CARTA A QUEM AINDA VAI NASCER

Não foi o primeiro livro infantil que ilustrei do início ao fim, mas o primeiro a ser impresso e chegar às minhas mãos. Daquelas coisas que se pensa: por que não fiz isso antes? Porque eu amo livro infantil ilustrado, sigo comprando mesmo sem a desculpa de ser para as crianças, acho que o Brasil tem uma produção riquíssima do gênero e estou feliz demais com esses novos projetos – três deles já prontos e que devem chegar às livrarias ainda no primeiro semestre. ⁠

“Carta a quem ainda vai nascer”, de Babi Dias e Priscila Col del Nero é sobre vir a ser: ‘Uma mãe que ainda não é mãe escreve uma carta para o filho que ainda não é filho, é sonho. Ao imaginar esse filho, a mãe reflete sobre os caminhos para uma vida tranquila e feliz, cultivando relações saudáveis com o próprio corpo e com as próprias emoções, com as outras pessoas e com o mundo’.⁠

OUTRAS MENTES

Outras Mentes

Tô desde quinta-feira agarrada nesse livro do Peter Godfrey-Smith, filósofo e mergulhador (a capa é do excelente Laurindo Feliciano), que muitos amigos já tinham me recomendado, em parte pela minha sabida obsessão por polvos, outra porque o livro é ótimo, de fácil leitura sem ser simplista nem excessivamente acadêmico. ⁣

A cada capítulo rola um insight maior que o outro. Mas o trecho que me impactou por ora é não é sobre polvos, mas algo que vem de encontro a uma reflexão que vem me rondando, sobre ação tática e a não-ação taoista (melhor entendida como naturalidade do que como conformismo); sobre a necessidade que temos hoje de tomar mil vezes mais decisões morais, éticas e práticas por semana do que um homem do século XIX em toda a vida; e como ‘não fazer nada’ também é fazer.⁣

“Manter os neurônios e fazê-los funcionar demanda muita energia (…) Em um animal como nós, 1/4 da energia obtida pela alimentação é gasta só para manter o cérebro funcionando. Por que vale a pena ter um cérebro assim? Duas ideias orientam essa questão, no trabalho científico e na filosofia (…) A função original é fazer a conexão entre percepção e ação (…) Fazer alguma coisa, para quem é composto por muitas células, não é algo trivial. Exige uma grande medida de coordenação entre suas partes. Não é grande coisa se você for uma bactéria, mas se for um organismo maior, as coisas são diferentes. Neste caso, você enfrenta a tarefa de gerar uma ação coerente em todo o organismo a partir dos muitos outputs minúsculos. A uma multidão de microação é preciso dar a forma de uma macroação (…) [e, sobre binarismo de decisões x cooperação, ação e estratégia] Fazer um barco mover-se requer microações coordenadas, mas alguém tem que observar para onde o barco está indo.” ⁣

Daí também lembrei deste trecho do Tao que parece ter sido escrito inspirado em um cefalópode:

A coisa mais macia e flexível no universo⁣
Consegue vencer a coisa mais dura.⁣
E só o que não tem substância⁣
pode entrar onde não há uma fenda por onde entrar.⁣
É essa a vantagem da não ação.⁣
Mas poucos entendem o ensino sem palavras⁣
E os benefícios da não ação.⁣

[Tao Te Ching, Cap. 43]

A única coisa dura do polvo são seus olhos.