendo para um pouso rápido e barato: o hotel The Smalleast, que tem bons quartos a menos de R$ 200, uma localização ótima, perto da praia e dos restaurantes, bom atendimento, wi-fi, lavanderia, e café-da-manhã farto. Ah, e frigobar, que enchemos de cerveja comprada no mercado local (Disco).

Quarto com vista para o Farol


Restaurantes: fora da temporada, encontramos três abertos, todos com hostess na porta e tocando bossa nova. Não vim de tão longe pra ouvir versão lounge de o barquinho, então preferimos comer empanadas mesmo.

Não é nada disso que vocês estão pensando — é que a empanada pinga óleo, por isso a posição mais adequada ao consumo é essa

Virgen de la Candelária

Bem o dia em que planejamos visitar Casapueblo, conhecida pelo por do sol magnífico e basicamente o objetivo primordial dessa viagem, amanheceu em plena TORMENTA. Tipo: chuva torrencial, com vento e granizo. Melhorou um pouco, mas ainda estava bastante nublado ao meio-dia quando passamos para conhecer o altar da Virgem da Candelária, padroeira da cidade, que já foi carregada pelo mar e voltou. Muitas pessoas colam no altar placas e azulejos agradecendo milagres.


Agnóstica convicta, apenas agradeci pela viagem e aproveitei pra sugerir, despretensiosamente, que seria legal se a Santa pudesse fazer o tempo abrir à tarde, ainda que as notícias da chegada de uma frente fria fossem desanimadoras. E não é que lá pelas quatro e meia da tarde o tempo inacreditavelmente ABRIU? Yo no creo, pero… No dia seguinte voltamos para deixar nossa plaquinha: gracias por todo, Virgencita.


Aparentemente algum campeonato ganho pelo Corinthians também tem uma mãozinha dela

Já comentei que venta bastante?

Museo del Mar, em La Barra, Maldonado, ao lado de Punta del Este. Instalado numa área de 2.300 m², conta com mais de 5000 exemplares marinhos.

Em Buenos Aires você pode conseguir raviolis até em caixa eletrônico e Uruguai não fica atrás. Mas este lugar, à beira da estrada Interbalnearia perto de Punta Ballena, conquistou definitivamente meu coração


O motorista do busão que nos levou de volta à capital era um uruguaio típico: não largava o kit chimarrão e deu a mão à todas as mulheres para ajudar a descer do veículo

Casapueblo, en Punta Ballena

Ponto alto da viagem, o desejo de conhecer o Uruguai começou depois de ver um documentário sobre este lugar. A casa de verão do artista uruguaio Carlos Páez Vilaró está localizada em Punta Ballena*, a 16 quilômetros ao sul de Punta del Este, na província de Maldonado, e é uma verdadeira obra de arte. Inspirada nos ninhos de joão-de-barro, foi sendo construída aos poucos pelo artista, falecido em 2014, e hoje consiste em um hotel, museu/galeria e um restaurante.

A história de Vilaró é contada por um documentário de 20 min logo na entrada e é ótimo para contextualizar as obras que serão vistas a seguir. O trabalho artístico do uruguaio é muito baseado em suas vivências e parte importante é dedicada ao culto ao sol.

Curiosidade: ele é pai de Carlitos Vilaró, que ficou conhecido como um dos sobreviventes da tragédia dos Andes, acidente aéreo ocorrido em 1972 e tem documentos relacionados a isso na exposição, como cartas e jornais da época, assim como trabalhos artísticos inspirados nesse acontecimento.

(*) Estávamos de carro, mas no blog Viaje na Viagem tem várias dicas de como chegar lá de táxi ou transporte público


Clima nublado na chegada, mas algum milagre fez que ele abrisse em questão de poucas horas















O gato de Carlos Vilaró e o meu, rs


O ingresso ao museu é pago em dinheiro (aproximadamente R$ 25) e dá direito a ir e voltar do museu por uma semana. Então é possível visitar o museu, curtir a tarde nas falésias do lado de fora e voltar para ver o pôr-do-sol, quando tem uma cerimônia onde se ouve a gravação de um poema na voz de Vilaró. É cafona? Não vou dizer que não, mas faz todo sentido com o lugar e acaba sendo muito legal.





Parece que o artista está vivo, mas é apenas uma foto.

