SENSUALIDADE E O MALE GAZE DO INSTAGRAM

Ótimo debate proposto pela Paula Guimarães e Joanna Burigo, acho que é um tema que precisamos debater urgente, sem moralismos, sem individualizar, mas também sem medo de tocar nesse vespeiro. Clica:

PROJETO CURADORIA – O LIVRO

Muito feliz por fazer parte do livro “Mulheres Criativas – 100 histórias de mulheres inspiradoras”, de Nini Ferrari, lançado em junho. A publicação é um recorte do Projeto Curadoria, criado e organizado por ela. Até agora, são mais de 400 entrevistas com artistas de dezenas de países. É uma delícia também, e muito inspirador, conhecer o trabalho dessas mulheres, saber de seus processos, dúvidas, inspirações, perceber que temos muita coisa em comum e especialmente, diferenças. Não acredito que exista um específico feminino na produção artística, e é essa diversidade que o projeto mostra lindamente.

Para acessar a entrevista: https://projetocuradoria.com/eva-uviedo/

p.s.: É sempre um momento tenso decidir, entre todos seus trabalhos, aquele que me representa. Nestes tempos, tenho optado por esse, chamado “tranquilidade”. É sobre o momento presente, antes de quando pode acontecer tudo. Ou nada.⁠
p.s.2: para comprar o livro, acesse projetocuradoria.com

TRADIÇÃO, FAMÍLIA, PROPRIEDADE

Hoje, Dia das Mães, quero mostrar essa, que é a primeira imagem que lembro de ter visto da minha mãe como algo separado de mim.

Era o flyer do ato / performance de criação coletiva “Tú propiedad privada no es la mía”, 1972, baseada no texto de Friedrich Engels “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado” – uma provocação / direção do meu pai, Juan Uviedo. Ela surgia, forte e firme, por trás das mãos que tentavam calar sua voz, seu corpo.

Do outro lado do cartão, a frase: ⠀
“Mais militante que aquele que em seu trabalho intelectual combate, no terreno da ideia, contra os adversários de classe, é aquele que em seu próprio trabalho artístico arranca da classe dominante o privilégio da beleza”

– Ernesto Che Guevara.

Obrigada mãe, pela inabalável serenidade, doçura e firmeza pra sobreviver, ter voz e espalhar beleza nesse mundo louco ♥️ #DiadasMães

Pelo fim da militância irônica

Fazer chacota de cunho machista com alguém que é machista não te isenta de ser, também, machista

A polêmica começou no Twitter e envolveu, pelo que vocês podem notar, uma turma que não saiu da quinta série. Segue matéria do Buzzfeed, mas resumidamente é assim: Bolsonarinho #1 postou que não era pra professores falarem de feminismo nas escolas. Aí PC Siqueira desenterrou um tuíte do mesmo, de 2017, reclamando do feminismo pois sua ex-namorada estava em uma balada LGBT dançando até o chão com um cubano. A própria ex, Patrícia Lelis, botou mais lenha na fogueira, postando nas redes que o ex teria um micropênis, ejaculação precoce e outros detalhes de alcova. Bolsonaristas contra-atacaram trazendo a tona um caso em que o PC Siqueira teria sido traído. Baixaria total.

Problematizando até o chão

Pelamor do deus inexistente: a esta altura, ninguém deveria ter que explicar que piada de corno, além de infantilidade, é machismo tóxico level hard, e, como todo machismo, no fim da linha acaba gerando violência contra mulheres.

Como isso vira um bumerangue? Uma das consequências da masculinidade tóxica promovida pela sociedade patriarcal e que homens extremamente ciumentos (em parte graças à construção social de que mulheres são sua propriedade), homens com insegurança sobre sua masculinidade (e isso inclui os eventualmente encanados com o tamanho do seu pênis), podem acabar se tornando extremamente violentos, em parte porque a sociedade, para reafirmar que valores como virilidade e hombridade são os mais importantes de todos, tira sarro de qualquer característica que possa ser considerada uma “fraqueza” ou diminuição de masculinidade. Acha exagero? Procure saber quem são os incels ou mascus.

Tenho que aguentar Felipe Neto sendo a pessoa sensata do rolê

Claro que a tentação de usar qualquer coisa contra pessoas que a gente considera inimigos é grande. Claro que dá vontade de ver o feitiço se virar contra o feiticeiro.

Mas fazer isso perpetuando um modo de pensar que rejeitamos não ajuda em nada a promover uma mudança de consciência, que é o que precisamos de verdade.

Atira no que vê, acerta no que não vê

Me parece tão óbvio que não precisaria ser dito que não é legal fazer piada ou chacotas com questões que não são relativas ao caráter da pessoa, como: traição em um relacionamento monogâmico; colostomia — qualquer condição clínica aliás —; pau pequeno ou micropênis; revenge porn; vida sexual alheia — seja ela farta ou inexistente — ; e aparência física de homens ou mulheres.

Mesmo que o alvo da piada seja “contra o politicamente correto” e não siga ele mesmo esses critérios? Sim. Mas por que ser legal com quem não é legal?

Bem, pra começar, por princípios internos de respeito ao ser humano, independente de quem seja.

Depois, por todo mundo que enfrenta esse tipo de problema (no caso de doenças) ou insegurança e não tem nenhuma culpa de compartilhar essas características com a pessoa a quem a gente quer atingir.

Quando a gente reproduz essas chacotas, aumentando o estigma e o tabu sobre esses assuntos, estamos afetando indiretamente a vida de milhares de pessoas que não tem nada a ver com isso, além de contribuir para piorar a sociedade como um TODO.

