PROJETO CURADORIA – O LIVRO

Muito feliz por fazer parte do livro “Mulheres Criativas – 100 histórias de mulheres inspiradoras”, de Nini Ferrari, lançado em junho. A publicação é um recorte do Projeto Curadoria, criado e organizado por ela. Até agora, são mais de 400 entrevistas com artistas de dezenas de países. É uma delícia também, e muito inspirador, conhecer o trabalho dessas mulheres, saber de seus processos, dúvidas, inspirações, perceber que temos muita coisa em comum e especialmente, diferenças. Não acredito que exista um específico feminino na produção artística, e é essa diversidade que o projeto mostra lindamente.

Para acessar a entrevista: https://projetocuradoria.com/eva-uviedo/

p.s.: É sempre um momento tenso decidir, entre todos seus trabalhos, aquele que me representa. Nestes tempos, tenho optado por esse, chamado “tranquilidade”. É sobre o momento presente, antes de quando pode acontecer tudo. Ou nada.⁠
p.s.2: para comprar o livro, acesse projetocuradoria.com

ENTREVISTA: LAMPARINASCOPE

Um ano atrás dei essa entrevista para o site LamparinaScope, na qual falei de assuntos que não costumo abordar: de como cheguei no Brasil, a perseguição que meus pais sofreram na época da ditadura e como isso me afeta hoje. Entrevista ao vivo em vez de por email é outra coisa, e a Larissa Saram é ótima nisso. Na época fiquei um pouco assim porque não é o tipo de coisa que costumo compartilhar, mas hoje vejo que ela faz mais sentido do que quando saiu, porque são assuntos que entraram com tudo no radar.

leia aqui:

L: Você nasceu na Argentina e bem pequena veio com a família para o Brasil. O que aconteceu?
E: Vim para cá em 83, tinha seis anos. Meu pai era diretor de teatro e estava sofrendo perseguição política por conta da ditadura militar. Ele conhecia a Ruth Escobar, tinha uns contatos e trabalhos aqui no Brasil. Era apaixonado pelo país, pelas praias. Quando a situação ficou muito ruim, viemos para tentar uma vida com mais liberdade.

L: Quais são as lembranças que tem desse período?
E: Quando a gente é criança, tudo é mais leve, uma brincadeira. Meus pais foram presos e tive que morar com uma tia. Não teve drama, foi até divertido. Tínhamos uma estrutura familiar e avós e tios acabaram suprindo as ausências. Lembro também de ter que sair fugindo, a gente mudou 500 vezes de casa, de cidade, de situação. Perseguição política é um horror.

L: Nunca soube dessa parte da sua história.
E: Não falo porque faz tanto tempo…

L: É dolorido lembrar?
E: Não sei se quando começar a mexer com isso vai doer, mas acho que não. Resolvi de outra maneira. Precisei pegar todas as coisas que mais gostava e fugir. Isso tem reflexos na minha personalidade hoje. Amo objetos, minha casa é lotada de tranqueira, tenho dificuldade de jogar fora. Por outro lado, não tenho sofrimento com o desapego. Se amanhã falarem que tem um incêndio e preciso abandonar tudo, ok. Gosto das coisas sem sofrer por elas.

L: Como esse momento da sua vida impacta no trabalho que você desenvolve hoje?
E: Comecei uma série que tem a ver com a Síndrome da Memória Falsa ou Síndrome da Memória Inventada. Conheci esse fenômeno por um caso de polícia em que as pessoas que foram condenadas não lembravam direito do que tinha acontecido. As provas as fizeram acreditar que eram culpadas, mas de fato elas não se recordavam. Este ano pretendo trabalhar com esse tema, das coisas que a gente inventa sobre família. Como vim para o Brasil bem nova, não convivi com avó e tios o quanto queria. Meu pai já morreu, então como não tenho como perguntar, invento. É lógico que é uma experiência minha, mas tem muita gente que passa por isso. Pessoas em situação de pobreza, que não têm foto de criança, de antepassados, de como viviam, eles têm que confiar numa lembrança.

L: Talvez o seu trabalho com os pratos tenha certo paralelo também, de pegar algo que está quebradinho, faltando pedaços, e transformar.
E: É, tem a ver. Até por serem objetos antigos, né!? Tenho várias amigas que falam “ah, esse prato foi da minha avó”. Não tenho prato da minha avó, tenho que inventar, então pego o prato da avó de alguém. Preenchi essa falta com coisas que sobraram de outras pessoas que não foram para lugar nenhum, não tiveram herdeiros. Eu herdo e tento ressignificar.

L: Você é muito crítica com as suas produções?
E: Sempre vai ter um “putz, isso aqui poderia ter ficado melhor”. É um saco, mas tudo bem, tem outros trabalhos na frente. Ficou o melhor que podia naquele momento e isso pra mim já basta.

L: É legal ouvir você dizer isso porque, em geral, mulheres se cobram mais no trabalho, desenvolvem mais a Síndrome da Impostora.
E:  Também sinto que sou impostora, mas todos são um pouco. Tem várias coisas que vejo de homem que é um truque do caramba. Senta ali na reunião, não tem nada pra falar, faz uma pose, fala nada além do óbvio e ganha três vezes mais. Penso “ué, então também posso”. Lido com o meu sentimento de impostora assim. Também exercito o pensamento de que se eu for uma impostora, sou das boas porque tá funcionando. Se me chamaram de novo para um trabalho é porque gostaram. Tem esse feedback do mundo. Ter passado por muito machismo e compartilhar essas histórias é o que faz a gente forte pra ter esse tipo de postura, de falar “eu consigo”.

