Entrevista: Lamparina Scope

Um ano atrás dei essa entrevista para o site Lamparina Scope, na qual falei de assuntos que não costumo abordar: de como cheguei no Brasil, a perseguição que meus pais sofreram na época da ditadura e como isso me afeta hoje. Entrevista ao vivo em vez de por email é outra coisa, e a Larissa Saram é ótima nisso. Na época fiquei um pouco assim porque não é o tipo de coisa que costumo compartilhar, mas hoje vejo que ela faz mais sentido do que quando saiu, porque são assuntos que entraram com tudo no radar.

leia alguns trechos:

L: Você nasceu na Argentina e bem pequena veio com a família para o Brasil. O que aconteceu?
E: Vim para cá em 83, tinha seis anos. Meu pai era diretor de teatro e estava sofrendo perseguição política por conta da ditadura militar. Ele conhecia a Ruth Escobar, tinha uns contatos e trabalhos aqui no Brasil. Era apaixonado pelo país, pelas praias. Quando a situação ficou muito ruim, viemos para tentar uma vida com mais liberdade.

L: Quais são as lembranças que tem desse período?
E: Quando a gente é criança, tudo é mais leve, uma brincadeira. Meus pais foram presos e tive que morar com uma tia. Não teve drama, foi até divertido. Tínhamos uma estrutura familiar e avós e tios acabaram suprindo as ausências. Lembro também de ter que sair fugindo, a gente mudou 500 vezes de casa, de cidade, de situação. Perseguição política é um horror.

L: Nunca soube dessa parte da sua história.
E: Não falo porque faz tanto tempo…

L: É dolorido lembrar?
E: Não sei se quando começar a mexer com isso vai doer, mas acho que não. Resolvi de outra maneira. Precisei pegar todas as coisas que mais gostava e fugir. Isso tem reflexos na minha personalidade hoje. Amo objetos, minha casa é lotada de tranqueira, tenho dificuldade de jogar fora. Por outro lado, não tenho sofrimento com o desapego. Se amanhã falarem que tem um incêndio e preciso abandonar tudo, ok. Gosto das coisas sem sofrer por elas.

L: Como esse momento da sua vida impacta no trabalho que você desenvolve hoje?
E: Comecei uma série que tem a ver com a Síndrome da Memória Falsa ou Síndrome da Memória Inventada. Conheci esse fenômeno por um caso de polícia em que as pessoas que foram condenadas não lembravam direito do que tinha acontecido. As provas as fizeram acreditar que eram culpadas, mas de fato elas não se recordavam. Este ano pretendo trabalhar com esse tema, das coisas que a gente inventa sobre família. Como vim para o Brasil bem nova, não convivi com avó e tios o quanto queria. Meu pai já morreu, então como não tenho como perguntar, invento. É lógico que é uma experiência minha, mas tem muita gente que passa por isso. Pessoas em situação de pobreza, que não têm foto de criança, de antepassados, de como viviam, eles têm que confiar numa lembrança.

L: Talvez o seu trabalho com os pratos tenha certo paralelo também, de pegar algo que está quebradinho, faltando pedaços, e transformar.
E: É, tem a ver. Até por serem objetos antigos, né!? Tenho várias amigas que falam “ah, esse prato foi da minha avó”. Não tenho prato da minha avó, tenho que inventar, então pego o prato da avó de alguém. Preenchi essa falta com coisas que sobraram de outras pessoas que não foram para lugar nenhum, não tiveram herdeiros. Eu herdo e tento ressignificar.

L: Você é muito crítica com as suas produções?
E: Sempre vai ter um “putz, isso aqui poderia ter ficado melhor”. É um saco, mas tudo bem, tem outros trabalhos na frente. Ficou o melhor que podia naquele momento e isso pra mim já basta.

L: É legal ouvir você dizer isso porque, em geral, mulheres se cobram mais no trabalho, desenvolvem mais a Síndrome da Impostora.
E:  Também sinto que sou impostora, mas todos são um pouco. Tem várias coisas que vejo de homem que é um truque do caramba. Senta ali na reunião, não tem nada pra falar, faz uma pose, fala nada além do óbvio e ganha três vezes mais. Penso “ué, então também posso”. Lido com o meu sentimento de impostora assim. Também exercito o pensamento de que se eu for uma impostora, sou das boas porque tá funcionando. Se me chamaram de novo para um trabalho é porque gostaram. Tem esse feedback do mundo. Ter passado por muito machismo e compartilhar essas histórias é o que faz a gente forte pra ter esse tipo de postura, de falar “eu consigo”.