Para terminar, uma lua cheia. Que mais posso querer, Uruguai?

Mais informações sobre o museu: http://www.carlospaezvilaro.com.uy/nuevo/museo-taller/

V. MELHORES LUGARES PARA APRECIAR O PÔR-DO-SOL

  1. Casapueblo
  2. Paseo San Gabriel, nas pedras embaixo do Bastión de Santa Rita
  3. Club de Pesca, ao lado da Playa Ramírez
  4. Ponto 6, Punta del Este
  5. Rambla Wilson perto do posto ANCAP

VI. DICAS GERAIS

O que é caro no Uruguai: cerveja, água mineral (mas a da torneira é potável), roupa.

O que é ok: hospedagem e refeições saem pelo mesmo preço que no eixo São Paulo / Rio de Janeiro

O que é barato: vinho, empanadas (média de R$ 4) e Uber (o app funciona normalmente no Uruguai e na Argentina)

Aluguel de carro: é mais barato alugar em Montevidéu do que em Colonia ou Punta del Este, sei lá por quê. Se a ideia é explorar bem a região, compensa muito alugar o carro por todo o período.

Praias: indo de carro de Montevidéu até Punta del Este é possível ir rapidamente pela estrada Interbalneária, mas também vale muito sair um pouco da estrada e seguir pela orla para conhecer outras praias. As estradas vicinais são boas e em geral, seguras. Claro que é melhor se estiver com GPS, já que tudo é meio vazio (ainda mais fora da estação) e não tem pra quem perguntar o caminho.

Telefonia: procure se informar sobre as ofertas de chip pré-pago com acesso a internet no país, em geral sai mais barato que roaming internacional.

Temperatura: mesmo com tempo bom, leve sempre blusinha porque o tempo vira após o entardecer.

Na mala: não esqueça de levar chinelos, encontrar havaianas por lá é uma missão ingrata.

Bem, ficamos devendo uma visita às praias Punta del Diablo e Cabo Polonio, mas fica para o próximo verão.

Gostaram? Deixem mais dicas nos comentários.

SANTA CATARINA

caminho do mar
(na rua, na chuva, na fazenda, na canga do romero britto à beira-mar)
(queria ter um barco só pra batizar assim)

Papai Noel surfista já é um clássico do Natal no litoral
#muso

Caminho de casa

A ÚLTIMA VIAGEM

Já tem quase um ano e só agora me animei a postar esse desenho. Ele faz parte do projeto Cadernos de Viagem* e retrata a viagem que fiz à Minas Gerais em novembro passado, para o enterro do meu pai. Posso dizer sem sombra de dúvida que, apesar de simples, foi o desenho mais difícil que eu fiz.

[Cadernos de Viagem é um projeto de sketchbooks itinerantes. São 110 artistas de diferentes cidades, com um tema em comum. A organização é da IdeaFixa : http://www.ideafixa.com%5D

LONGE PAKAAS

Digamos que o mundo está dividido geograficamente em três: lugares aonde eu gostaria de ir, lugares onde eu iria a trabalho e lugares onde eu não poria meus pés nem acompanhada do Harrison Ford vestido de Indiana Jones. Estando o estado de Rondônia em um espaço virtual qualquer entre o segundo e este último, qual não foi a minha surpresa ao me escalarem para esta missão: conferir de perto todo a estrutura de um eco-hotel recém-inaugurado no meio da floresta amazônica. O primeiro pensamento foi “eles me odeiam e querem se livrar de mim, me mandando para um lugar distante pra morrer de malária”, mas confesso que estava em um certo período do mês no qual manias persecutórias atormentam a alma feminina. Aos poucos, fui me acostumando com a idéia, já que aparentemente eu era a única pessoa que reagia horrorizada ao roteiro da viagem, que incluía pesca de piranhas, focagem de jacarés e visita a comunidades indígenas, além de um aterrorizante vôo de Bandeirante. Cabe aqui um aparte: esta que vos fala não só tem medo de altura, como de avião, de barcos e até de peixes! [1]