L: Passou por alguma situação machista que te marcou muito?
E: Não, o que sempre vejo é que estamos numa caixinha. É melhor do que estar fora do jogo, claro. A gente está se empoderando, se juntando, mas ainda não conseguimos romper a segunda barreira, que é fazer coisas do mundo. Vi uma série de um produto que tinha cinco embalagens, cada uma assinada por um artista, todos homens. É provável que no Dia da Mulher essa marca chame cinco artistas do sexo feminino. Não! Quero que quando fizerem o produto, tenha mulheres e homens, brancos e negros. Estamos vivos no mesmo ambiente.

L: Os seus trabalhos sempre estão vinculados ao feminino. Não é uma escolha, então, certo?
E: Não, é o mercado botando a gente numa caixinha. Fico feliz de ser lembrada em projetos que envolve mulheres, livros infantis sobre mulheres e ilustrado por mulheres, que bom que estou nessa lista. Mas queria fazer também projetos que não fossem só exclusivos de mulheres. Não estou dizendo que não acho importante, acho importantíssimo, mas não escolhi fazer trabalhos de mulheres. É que sou mais lembrada quando é pra fazer trabalhos assim.

L: Quero falar sobre “Amor e Outros Peixes”, sua série que trata dos sentimentos humanos.
E: Na verdade trata da dificuldade em lidar com sentimentos. Como você se relaciona com um tubarão é diferente de como você vai lidar com um peixinho dourado e não estou dizendo que um é mais fácil do que o outro. O tubarão, você sabe onde ele tá, você tem uma relação mais de igual pra igual. A arraia é mansa, não faz mal a ninguém, mas se você der um pisão, pode te matar. Vou colocar só em metáforas… Às vezes você lida com um tubarão sendo uma pessoa adulta, em outros é uma criança. A série é toda em cima disso, estou buscando uma diversidade de posturas femininas e uma diversidade de conseguir lidar de analogias.

L: Em 2017, assistimos a uma série de polêmicas envolvendo obras de arte, como o caso do Queer Museu, no Santander Cultural em Porto Alegre, e o homem nu do Panorama da Arte Brasileira, do MAM. Como artista em atividade e filha de artistas perseguidos pela repressão, com você enxerga esse movimento aqui no Brasil?
E: Como uma disputa de narrativa e de poder. Ninguém está interessado em arte ou crianças. As pessoas querem inventar um fato e se colocar como salvadores e fazem isso sem pudor de desinformar, distorcer e atingir os outros. Querem colocar um carimbo de pessoas ruins em quem é um pouco mais progressista. E assim ganham mais seguidores, mais audiência, mais poder. É tudo, menos arte.As discussões poderiam ser outras: “pô, precisamos de um homem nu em 2017? Já não foi feito 500 vezes? Isso ainda choca, ou não choca? Não é isso que está sendo feito. É um bando de gente gritando, chamando de pedófilo comunista. É tão agressivo que não quero me envolver nessa história, pra mim afeta de uma maneira que é difícil.

L: Como assim?
E: Venho de uma vivência de pessoas que foram silenciadas e abafadas, abaladas e expulsas do país. E também vivo num país que não é meu. Por 30 anos fui levada a acreditar que sou “quase brasileira”. É uma coisa agressiva de se dizer porque tira sua identidade, como se tivessem tentando aliviar alguma coisa. Não tem o que aliviar, não sou brasileira, tá tudo bem. Então o sentimento de tentar falar alguma coisa num país que não é meu é de muita opressão. Talvez tenha escolhido fazer uma contestação mais sutil por puro medo. Por pura experiência que eu não quero passar por isso de novo.

L: Enxerga alguma mudança?
E: Acho que as mudanças acontecem a partir das mudanças de cada indivíduo. Então, essa é a vantagem de se juntar em mulheres, de compartilhar dores, medos, essas coisas, para se fortalecer e conseguir. Vai ficar colocando lei em cima? Claro que são importantes, mas é a lógica do vagão rosa, se nos fecharmos em guetos, deixaremos todos os outros vagões pra eles. A gente tem que se impor, se colocar, precisa trocar ideias, informações, que são do nosso específico. Tem que ter espaço, espaço para as mulheres, negros, todo mundo tem que ter seu momento. Então, não é vagão rosa. É “respeite os 10 vagões porque os 10 vagões são de todos”. Precisamos conversar e ir para um mundo mais preparado pra essas coisas. Enfim, acho que tudo é pouco tempo. Não tem nada resolvido. E o preço disso é eterna vigilância.

— Leia na íntegra aqui

ENTREVISTA: DON’T TOUCH MY MOLESKINE

Muito muito especial essa entrevista para o blog Don’t touch my moleskine, da Dani Arrais, que eu acompanho desde que nasceu (o blog, não a Dani).

Don’t touch my moleskine

http://donttouchmymoleskine.com/mulheres-seres-do-mar-e-sentimentos-na-profundidade-dos-desenhos-de-eva-uviedo/

Conta um pouco sobre você, sobre como você se encontrou na ilustração e o que você mais gosta de desenhar?