L: Passou por alguma situação machista que te marcou muito?
E: Não, o que sempre vejo é que estamos numa caixinha. É melhor do que estar fora do jogo, claro. A gente está se empoderando, se juntando, mas ainda não conseguimos romper a segunda barreira, que é fazer coisas do mundo. Vi uma série de um produto que tinha cinco embalagens, cada uma assinada por um artista, todos homens. É provável que no Dia da Mulher essa marca chame cinco artistas do sexo feminino. Não! Quero que quando fizerem o produto, tenha mulheres e homens, brancos e negros. Estamos vivos no mesmo ambiente.

L: Os seus trabalhos sempre estão vinculados ao feminino. Não é uma escolha, então, certo?
E: Não, é o mercado botando a gente numa caixinha. Fico feliz de ser lembrada em projetos que envolve mulheres, livros infantis sobre mulheres e ilustrado por mulheres, que bom que estou nessa lista. Mas queria fazer também projetos que não fossem só exclusivos de mulheres. Não estou dizendo que não acho importante, acho importantíssimo, mas não escolhi fazer trabalhos de mulheres. É que sou mais lembrada quando é pra fazer trabalhos assim.

L: Quero falar sobre “Amor e Outros Peixes”, sua série que trata dos sentimentos humanos.
E: Na verdade trata da dificuldade em lidar com sentimentos. Como você se relaciona com um tubarão é diferente de como você vai lidar com um peixinho dourado e não estou dizendo que um é mais fácil do que o outro. O tubarão, você sabe onde ele tá, você tem uma relação mais de igual pra igual. A arraia é mansa, não faz mal a ninguém, mas se você der um pisão, pode te matar. Vou colocar só em metáforas… Às vezes você lida com um tubarão sendo uma pessoa adulta, em outros é uma criança. A série é toda em cima disso, estou buscando uma diversidade de posturas femininas e uma diversidade de conseguir lidar de analogias.

L: Em 2017, assistimos a uma série de polêmicas envolvendo obras de arte, como o caso do Queer Museu, no Santander Cultural em Porto Alegre, e o homem nu do Panorama da Arte Brasileira, do MAM. Como artista em atividade e filha de artistas perseguidos pela repressão, com você enxerga esse movimento aqui no Brasil?
E: Como uma disputa de narrativa e de poder. Ninguém está interessado em arte ou crianças. As pessoas querem inventar um fato e se colocar como salvadores e fazem isso sem pudor de desinformar, distorcer e atingir os outros. Querem colocar um carimbo de pessoas ruins em quem é um pouco mais progressista. E assim ganham mais seguidores, mais audiência, mais poder. É tudo, menos arte.As discussões poderiam ser outras: “pô, precisamos de um homem nu em 2017? Já não foi feito 500 vezes? Isso ainda choca, ou não choca? Não é isso que está sendo feito. É um bando de gente gritando, chamando de pedófilo comunista. É tão agressivo que não quero me envolver nessa história, pra mim afeta de uma maneira que é difícil.

L: Como assim?
E: Venho de uma vivência de pessoas que foram silenciadas e abafadas, abaladas e expulsas do país. E também vivo num país que não é meu. Por 30 anos fui levada a acreditar que sou “quase brasileira”. É uma coisa agressiva de se dizer porque tira sua identidade, como se tivessem tentando aliviar alguma coisa. Não tem o que aliviar, não sou brasileira, tá tudo bem. Então o sentimento de tentar falar alguma coisa num país que não é meu é de muita opressão. Talvez por isso tenha escolhido um tipo de arte que não é desenhar mulheres nuas, vaginas, que, aliás, acho todas essas mulheres que estão fazendo isso muito lindas. Mas não é a minha. Não consigo, não é meu tipo de arte. Talvez tenha escolhido fazer uma contestação mais sutil por puro medo. Por pura experiência que eu não quero passar por isso de novo.

L: Enxerga alguma mudança?
E: Acho que as mudanças acontecem a partir das mudanças de cada indivíduo. Então, essa é a vantagem de se juntar em mulheres, de compartilhar dores, medos, essas coisas, pra se fortalecer e conseguir. Vai ficar colocando lei em cima? Claro que são importantes, mas é a lógica do vagão rosa, se nos fecharmos em guetos, deixaremos todos os outros vagões pra eles. A gente tem que se impor, se colocar, precisa trocar ideias, informações, que são do nosso específico. Tem que ter espaço, espaço das mulheres, dos negros, todo mundo tem que ter seu momento. Então, não é vagão rosa. É “respeite os 10 vagões porque os 10 vagões são de todos”. Precisamos conversar e ir para um mundo mais preparado pra essas coisas. Enfim, acho que tudo é pouco tempo. Não tem nada resolvido. E o preço disso é eterna vigilância.

— Leia na íntegra aqui

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