Enfim, a viagem é longa e começa às sete horas da manhã no aeroporto de Congonhas. Trocar de avião em Cuiabá, ou Brasília (dá na mesma), mais uma escala em Brasília, ou Cuiabá (é tudo igual, odeio aviões e suas curtas distâncias), finalmente desembarcar em um forno gigante chamado Porto Velho. Ficamos esperando o vôo fretado que nos levaria a Guajará-Mirim prostrados na sala VIP do inferno, digo aeroporto, que de especial tinha apenas o fato de ter ar-condicionado. A esta altura do campeonato eu já tinha perdido completamente a noção de tempo, devido ao fuso (-2 horas), ao cansaço mental e ao fato quase irrelevante de ter esquecido o relógio em casa. Então, mais um tanto de pânico na subida do Bandeirante, cujo piloto se empolgou e desandou a fazer manobras e vôos rasantes a pedido dos fotógrafos. Mas o legal do aviãozinho é que, por ser pequeno, aumenta a integração da tripulação com o comandante, que chegou mesmo a ser aplaudido e ovacionado a gritos de ‘eô, eô, comandante é o terror!’ após o pouso tranqüilo de um vôo pra lá de estressante. Nesse ponto cabe dizer que sim, a paisagem é linda a ponto de fazer a gente esquecer um pouco o medo de objetos voadores, mesmo os identificáveis, tipo aviões. Em Guajará, segue o catálogo de meios de transporte: uma van até o rio Pakaas, onde nos esperava o barco que nos levaria até o hotel. Quanto tempo mais? Horas ou minutos? Sinceramente não lembro.

A CHEGADA
Meu modelito selva, cuidadosamente preparado ainda em São Paulo, havia sofrido a cruel interferência do tempo, sol, chuva, vento, horas de espera e tensão sofridas. Daí que ao avistar algo parecido com as fotos mostradas pela assessoria, a emoção foi grande. A interminável viagem de ida encontrava sua conclusão no melhor estilo. A recompensa: um hotel lindamente decorado com materiais da região, uma vista extasiante, e um batalhão de garçons dando as boas-vindas e oferecendo-nos sucos multicoloridos de frutas da região coroados com aqueles guarda-chuvinhas dignos da ilha da fantasia. Comecei a compreender o que levaria uma pessoa a enfrentar tantas intempéries para chegar a esse paraíso.

Piscininha com vista para o encontro do Rio Negro e o Pakaas,
e eu tão sem foco quanto esta foto devido a: amarula

O HOTEL
O hotel é inteiro construído sobre palafitas e de maneira a aproveitar ao máximo a maior dádiva do local: a vista do encontro dos rios Mamorés e Pakaas Novos. Restaurante com vista panorâmica, a piscina integrada à paisagem, quartos com varanda. Aliás, varanda esta que fica exatamente na margem do rio. Ainda fascinada com a infra-estrutura do quarto, fui conferir a vista, silenciosa, calma, pensativa ao pôr-do-sol. Foi quando escutei um barulho na água. Depois mais perto. Será que?… Ele mesmo, o boto-cor-de-rosa me dava as boas vindas! Imitei seu assobio, ele respondeu; assobiei de novo e quase fiquei sem ar quanto ele nadou a toda em minha direção, se enfiou em baixo das palafitas da varanda. Caramba! O que mais falta acontecer? Seria o boto funcionário do hotel?

O JANTAR
Ar-condicionado silencioso, frigobar, cama king-size, tevê a cabo. Mas o que me levou a retirar meu esqueleto cansado de todo esse conforto oferecido nos quartos? Alimentar corpo e espírito com pratos tipo Pirarucu na casaca, salmão com ervas finas, surubim ao molho de cupuaçu, frango ao molho de maracujá e outras iguarias.

MATA ADENTRO
No dia seguinte acordei cedo pra pegar uma piscininha contemplando o Mamoré, mas fui logo interrompida pelo organização do passeio, ansiosos por mostrar as maravilhas da região. Bacana. Mas o problema dos passeios é o tempo que se leva para chegar lá. Horas e horas de barco. Só isso já valeria a pena, aquele vento no rosto, o sol queimando, navegando por um espelho d’água no coração da selva amazônica, vendo animais selvagens, velhos do rio, índios e tudo o mais; nem sei se precisava me enfiar em uma antiga trilha de seringueiros durante quarenta minutos sem descanso (se parar, mosquitos te comem) apenas para chegar num lago, onde não podíamos nadar, nem sentar, nem mesmo observar a vista calmamente. As muriçocas são vitaminadas e nenhuma garantia de que as onças por lá são vacinadas. Eu sei bem como é uma seringueira, aprendi sobre seringais na escola, se marcar sou até capaz de extrair um látex da árvore. Falei do tempo que se leva pra chegar? Esqueci de falar da volta. Acho que leva o dobro.