Nasci na Argentina, em família de artistas (pai diretor de teatro, mãe cantora) que precisaram fugir da ditadura, e moro em São Paulo desde a adolescência. Nessa época comecei a ver que tinha jeito pra desenhar, mas era o início da MTV e o grande barato era videoclipes, videoarte. Por conta disso entrei para o meio do audiovisual, e acabei indo pra área de documentários, especialmente os ligados a direitos humanos, LGBT e feminismo, o que foi uma experiência muito enriquecedora. Alternava o curso de comunicação com aulas de desenho e pintura, e também direção de arte e design, que me levou para a internet. Aí passei 15 anos como responsável pela área na Trip Editora – o que foi sensacional porque juntava tudo, arte visual, vídeo e jornalismo – e ia desenhando como hobby e postando no Flickr, até que comecei a receber convites para ilustrar profissionalmente. Em 2008 fiz um curso com os ilustradores Fernando Vilela e Odilon Moraes, que tem uma abordagem incrível dessa arte, e passei a ver isso como uma profissão real oficial, com todas suas características e desafios próprios. Em 2014 saí da Trip e desde então me dedico integralmente à ilustração, seja para o mercado editorial, publicidade ou em projetos autorais.

Gosto muito de desenhar mulheres, e desde 2007 venho desenvolvendo uma série chamada “Sobre Amor & Outros Peixes”, onde relaciono seres do mar com sentimentos e tipos de relacionamentos. Fui identificando nas características deles muitos comportamentos que poderia atribuir a dinâmicas das relações humanas, e por aí foi se desenvolvendo um universo pictórico de simbolismo próprio. O tubarão, ao mesmo tempo suave e feroz. A arraia, um animal manso que pode ser letal. Os peixes Beta, de briga; o baiacu, que infla pra se defender. O polvo, com seus tentáculos envolventes, que aparece em diversas representações com características sensuais. E a água, que envolve tudo em um estado alterado como quando a gente está apaixonado. E por aí vai, a lista é enorme e é aberta para interpretações de cada um.

https://www.evauviedo.com.br/sobre-amor-e-outros-peixes

Essa série já se desdobrou em diversos trabalhos e parcerias, como os livros “Nossa Senhora da Pequena Morte” [Ed. do Bispo, 2008] e “Toureando o Diabo” [Independente, 2016], em parceria com a escritora Clara Averbuck; apareceram em “Mnemomáquina”, de Ronaldo Bressane [Demônio Negro, 2014], capas de discos, como o das cantoras Pitty e Elza Soares, e outros trabalhos.

Nossa Senhora da Pequena Morte, 2008

Também gosto muito de desenhar sobre viagens, em forma de mapas, travelbooks, guidebooks e afins, tenho vários trabalhos nessa área. E toda viagem que faço rende um caderninho com as impressões da viagem e desenhos.

Queria Ter Ficado Mais, 2014

– O que a arte representa na sua vida?

Vejo a arte como uma frequência diferente de comunicação entre as pessoas. É como se houvessem coisas das quais só dá pra falar, e entender, através da arte. Muitas vezes faço um desenho que eu mesma não sei exatamente o que ele significa, mas veio de um sentimento que não consegui colocar em palavras. Aí muitas pessoas vêm e falam: “esse desenho me tocou, me fez chorar, mexeu comigo de um jeito que não sei explicar”. É porque a gente compartilhou algo, só que em outra sintonia. Às vezes tenho vontade de perguntar: “mas o que foi que você entendeu?”. Mas acho que isso quebraria essa magia. E a mesma coisa acontece de volta com as artes que eu gosto.

Às vezes tenho vontade de perguntar: “mas o que foi que você entendeu?”. Mas acho que isso quebraria a magia.

– O que você acha que faz seu trabalho reverberar? Quais são os temas que você acha mais importante abordar?

Acho que o que faz o trabalho reverberar é que ele fala de sentimentos de um jeito aberto para que as pessoas ponham nele suas próprias vivências e interpretações. Os temas que gosto de abordar são as relações entre as pessoas, sendo o personagem principal uma mulher (que pode ser representada de várias maneiras, épocas, e com várias idades), pois o desenho é autobiográfico, e o sentimento, o ser do mar.

– Como é ser mulher no seu meio?

Por um lado é muito bacana, porque está se formando um sentimento de comunidade real, muito sincera e naturalmente, coisa que não existia anos atrás. O fato das mulheres se juntarem para montar exposições e coletivos femininos é necessário para ganhar força e visibilidade neste momento; então é ótimo que isso esteja acontecendo. Mas penso que o ideal seria uma equiparação real de gênero em todas as oportunidades e projetos.

Já como artista, me incomoda quando dizem que tenho um estilo “delicado / feminino”, como se fossem coisas naturalmente associadas. Existem trabalhos feitos por mulheres que são super agressivos, transgressores, e tem artistas como o espanhol Conrad Roset, que retrata mulheres com um trabalho super delicado (e não trabalha só para marcas femininas).

Essa associação dá a impressão de que faço um tipo de arte que SÓ pode ser apreciado por mulheres, o que não é real: muitos dos que compram meu trabalho são homens. Mas na última feira que participei teve um cara que se recusou a ficar PERTO dos meus desenhos enquanto a mulher dele escolhia, fez questão de falar e mostrar que ele não queria opinar sobre aquilo, que era “coisa de mulher”. Tipo depreciando mesmo. Por que eu preciso passar por esse tipo de coisa?