Micropênis

Um motivo que vejo pra não fazer piada com tamanho do pênis é que vi um documentário, acho que no Home & Health (faz tempo), onde mostrava o drama das pessoas que sofriam com isso. Fiquei muito impressionada, porque imagino a dificuldade que seja procurar ajuda.

Fora isso, não tenho conhecimento para falar sobre, mas, vocês podem imaginar ou procurar saber o que é ser homem trans em uma sociedade falocentrada.

Ouçam essa pessoa trans não-binária
Segue na mesma lógica: “se não achar que é racismo, deixa de ser”? claro que não.

A Vida (sexual) dos Outros

É muito comum a gente usar o “não come ninguém / é mal comida” como formas de diminuir o outro. Como se a vida sexual da pessoa determinasse algum valor ao indivíduo. Isso é uma faca de dois gumes, né?

Certamente mulheres são as vítimas mais constantes de exposição de detalhes íntimos na internet, mas isso quer dizer que estamos autorizadas a aprovar o comportamento quando é contra um homem que a gente não gosta? É assim que queremos ser?

Sim, mulheres são mais julgadas quanto à sua vida sexual: ou é piranha ou é frígida ou mal comida. Mas quando usamos “xingamentos” como: “vai dar”, “vai transar” etc, estamos de novo atribuindo valor moral a algo que é apenas um problema ou escolha individual, algo de foro íntimo.

De novo um documentário sobre pessoas assexuais me levou a ter empatia com esses indivíduos e entender o quanto o estigma atrapalha a levar uma vida saudável. Um giro por qualquer rede social e vamos encontrar milhares de casos. Todas pessoas afetadas pela ideia vendida de que uma vida sexual fervilhante é o ideal de vida que TODOS os indivíduos ~normais~ devem alcançar.

Inclusive, e isso é assunto para outro post, a hipervalorização de experiências sexuais performáticas ou romantizadas é uma fonte sem fim de neuroses hoje. Se o parceiro faz ou não isso ou aquilo é uma combinação entre duas (ou mais) partes, e não tem nada a ver a gente ficar “fulane não faz sexo oral”. Lidar bem com a sua sexualidade é uma questão em mais complexa do que um manualzinho de boas práticas na cama.

Aparência física

Sobre aparência física nem precisa falar né? De pressão estética a gordofobia, da barriguinha do Ciro até a opressão estrutural que exclui corpos gordos, comentários sobre o corpo alheio são: prejudiciais. Pra homens e mulheres, que são julgados e prejudicados em diversos campos: relacionamento, trabalho, direitos à mobilidade, saúde, respeito.

Sobre o assunto, leiam Flavia Durante em sua coluna no UOL: https://flaviadurante.blogosfera.uol.com.br/

“Ah, mas as mulheres sofrem pressão sobre seus corpos e sua vida sexual também”. SIM, justamente devido a essa mesmo estrutura que agora a gente ACHA que está usando a nosso favor. Não estamos. Claro que não dá pra comparar a pressão que mulheres sofrem com a que homens sofrem. Mas não adianta negar que ela existe e que homens gordos sofrem muito com isso também. Precisamos questionar se a melhor maneira de reagir é de uma maneira que reforça o problema.

O problema da Ironia

ironia (do grego antigo εἰρωνεία, transl. eironēia, ‘dissimulação’) é uma forma de expressão literária ou uma figura de retórica que consiste em dizer o contrário daquilo que se quer expressar. Na Literatura, a ironia é a arte de zombar de alguém ou de alguma coisa, com um ponto de vista a obter uma reação do leitor, ouvinte ou interlocutor. Ela pode ser utilizada, entre outras formas, com o objetivo de denunciar, de criticar ou de censurar algo, diz a Wiki.

Mas, como diz a velha máxima: o problema de ser irônico é que, quando a pessoa não entende, quem passa por burro é você. Muita gente justificou seu machismo sob o pretexto de: eu não acho isso, mas eles acham; quero que eles vejam como é ruim etc.

No entanto, usar de machismo contra machistas, ainda que conscientemente não concordemos com os valores inseridos na piada (vamos fingir que isso seja possível), acaba sendo uma forma de legitimar uma lógica que queremos que desapareça. Então reforçá-la não faz sentido.

Não importa QUEM é zoado, mas pelo QUÊ. Se não achamos que algo é merecedor de piada ou chacota, isso deve ser independente de contra quem seja.

Se eu não acredito que “ser corno” é uma questão de honra, como posso compactuar com a zoeira? Se eu sei que micropênis é uma condição triste que traz sofrimento e estigma a homens cis e trans, como posso achar legal que alguém brinque com isso?

“Ah é ironia”, vão dizer. Mas vale a pena? É compreensível para todos que estamos apontando incoerências? Ou estamos apenas dando brecha para ser chamados de incoerentes?

Matando formiga com DDT

“Não é problematizar demais? É só uma piada…”

O problema, nesses dois casos citados no início, apenas para exemplificar, é que só demonstra e valida uma estrutura da sociedade que é machista (avacalhação porque é corno) e falocêntrica (tamanho de pau) portanto nociva. Ambas REFORÇAM o que supostamente querem combater.

Comparando, é como matar um inseto com um veneno que também te contamina. O inseto fica afetado, mas o maior afetado é você.

Apontar esse tipo de contradição não é “enfraquecer a esquerda”. É fortalecedor quando a gente percebe falhas e tenta melhorar. A união não deve ser a qualquer custo.

E se acusam movimentos de mulheres, negros e LGBTs de estarem, com isso, “separando a esquerda”, por favor procurem entender por que talvez a gente queira distância desse tipo de pensamento (e desses tipos) sim.