JACARÉ MANDOU LEMBRANÇAS

À noite, mais emoções. O nome do passeio é focagem de jacaré, mas do dito cujo nem o rabo. O acesso ao pântano é feito através das passarelas, que na verdade são a quase totalidade dos caminhos pelo hotel. O detalhe é que esta parte se encontrava em construção e o que faltava era de vital importância, ao menos psicológica: a cerca. Claro que a passarela era larga o suficiente para o trânsito de três pessoas lado a lado, mas, eu já comentei que tenho medo de altura? Pois é. Essa passarela se erguia a pelo menos três metros do chão. A solução arranjada pela intrépida repórter ávida de emoções e indecisa quanto a qual seria a pior das opções, voltar ou seguir adiante: ir, de braço dado com o segurança do hotel, o próprio nome indica a função, dar segurança aos hóspedes, ainda que imagino que ele estivesse esperando outro tipo de perigo, como indicava a escopeta que nosso ‘anjo-da-guarda’ carregava à tiracolo. Onças? Jacarés voadores? Não obtive resposta. De mais a mais, fui falando sem parar até a torre de observação. Focagem de jacarés é o esporte mais seguro do mundo, você fica do alto com uma lanterna procurando focar nos olhos do jacaré, que brilham. Fica mais seguro ainda em casos como este, em que a distância era tão grande que nem posso afirmar, com certeza, que o que eu vi era um jacaré ou um gato.

EASY RIDER DE MOTOCA
Ponto positivo: o segurança deu a fita. Falou que o que liga é um rolê de moto na cidade vizinha do país vizinho, Guayara-merin, Bolívia. Por R$ 5 a hora pode se alugar até uma XL350. Bacana. Posto isso, pus-me a pilhar os outros parceiros de alma corsária para reproduzirmos um easy rider básico do outro lado da fronteira. Foram muitas as tentativas de desencorajar-me; que a cidade não tinha nada, que era muito pobre, isso e aquilo. Mas aquariano é foda, quando enfia uma coisa na cabeça fodeu. Ainda por cima tínhamos recebido um convite formal da rede de tevê guayaramerense (?) que estava ansiosa para entrevistar, mostrar seus estúdios e trocar experiências com la prensa brasileña. Fugimos dessa, mas não do passeio pela cidade em curiosos riquixás movidos a moto, que parece ser o único transporte viável da cidade. Todos andam de moto e os menos favorecidos, de bicicleta. Poucos carros pelas ruas, praticamente uma Amsterdã dos trópicos. Destaque para as simpáticas chicas bolivianas, desfilando de lambreta com seus uniformes escolares desbotados: saias de pregas, gravatinha azul marinho, meias brancas até o joelho, uma verdadeira volta no tempo. Ainda tivemos a sorte de assistir à missa de graduación do colégio local. A roupa de gala do pessoal era tipo assim show de horror. Ou avançada demais, fato é que aquela combinação medonha de estampados de tons marrons era de assustar Marcelo Sommer.

Ao negociar o aluguel das motinhos, quanta decepção: só tinha scooter. Pelo sim, pelo não, aquele calor torrando os miolos, fazer o quê? Vamos, então. Para compensar a falta de emoção dos motores, resolvemos encarar desafio próprio: localizar o boteco mais distante da cidade e tomar aquela cerveja boliviana gelada. E roda. Asfalto, só nas avenidas, as ruas transversais todas de terra. E roda, roda, roda e nada. Consultórios médicos eram mato, mas nem sinal de botecos. Paramos em uma pulperia, mas sem sucesso, só aguardente. Mais mico: parando no que julgávamos ser um bar, pedimos uma cerveja; risadas: era um açougue. Sem luz elétrica! Visões do inferno. Que mais poderia acontecer na nossa derrubadérrima aventura? Uma das motos quebra. Começa a chover.

[1] quando criança, fui mordida por um lambari e até por uma tartaruga. Acho que isso explica uma porção de outras coisas.