ENTREVISTA: PROJETO MULHERES ARTISTAS

O projeto Mulheres Artistas foi criado por Indiara Launa, estudante de ciências sociais na UPE – Universidade de Pernambuco e artista visual, e idealizado a partir de uma pesquisa acadêmica sobre a Cena contemporânea feminina nas Artes Visuais. Através de total imersão nessa cena, e com entrevistas de mulheres que tinham algo a falar, surgiu esta plataforma com o objetivo de reunir essas artistas. Formado pelas artistas entrevistadas, o projeto tem como o objetivo promover o dialogo entre as mulheres, a arte e o público interessado em conhecer mais esse movimento. O foco é compartilhar cultura e fortalecer as mulheres distantes fisicamente, mas unidas pela arte. Você pode apresentar o seu trabalho e responder a entrevista através do formulário de inscrições no site.

Conheça: https://projetomulheresartistas.wordpress.com/

Essa é a entrevista que eu dei, são ótimas questões:

Quando começou a produzir arte? Quais as motivações para esse início?

Desde criança ouvi que tinha talento para o desenho. Porém ao longo da vida fui me envolvendo com outras áreas, jornalismo, documentários, direção de arte, desenvolvimento web. E estudando pintura ao mesmo tempo. Foi só depois do retorno de Saturno tirei o desenho da lista dos hobbies e passei a levar ilustração como uma profissão. E só recentemente tomei coragem de assumir um lado mais autoral, desenvolver uma série e um universo pictórico próprio. A motivação é mostrar pro mundo algo que eu tinha só pra mim.

Teve alguma inspiração para produzir arte?

Meus pais eram artistas (minha mãe, cantora, e meu pai, teatrólogo, escritor e desenhava muito bem) e sempre criaram um ambiente muito propício para a expressão artística, mostrando obras de arte, e incentivando. Mas era algo que eu usava só como válvula de escape. Agora eu quero contar pro mundo como eu penso, como me sinto.

Qual a relação da arte na sua vida? Como ela te influência e como você quer influenciar o outros?

Sim, no sentido da frase ‘a arte existe para que a verdade não nos destrua’, de Nietzsche, acho que é uma maneira de lidar com a vida em um âmbito que não o linear, verbal, lógico. Ou, como disse Ferreira Gullar: “A arte existe porque a vida não basta”. Muitas obras de arte me influenciaram, mas muito mais no sentido de insuflar o espírito. Em geral acontece com música, que muda meu humor, me motiva, altera os sentidos. Eu adoraria poder influenciar as pessoas como um cantor de banda de rock faz, por exemplo. Mas não me vejo caminhando rumo a isso. Se eu conseguir passar uma ideia, explicar uma teoria contida em uma série de desenhos, já vou considerar uma vitória.

Que técnicas você utiliza? Segue algum estilo convencional ou o próprio?

Uso aquarela, café, nanquim e estou sempre à procura de um estilo próprio a partir de uma natural mistura de influências. No meu caso, gosto muito de arte oriental. Sou muito influenciada pela arte japonesa e seus símbolos: peixes, mar, polvos, gueixas… Filosoficamente gosto do minimalismo do Sumie (a arte do essencial) e do conceito do Kintsugi (arte japonesa da restauração). Amo desde os gravuristas Hiroshige, Hokusai e Utamaro até as moderníssimas Yuko Shimizu, Yayoi Kusama e claro, a musa Yoko Ono com sua arte poética e política. E gosto do estilo vitoriano, fotografias antigas. Faço um mix de tudo isso.

O que você representa na sua arte? Como isso fala com você de forma subjetiva?

Em geral, represento mulheres em diversas fases da vida. Crianças, meninas, adolescentes, adultas. Está relacionado à forma como me vejo. Acho que todas as idades estão dentro de nós, e surgem conforme a ocasião.

Sua arte tem alguma relação direta com ser mulher? E como isso é representado?

De certa forma, sim, pois meu ponto de vista é o de uma mulher. Mas não acho que abordo questões de gênero, tento trabalhar os sentimentos humanos. Na série Sobre Amor & outros Peixes, a personagem feminina (que pode ser criança, adolescente ou adulta) se relaciona com um ser do mar, que não necessariamente tem um gênero definido. É um sentimento. Um tipo de relação, de dinâmica, que conheço de um ponto de vista bem limitado, o meu. Mas o legal do simbólico é que cada um pode usar para se identificar a partir das suas próprias histórias.

“Meu ponto de vista é o de uma mulher. Mas não acho que abordo questões de gênero, tento trabalhar os sentimentos humanos”

Sua arte tem alguma relação política ou dialoga com alguma ideologia?

Não. Na minha arte, só procuro retratar as coisas como elas são, bem niilista mesmo.

Você se vê dentro de alguma cena artística?

Não, infelizmente. Não estou na cena de galerias ‘sérias’, SP-Art etc; nem de Street art, não faço Graffitti, não ‘dialogo com a cidade’, não sou do mundo da moda, e nem entro na categoria de mulheres que fazem arte feminista. Digo infelizmente porque acho seria mais fácil se eu me encaixasse em alguma cena, mas não foi uma opção, simplesmente aconteceu.

Acho muito estranho quando falam que meu trabalho ‘é delicado, feminino’, como se fossem coisas naturalmente associadas.

Você sentiu alguma dificuldade ou preconceito ao se inserir na arte por ser mulher?

Não é bem um preconceito. Mas me incomoda um pouco a diferença de tratamento. Acho muito estranho quando falam que meu trabalho ‘é delicado, feminino’, como se fossem coisas naturalmente associadas. Existem trabalhos super agressivos de mulheres, e homens com um trabalho super delicado, como Conrad Roset. E nunca vi falarem do trabalho artístico de um homem como ‘é masculino’, porque esse é o gênero neutro. Não gosto muito dessa associação porque dá a impressão de que faço um tipo de arte que só pode ser apreciado por mulheres, e não é verdade. Nesse sentido, dificulta, pois diminui o número de jobs para os quais posso ser chamada.

https://projetomulheresartistas.wordpress.com/2017/06/26/eva-uviedo/

“TOUREANDO O DIABO” NO SCREAM & YELL

“Essa é uma obra de ficção? Qualquer semelhança com personagens vivos ou mortos é problema de vocês”, é o aviso impresso no colofão de “Toureando o Diabo”, sétimo livro de Clara Averbuck e segundo em parceria com a ilustradora Eva Uviedo. No romance, Clara resgata a protagonista de seus dois primeiros romances, Camila, que agora, entrando na faixa dos trinta, resolve remexer em seus cadernos do passado e repassar sua vida, desde aquela época em que “queria ser a mais inteligente, a mais linda, a mais engraçada, a mais talentosa, a que mais se destacava, a que mais… agradava os caras” até o presente, em que entende que o seu fortalecimento e, nas suas palavras, “redenção” só é possível através da união com as outras mulheres. Mas ainda que haja várias boas passagens feministas, o livro não panfleta sobre isso: há ainda uma mistura de relatos sobre as relações conturbadas com diversos homens ao longo de sua vida e reflexões sobre o ofício de escrever.

Ainda que a autora faça questão de deixar bem clara a distinção entre a sua vida pessoal e a do seu alter ego (“Não é o meu eu. É um recurso literário largamente usado e sempre foi nessa literatura que eu mirei. Sempre disse que a Camila era o meu excesso e nunca neguei que usava a vida como matéria prima da minha obra, mas isso não significa que seja um cronograma do que eu vivi”, diz ela), muitas vezes a voz da personagem se confunde com a da própria Clara e é inevitável lembrar-se de seus artigos escritos no site Lugar de Mulher, que divide a autoria com Mari Messias e Ana Paula Barbi, em digressões como esta:

“Medo do ridículo do livro também. Não vou parir personagem heroína que faz tudo certinho, não vou criar personagem vilã que faz tudo errado e amam odiar. Não quero criar mulher abusada pra mostrar o que pode acontecer, não quero criar vítima nem algoz; não vou dar vida à vilã que todo mundo odeia, mas quer comer ou ser. Personagem mina humana, eu quero. Porque eu quero que as minas se identifiquem com ela. É pra elas que eu escrevo. Antes não era.”

Escrito em um fluxo de consciência que remete a uma versão mais rock and roll de Elvira Vigna, o livro não tem uma história propriamente dita, sendo antes uma narrativa costurada por bilhetes, poemas, letras de música e pensamentos escritos à mão, rabiscos soltos e desenhos diversos, que passam ao leitor a sensação de estar de posse de um diário íntimo da narradora-personagem. As ilustrações ficaram a cargo da artista Eva Uviedo, parceira de longa data de Clara, que traduz em imagens muitos dos sentimentos expostos pela personagem. O resultado é belíssimo.

Com o objetivo de ter maior independência, as autoras resolveram recorrer ao financiamento coletivo para viabilizar a brochura, e conseguiram reunir mais de 600 apoiadores, cujos investimentos ultrapassaram a marca inicial de 35 mil reais (agora o livro pode ser adquirido aqui). Na entrevista a seguir, Clara Averbuck e Eva Uviedo contam sobre como foi esta primeira experiência e falam ainda sobre o processo de criação da obra.

O livro foi financiado através do Catarse e eu me lembro que na época algumas pessoas criticaram tanto a iniciativa quanto o valor do projeto. Ao mesmo tempo, você se dizia surpresa que mais autores não recorriam ao crowdfunding para lançar seus livros. Minha pergunta é: com os altos custos da produção de um livro, será que para a maioria dos autores menos famosos não se torna inviável levantar um valor tão alto e por isso é mais garantido procurar a segurança das editoras?
Clara: Bom, meu projeto não era de um autor iniciante; é o meu sétimo livro, afinal, e eu tenho um público bastante fiel. E existe uma diferença entre fazer um livro e lançar um projeto de crowdfunding, com recompensas, taxas de envio, serviços de terceiros. SÓ um livro pode ser impresso com 5 mil reais, até menos, dependendo da tiragem. Lógico que um autor iniciante não pode pedir 35 mil em um projeto. Mas dá pra fazer por bem menos e bem menos livros. Mas nós quisemos fazer um projeto grande mesmo, e saiu um livro maravilhoso, impresso numa gráfica foda, todo ilustrado e que valeu cada segundo de incomodação. E sim, existe a incomodação e não é todo mundo que tem disposição pra passar por ela. O autor pode se sentir mais seguro e mais confortável entregando o texto pra editora, e realmente, é muito mais fácil. Agora, imagina se um autor best seller resolve fazer um financiamento coletivo? Eu ia achar maravilhoso. Ia ser uma revolução.

Agora que o livro está em fase de lançamento, como vocês avaliam todo o processo desde a criação até a autopublicação e divulgação independente? Saiu como o esperado? Pensam em repetir?
Clara: São novos modelos de economia para novos tempos e eu acho que essa ideia ainda vai muito longe. Eu, com certeza, vou repetir a experiência e não vou esquecer de colocar uma parte do dinheiro pra mim, porque um dos motivos do livro ter atrasado foi que eu não pude me dedicar inteiramente a ele; a gente tem que trabalhar e pagar as contas, afinal, e essa ideia de que o artista tem que ser abnegado e não querer viver da arte que produz não me agrada. Eu quero, sim, viver de vender meus livros, não de outros frilas que paguem minhas contas enquanto minha profissão tem que ser tratada como um hobby praticado nas horas vagas, e isso era impossível com o mercado editorial funcionando da maneira que funciona e pagando 10% do preço de capa pra quem escreveu o livro.

Eva: Sou control freak assumida e adoro ter o controle do processo inteiro. Sofro quando algo sai da linha do que eu acredito ser o certo. A Clara e eu botamos a mão desde a planilha de custos até a playlist pra tocar no evento, passando por toda a criação, edição, tudo, sempre de comum acordo. Dá trabalho, claro, mas a tranquilidade de ter poder de decisão sobre seu próprio projeto vale cada noite virada.

Clara, você poderia falar um pouco sobre a concepção do projeto e como foi o seu processo de criação dele? A decisão de trazer a Camila de volta já estava planejada ou foi algo que você decidiu ao longo do processo?
Clara: Não estava planejada, mas à medida que fui escrevendo o livro senti uma necessidade muito grande de reviver a Camila, que acabou no “Vida de Gato” (2004) com um pé na bunda e um coração partido e falando que era uma “mulherzinha com bolas” no “Máquina de Pinball” (2002). O processo de amadurecimento dela tem muito a ver com o meu, é claro, e eu gostei demais de ter trazido ela de volta, até porque deu pra puxar umas referências dos meus livros anteriores que quem já leu vai pescar.

Além do óbvio amadurecimento, o que você diria que mudou em Camila de “Máquina de Pinball” para cá? O que você imagina que aconteceu com ela durante esse período? Pode-se dizer que a Camila é completamente inspirada em você ou há histórias de outras mulheres nela também?
Clara: Alterego significa “outro eu”. Ou seja, não é o meu eu. É um recurso literário largamente usado e sempre foi nessa literatura que eu mirei. Sempre disse que a Camila era o meu excesso e nunca neguei que usava a vida como matéria prima da minha obra, mas isso não significa que seja um cronograma do que eu vivi. Tem muita ficção, ou seja, histórias inventadas, e tem também inspiração em outras mulheres. Aliás, elas foram a grande inspiração desse livro e eu quero muito que elas se identifiquem com essa Camila. A Camila antiga queria ser diferente das outras, especial, floquinho de neve único; a Camila de agora eu construí pra ser todas.

Você frequentemente se diz arrependida de certa passagem a respeito de estupro em seu primeiro livro. No “Toureando…” já encontramos tanto autora quanto personagem com uma outra visão sobre os homens, as mulheres e a vida. Você pode comentar um pouco sobre como se deu o seu envolvimento com o feminismo e como foi fazer essa autoavaliação da sua obra?
Clara: A gente não acorda um dia e virou feminista. Foi todo um processo de reconhecimento e desconstrução. Comecei a me interessar por feminismo por causa da minha autora brasileira favorita, a Carmen da Silva, que era mais conhecida por ter uma coluna na revista Claudia chamada “a arte de ser mulher”. Ela foi a responsável por introduzir o feminismo na imprensa brasileira bem pelas beiradas, já que estava falando com donas de casa dos anos 60 sobre protagonizarem suas próprias vidas em vez de serem coadjuvantes da dos maridos, sobre orgasmo, enfim, sobre questões das mulheres que ninguém nunca tinha tocado. Foi uma grande ruptura na época, já que, antes dela, quem fazia as vezes de “conselheiros” das angústias femininas eram homens assinando com pseudônimos femininos. Eu virei fã da Carmen por causa de seu romance “Sangue Sem Dono” (1964), que é maravilhoso, e fui atrás das outras obras dela. A partir dali comecei a pensar muito no assunto, pensar que “elas”, as feministas, estavam certas em várias questões. Ainda não me considerava feminista, tinha uma imagem muito estigmatizada da coisa toda, mas, à medida que fui me aprofundando, “elas” viraram “nós”. E a partir do momento em que percebi a importância de me colocar, de me posicionar, foi natural que minha escrita fosse mudando um pouco. Eu tenho uma escrita agressiva e direta mesmo, é o meu estilo, mas, no começo, eu tinha uma ânsia de não “ser mulherzinha”, sabe? Agora não tenho mais essa negação pelo feminino que eu tinha no começo. Eu considerava o feminino inferior, mais fraco, ruim; queria escrever como um cara. Minhas referências literárias eram homens, era algo natural pra mim. Não ter mais medo de ser mulher foi uma grande mudança não só na minha literatura, mas em como eu me posiciono na vida. E é por isso que a gente vive falando que representatividade importa. Hoje eu vejo meninas muito jovens querendo escrever e acho isso demais. Dito isso: a passagem do “Máquina de Pinball” com a qual implico é quando Camila diz que agradeceria se fosse estuprada porque os ingleses não gostam de sexo e ela não estava conseguindo transar por lá. Cagada de uma jovem escritora querendo chocar. Mandei mal, apenas.

O texto parece depender muito das imagens; gostaria de saber como foi o processo de criação. Vocês fizeram juntas, ou acontecia do desenho vir depois do texto ou vice-versa?
Clara: Eu escrevia, mandava pra Eva, ela desenhava, a gente discutia. O processo de escolher os textos dos caderninhos também foi bem legal. O trabalho de edição de texto foi nosso e isso foi incrível. Eu e a Eva construímos essa Camila juntas. Cortamos muito, muito texto, e alguns foram substituídos pelas ilustras, que realmente dão a liga do livro. O texto sozinho não existe.

Eva: A mesma coisa com os desenhos. Alguns eu diagramava junto com o texto e pensava: não, esse precisa escrever à mão, tem que ter a letra da Clara nessa imagem, vai dar a força que falta. E a gente é geminiana, muda de ideia loucamente, trocamos tudo de lugar mil vezes. Tem muita ilustração que eu fiz inspirada pela personagem, mas não sabia onde ia encaixar ainda, daí ficava zanzando de uma página pra outra até achar seu lugar. Quando todo mundo achou seu lugar, texto e imagens, demos o livro por terminado.

Eva, você pode falar sobre a escolha das ilustrações da série Sobre Amor & Outros Peixes e contar um pouco sobre sua inspiração para criá-la?
Eva: Não sei bem como surgiu essa série. Comecei desenhando peixes alados em todo lugar por volta de 2005, daí em diante a viagem aquática foi indo em várias direções. Eu curto muito a diversidade dos seres marinhos; saber de um animal como um tubarão, que é muito suave e ao mesmo tempo extremamente violento. Ou a arraia, que é completamente mansa, mas muito perigosa se você pisar nela. O polvo, envolvente; o peixe, fugaz. Fui identificando nas características deles muitos comportamentos que poderia atribuir a humanos, e por aí foi. A primeira vez que a gente juntou os dois universos, o da Clara e o meu, foi no livro “Nossa Senhora da Pequena Morte” (2008). Já estavam ali as mulheres com cabelo de tentáculo e tudo o mais. Acho que combina bem com a característica mutante da personagem, e nesse livro ela está, mais do que nunca, fugindo de um molde, ela está em eterna reconstrução. E por outro lado, acho que a história da Camila vai trazer uma compreensão das pessoas para as ilustrações. Por exemplo, tem uma hora em que ela narra um amor que apenas escapa, e no desenho quem está fugindo é um peixe. Daí vai construindo um universo simbólico que até agora era só meu, mas espero que vá indo para o mundo pra ser entendido de uma forma mais abstrata. A real é que desenho não é muito pra explicar, ele precisa apenas funcionar. Mas o significado está lá.

– Renata Arruda (@renata_arruda) é jornalista e assina o blog Prosa Espontânea.

“TOUREANDO O DIABO” NO BLOG DA CANTÃO

O novo livro da escritora Clara Averbuck acaba de ser lançado. Mas agora em outro contexto: pela primeira vez, Clara esteve envolvida em todas as etapas do processo editorial, desde a campanha de financiamento coletivo pelo Catarse até o envio dos livros pelos Correios, passando pelas tratativas (e imprevistos) com a gráfica. Mas ela não estava sozinha. Ao seu lado, a amiga e parceira de projetos de longa data, a artista plástica Eva Uviedo.

“Toureando o Diabo” é um livro feito em dupla e assinado pelas duas, no qual texto e imagem são igualmente importantes para a narrativa. Conversamos com as autoras sobre como foi superar todos os desafios para lançar este livro de maneira independente:

A obra começou com a proposta de ser um romance ilustrado e acabou se tornando algo mais experimental, um diálogo entre texto e imagens. Neste sentido, vocês sentem que o livro novo se parece em algo com a experiência que tiveram anos atrás com o projeto “Nossa Senhora da Pequena Morte”?
Eva: Sim, mas penso que é uma evolução daquele formato. No “Nossa Senhora da Pequena Morte”, a Clara já trouxe todos os textos prontos e eu ilustrei. Fizemos muita coisa juntas, horas no estúdio trabalhando, ela escrevendo os textos à mão ou à máquina. Mas nesse a gente foi um pouco além. A gente tem uma narrativa que é parte texto, parte desenhos. Por exemplo, tem uma hora no romance em que a protagonista conta que vai fazer uma coisa e a página seguinte é um desenho mostrando o que aconteceu. Ele não está lá ilustrando o texto, ele faz parte da história.

Como foi o processo criativo de maneira geral? Vocês trabalharam em conjunto todo o tempo?
Clara
: Não, várias partes eu escrevi em casa. O começo já estava pronto e eu fui escrevendo as coisas em grandes blocos — algumas noites em claro, alguns dias inteiros. O que fizemos juntas foi editar, descartar, e selecionar as coisas que já estavam escritas, como bilhetes, caderninhos, guardanapos de bar, e ir encaixando na narrativa que fomos criando com texto-desenho.

Qual o maior desafio ao criar ilustrações que dialogassem com o texto da Clara e que representassem as personagens, situações e emoções descritas?
Eva: Entender a personagem é o maior desafio. Foi muita conversa, muita interação com a Clara pra que eu pudesse criar mentalmente uma representação gráfica. Facilita que a gente já se conhece bastante, mas ainda assim isso foi feito aos poucos. Muitos desenhos iniciais foram descartados. Decidimos que essa representação não necessariamente precisaria ter uma cara — inclusive não tem; existe sempre uma figura feminina, mas ela tem vários cabelos, vários corpos, não é sempre a mesma. Ninguém é. E as emoções muitas vezes são representadas apenas por padrões gráficos. Por exemplo, em todo término de relacionamento aparece uma estampa com cruzes. Quando ela está em ebulição, tem um grafismo parecido com um turbilhão. E por aí vai.

Qual o maior desafio do ponto de vista editorial neste novo processo onde você e a Eva, além de autoras, desempenharam um pouco o papel de toda uma equipe e acompanharam cada etapa da criação, produção e agora lançamento oficial do livro?
Clara
: Tudo foi um desafio, a gente não sabia fazer nada. Até o processo criativo foi diferente, pois quando nos demos conta de que não precisávamos seguir nenhum molde pré-definido é que começamos realmente a fazer o livro como está. Mas a parte logística é um pesadelo pra mim. A Eva lida com isso um pouco melhor, eu só de olhar uma planilha de excel já quero chorar, imagina então lidar com gráfica, orçamento, todas essas coisas. É um saco. Mas também é maravilhoso pensar que poderemos pagar nossas contas com um livro que nós mesmas fizemos.

+++ Na íntegra aqui: https://blog.cantao.com.br/2016/03/entrevista-clara-averbuck-e-eva-uviedo/

“TOUREANDO O DIABO” NO ESTADÃO

Em novo romance, Clara Averbuck recupera personagem feminista

Escritora aposta em outra parceria com Eva Uviedo

Guilherme Sobota, O Estado de S.Paulo

Camila começa Toureando o Diabo – o novo romance de Clara Averbuck, com ilustrações de Eva Uviedo, publicado recentemente de forma independente e com lançamento neste sábado, 20, em São Paulo – retirada em um chalé “no mato”, profundamente incomodada com barulho de cigarras que não a deixam escrever. “Por trás de toda grande mulher tem um homem para encher o saco e sugar sua vida e seu tempo”, reclama o alter ego da autora, que apareceu nos primeiros romances de Clara, lançados no início do século. E o livro, como a escritora deixa claro na dedicatória, tem um alvo certo: “Para as minas”.

Nos seus primeiros romances – Máquina de Pinball (2002) e Vida de Gato (2004) – a escritora fez a personagem ser “uma mulher forte, que se posicionava, não deixava nada barato e que ia atrás do que queria, porém, ela era construída para ser ‘diferente das outras’”, diz Clara ao Estado. “Agora, ela é construída para ser todas as outras.” Uma diferença fundamental que confirma a mudança da ficcionista e ajuda a pavimentar – por meio da arte – sua luta diária contra o machismo e a misoginia. E que sofre resistência, muitas vezes agressiva.

“Acho que (essa resistência) vem em parte por ignorância, porque as pessoas não sabem exatamente o que significa, acham que já está tudo resolvido e não precisa mais lutar por nada, e em parte porque vivemos em uma sociedade machista e misógina que não quer nem pensar em rever seus valores ou mexer em sua estrutura”, reflete a autora – ela criou e escreve regularmente para o site Lugar de Mulher, ministra oficinas de criação literária para mulheres, recentemente escreveu e lançou um documentário e mantém-se muito ativa nas redes sociais.

Questionada sobre o mar de ódio e preconceito que costuma correr em caixas de comentários e demais interações políticas na web, ela demonstra paciência. “O resultado positivo é muito maior do que qualquer infeliz que queira destilar seu ódio. Para cada pessoa triste que me xinga de feminazi tem 20 mulheres que se beneficiaram com algum texto. E os haters que se afoguem falando sozinhos com seu ódio, porque o problema deles comigo, evidentemente, é deles.” Evidentemente.

A questão das redes passa de raspão pelo romance, que, na verdade, é recheado de sexo – uma chave que a personagem aproveita para avançar e aprender entre um romance e outro, e que cria uma catarse, que, na verdade, também é política. “Ela é uma personagem com nuances; é forte, mas tem fragilidades e as expõe e isso está supervisível nos desenhos. A nudez da personagem tem mais a ver com essa transparência do que com nudez erótica”, diz Clara. “A personagem faz e pensa milhões de coisas em relação a tudo, inclusive sobre isso (sexo). Então no desenho tentei mostrar de uma forma sutil, não tem nada explícito”, explica Eva Uviedo, coautora, ilustradora nascida na Argentina e radicada em São Paulo há anos.

O livro nasceu de um crowdfunding – a vontade anunciada das duas autoras em ter liberdade total no processo de composição e edição do livro funcionou e o resultado as deixou “felicíssimas”, segundo Clara. O livro tem um formato quadrado e na interação contínua entre texto e ilustração mora um de seus grandes trunfos. A ausência de prazos e pressões de um editor possibilitou um trabalho mais concentrado no processo artístico. O desafio, agora, é a logística de vendas e distribuição.

“Estamos vendendo no site (evauviedo.com.br/toureandoodiabo), vamos vender em algumas feiras independentes, não vamos distribuir da maneira tradicional”, explica Clara. “Só neste mês que estive com o livro na mão e passei um dia na Feira Plana já ganhei mais do que com os seis primeiros meses do meu último romance. É outra lógica.” Algumas de suas contas, diz, já serão pagas com o dinheiro do livro – cenário pouco frequente quando se trata de literatura contemporânea no Brasil. A tiragem é de 3 mil exemplares.

“O mercado todo está em transformação. Assim como tem esse movimento de autores e pequenas editoras, há uma cena se formando com feiras e livrarias especializadas em publicações independentes, como a Banca Tatuí e a Monkix, que cobram taxas muito mais razoáveis e têm uma relação melhor com o autor”, analisa Eva.

Ela explica também que o projeto vai se desdobrar para outros suportes com uma parceria com a loja online Divindade, como papel de parede, quadros e outros objetos relacionados à obra.